Etiquetas

, , , , , ,

O ministro do Exterior russo Sergey Lavrov, numa entrevista de certo modo surpreendente à TV de Cabul, mostrou que os interesses nacionais russos também estão envolvidos na guerra que os EUA travam no Afeganistão, uma vez que grupos terroristas atuam igualmente em seu país, perto da fronteira afegã. Em tom jocoso e irônico, ele argumentou que Washington de modo nenhum pode retirar suas tropas de lá, por considerar que estão concluídas as operações militares para cumprimento da missão determinada pela ONU. Vai mais fundo, entretanto, e traz à luz as manobras de cerco estratégico em que se empenha o governo estadunidense em relação à Rússia.

Crédito: moscowtravels.ru

Para ler o relato original do diplomata e comentarista internacional indiano M.K. Bhadrakumar, clique aqui, ou leia abaixo a tradução cedida por Sergio Caldieri.

Moscou, sarcástica, sobre o Afeganistão de Obama
20/3/2012, MK Bhadrakumar, Indian Punchline

A entrevista exclusiva que o ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov concedeu ao canal de televisão TOLONEWS (e que foi ao ar no domingo à noite) será atentamente analisada em todas as chancelarias do mundo – tanto em termos do conteúdo quanto em termos da oportunidade. O pensamento dos russos sobre a situação afegã e multidimensional.

Pode-se dizer que ali se misturam memória e prazer, porque os EUA estão hoje em situação comparável à que a União Soviética vivia na última metade dos anos 1980s. A principal diferença é que Moscou não inflige qualquer dor aos EUA, em retaliação ao que Washington fez para sangrar o Exército Vermelho durante a Jihad afegã. Mas, ao mesmo tempo, veem-se risinhos bem humanos em Moscou, ante as voltas que a história dá.

Um traço forte do pensamento estratégico russo é a lógica gélida, além do realismo e de um pragmatismo que jamais descuida dos interesses nacionais. E, nesse caso, os EUA estão lutando a guerra dos russos contra o radicalismo e o terrorismo islamista – não importa se intencionalmente ou contra vontade. O que interessa à Rússia é erradicar os elementos extremistas perniciosos que ameaçam a estabilidade da Ásia Central a qual, é claro, é “o subventre macio”[1], mais vulnerável, da Rússia. Moscou constata deliciada que o ocidente está tomando conta dessa importante questão, que economiza muitos recursos russos que, não fossem as coisas como são, teriam de ser investidos nesse front.

A Rússia sempre calcula os rublos que tenha no bolso – bolcheviques em discussões incendiárias por fúteis questões ideológicas são exceção tola na história russa; e, depois deles, a história retomou o curso sobre o Volga. Assim sendo, se e quando Moscou dará algum apoio ao esforço de guerra de EUA e OTAN é questão que, compulsivamente, se trata em termos comerciais.

Diferente do efervescente general Pervez Musharraf, que concorda espontânea e entusiasticamente com oferecer rotas aéreas pelo espaço paquistanês, portos e rodovias por terras e mares, para o transporte ad infinitum de suprimentos para a OTAN, Moscou insiste em cobrar de Bruxelas gordos impostos de passagem. E, se a OTAN quer helicópteros russos para o esforço de guerra, não haverá problema algum, desde que Bruxelas pague. A Rússia já firmou até um contrato de prestação de serviços com a OTAN, para reparos e manutenção dos helicópteros.

Alguma coisa desse realismo inabalável e sem vacilações [leninista? NTs] bem deveria ser muito admirado por paquistaneses (e indianos), admirado e copiado. A Índia, ao que parece, gastou mais de 1 bilhão de dólares no desenvolvimento da infraestrutura afegã. Mas, como Lavrov diz na entrevista, a disposição dos russos para reparar, consertar ou reconstruir a estrada (e túnel) Salaang (vital, como elo de comunicação entre o sul e o norte do Afeganistão) depende completamente de encontrarem-se outros financiadores para o projeto; apesar de a estrada e o túnel Salaang terem sido originalmente construídos pelos soviéticos e de Moscou conservar os desenhos e projetos daquela deslumbrante maravilha da engenharia. (Sugiro uma caminhada por dentro do túnel, como fiz uma vez, pelos 2,6km de extensão do túnel Salaang. Há até dutos de oxigênio, muito necessário naquela altitude de 4.000m.)

Bem obviamente, Moscou lastima que os EUA, que estão sem dinheiro, tenham resolvido que “chega!” e estejam inclinados a zarpar o mais rapidamente possível do Afeganistão. Lavrov diz enfaticamente e sem piscar, que EUA e OTAN têm de cumprir o mandado que o Conselho de Segurança lhes deu, e que não podem sair de lá enquanto não houver estabilização alguma; e que nada justifica a retirada dos soldados em prazos definidos por “transição” ao longo de 2013, ou algum fim de alguma “missão de combate” em 2014. Para quem assista de longe, é como se Lavrov tivesse traçando o projeto para a OTAN, como se a Rússia fosse membro da OTAN.

E isso significaria que Moscou, de repente, virou entusiasta da guerra – como se vê na Índia, a qual mais entusiasmada impossível, com a guerra liderada pelos EUA? Claro que não. Minha impressão é que Lavrov está perfeitamente consciente de que Barack Obama sempre decidirá a favor do que indiquem, exclusivamente, os interesses dos EUA; e, naquela dada situação, o que interessa aos EUA é livrar-se logo, de algum modo, daquela guerra inútil, que drena os recursos dos EUA e pesa como um albatroz no pescoço dos EUA, impedindo que prossiga sua marcha imperial de ataque a todos os recursos globais comuns.

A questão, portanto, é por que Lavrov disse que a “missão de combate” tem de continuar. Em minha opinião – de quem observa há muito tempo as circunvoluções do pensamento de Lavrov –, ele está, exclusivamente, chamando a  atenção de todo o mundo para a contradição fundamental que há nas políticas dos EUA: de um lado, dizem que já não há necessidade de “missão de combate”, e, por isso, sairão de lá até 2014; mas, simultaneamente, insistem em que é necessário permanecer lá… nas bases militares, até muito depois de 2014. De fato, a Rússia já entendeu – e está furiosa com isso – que os EUA estejam convertendo a guerra do Afeganistão em álibi, no movimento para instalar uma plataforma, da qual os EUA contam com continuar a perseguir seus ‘alvos’ globais.

É geopolítica, estúpido! De fato, Lavrov não poupa palavras em oposição ao plano de jogo dos EUA, para instalar bases militares no Afeganistão. Moscou vê claramente que Obama anseia por conseguir alinhavar algum pacto estratégico  com Karzai antes da reunião de cúpula da OTAN em Chicago. Quer dizer: Moscou estima que esteja próxima a hora de a onça beber água.

Parte substanciosa da entrevista de Lavrov tem por objeto a questão da reconciliação nacional no Afeganistão. O pensamento russo, parece, flui do seguinte modo:

A. Moscou não se oporá à reconciliação com os Talibã como tal.
B. Mas Moscou quer que a reconciliação seja parte de um processo intra-afegãos.
C. Moscou desaprova os contatos clandestinos entre EUA e os Talibã e a total falta de transparência de todo o processo.
D. Por outro lado, Moscou apoia Karzai – e pode-se pressupor que esteja sendo encorajada pela decidida disposição do presidente afegão de cuidar da própria vida e encontrar caminho próprio.
E. A coisa toda deve andar na direção de um acordo inclusivo, que acomode os vários grupos afegãos.
F. Gente de fora deve ter participação mínima, como meros facilitadores.

Interessante, Lavrov não fez qualquer crítica, direta ou indireta, ao Paquistão. Nem defendeu qualquer papel especial para a Rússia nem, sequer, para a Organização de Cooperação de Xangai. Não parece esperar qualquer rápida estabilização no Afeganistão.

Sem dúvida, Moscou planeja manter o problema afegão como uma espécie de referência, no “reset” das relações EUA-Rússia. A Rússia tem algumas vantagens aqui, e planeja servir-se delas. Exemplo mais recente e espantoso disso, é a Rússia ter oferecido Ulyanovsk como armazém de passagem para transporte de suprimentos para a OTAN.

A transcrição integral da entrevista de Lavrov (“Rússia sobre OTAN-EUA no Afeganistão: Entrevista de Sergei Lavrov”, 19/3/2012), pode ser lida aqui (em português, com vídeo em inglês).

+++++++++++++++++++++++++++++++

[1] Orig. “soft underbelly” [literalmente “a barriga macia”]. É expressão que Churchill usou na 2ª. Guerra Mundial, referindo-se à Itália, que seria via mais fácil para atacar a Alemanha. Mais sobre isso clicando aqui [NTs].