As vendas de Natal foram fracas, o desemprego cresce, a economia custa a se recuperar. É a análise de Paul Craig.

O ex-secretário do Tesouro de Washington examina por diversos ângulos o comportamento da economia estadunidense, no original aqui e na tradução de Sergio Caldieri a seguir.

Washington: ambições de hegemonia e economia capenga?
7/1/2013, Paul Craig Roberts
Em novembro, a maior parte de novos empregos veio das vendas de atacado e varejo. Negócios que giram em torno no Natal criaram 65.700 empregos, ou 45% dos 146 mil empregos criados em novembro. As vendas do Natal foram total fracasso, o que implica dizer que em janeiro os mesmos empregos serão ‘descriados’, o que só se saberá em fevereiro, quando aparecerem os números de janeiro. O presidente da rede Family Dollar Stores, Howard Levine, contou a analistas que os clientes tradicionais de suas lojas não tiveram dinheiro para comprar brinquedos para os filhos nesse Natal, porque todo o orçamento ficou comprometido com comprar comida e outras necessidades básicas. Levine disse que seus clientes “visivelmente estão sem meios para comprar o que sempre compraram”.

Quanto aos novos empregos de dezembro, voltamos a antigos padrões: assistência à saúde, assistência social e atendentes de bares. Essas três categorias responderam por 93 mil dos novos empregos de dezembro, 60% de 155 mil empregos.

Obviamente a economia não está andando para parte alguma, senão direto para o fundo do poço. Seria preciso criar aproximadamente 150 mil empregos por mês, só para acompanhar o crescimento populacional (empregar os jovens adultos que chegam ao mercado de trabalho). Poucos empregos dos que são ‘criados’ pagam bem, e a constante, forte demanda por enfermeiros, garçons e garçonetes de bares e restaurantes é inacreditável: se os norte-americanos não têm dinheiro para comprar brinquedos para as crianças no Natal, de onde tirariam dinheiro para comer fora e beber em bares?

É que a imprensa-empresa faz o diabo para inventar alguma ‘recuperação’, noticiando o aumento das vendas de ar engarrafado. Mas os gráficos abaixo, elaborados por John Williams, de Shadow Government Statistics (http://www.shadowstats.com/) mostram a realidade:

Figura 1

 

Figura 2

Figura 3

Não esqueçam que 7,8% como taxa de desemprego (U.3) que a imprensa-empresa exibe nas manchetes não inclui os trabalhadores que desistiram de procurar emprego. A taxa oficial, U.6, inclui os que já desistiram de procurar emprego há mais de um ano. Essa taxa de desemprego é de 14,4%, quase três vezes a taxa U.3, que a imprensa-empresa prefere divulgar.

Em 1994, o governo dos EUA declarou inexistentes os norte-americanos desempregados que desesperaram de encontrar emprego há mais de um ano. John Williams calcula, por estimativa, o número desses trabalhadores deixados à deriva. Se se soma esse número ao valor de U.6, a taxa de desemprego nos EUA alcança 23%: três vezes maior que os números divulgados.

O número de desempregados é tão alto, porque milhões de empregos norte-americanos foram exportados, entregues a trabalhadores chineses, indianos e outros, e porque os empregos que restaram nos EUA estão concentrados em poucas mãos de poucos empresários os quais, todos eles, violam as leis antitrustes. (Quem quiser conhecer o mapa da concentração das empresas de mídia, veja em http://frugaldad.com/2011/11/22/media-consolidation-infographic/).

Temos de ter muito cuidado com a mídia ‘econômica’ e ‘economistas’ profissionais que digam que haveria alguma recuperação em curso nos EUA, quando a taxa de desemprego é tão alta, e a renda média, tão baixa.

É verdadeiro mistério: como algum político de algum partido, qualquer partido, poderia algum dia ter acreditado que um país cuja economia sempre viveu movida pelo gasto dos consumidores poderia estar em crescimento, se os empregos que produzem o dinheiro para o consumo que faz girar a economia foram entregues a empresários estrangeiros em terras distantes.

Fato é que os americanos receberam, como se fosse noticiário econômico, um pacote de mentiras, construídas para convencer os eleitores a aceitar uma economia que só produz dinheiro para Wall Street, acionistas e diretores de grandes corporações, à custa de todos os demais habitantes dos EUA. Os empregos exportados rendem gordos lucros ao 1%. E as famílias que tradicionalmente faziam compras nas lojas Family Dollar não têm dinheiro nem para comprar presentes de Natal para os filhos.