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A evolução dos acontecimentos no Irã e no Paquistão mostra um comportamento no mínimo curioso – embora não surpreendente – dos Estados Unidos. Estes são uma potência em declínio, que age entretanto como se estivesse em expansão, com agressividade e ambições crescentes. Em consequência, os países que agride se veem forçados, a fim de resistir à agressão, a adotar procedimentos que os fortalecem. Isso acontece há anos em relação ao Irã,  que é agredido sob diversas formas, principalmente por bloqueio econômico e financeiro, ao qual ele responde com alianças para troca direta com China, Índia e outros países. Ele se fortalece por esse meio, que lhe possibilita exportar petróleo, e, inversamente, os EUA se prejudicam, pois daí resulta um mais acelerado esvaziamento do dólar enquanto moeda de curso internacional.

Mais recentemente, vê-se acontecer o mesmo com o Paquistão. Pressionado por Washington com ataques de drones e outras ofensas à sua soberania, este país responde se aproximando de Rússia e China para se fortalecer, gerando com isso um verdadeiro deslocamento de placas tectônicas na relação mundial de forças. Sobre o assunto, MK Bhadrakumar publicou neste dia 2 de junho interessante matéria no Asia Times, cuja tradução (de Roberto Teixeira) segue abaixo e o original pode ser lido clicando aqui.

Asia Times, 2-3.6.12

O Paquistão recebe um afago e um abraço
por MK Bhadrakumar

As visitas lado a lado ao Paquistão esta semana pelo ministro do Exterior da China, Yang Jiechi e o enviado especial do presidente russo para o Afeganistão, Zamir Kabulov, são ricas em simbolismo político e conteúdo estratégico.

As consultas vieram num momento em que o Paquistão está sofrendo com a pressão dos Estados Unidos, o futuro do Afeganistão continua a ser complicado e a segurança regional está em movimento. O calendário das consultas vai chamar a atenção, uma vez que ficou imprensado entre a cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) em Chicago, em 20-21 de maio, e a próxima reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), em Pequim, em  6-7 de junho. O Afeganistão é uma questão candente para ambos os agrupamentos internacionais.

Mas há um contexto global, também. China e Rússia se coordenam estreitamente sobre temas regionais e internacionais. O que se destaca é que Pequim e Moscou foram à frente para ampliar o apoio político ao Paquistão num momento em que Washington tenta isolá-lo e fazer Islamabad curvar-se à sua vontade.

O presidente paquistanês, Asif Ali Zardari foi convidado para a reunião de cúpula da NATO e, em seguida, humilhado publicamente . O secretário-geral da aliança, Anders Fogh Rasmussen, e o presidente dos Estados Unidos Barack Obama se recusaram a encontrá-lo. Obama mostrou ainda o seu desagrado pela omissão do Paquistão na lista de países aos quais agradeceu pelo apoio ao esforço militar no Afeganistão e apontou para o Paquistão com um pedido a cooperar. Através de vazamentos de mídia, autoridades dos EUA divulgaram que, em uma sessão a portas fechadas, a secretária de Estado Hillary Clinton submeteu Zardari a uma arenga de uma hora de duração.

Um afago de dragão …

Yang resumiu sua missão quando disse em Islamabad, “O Paquistão merece o pleno apoio da comunidade internacional “. Ele disse que Islamabad tem desempenhado um papel importante na luta contra o terrorismo e convidou a comunidade internacional a reconhecer isso. Salientou que “a China continuará a apoiar firmemente o Paquistão para proteger sua soberania, independência, integridade territorial e dignidade.” Ele deixou claro que ele estava em Islamabad para reforçar e impulsionar a parceria estratégica da China com o Paquistão.

Yang disse que, com a evolução da situação internacional, o relacionamento sino-paquistanês acrescentou importância estratégica à promoção da paz mundial, da estabilidade e do desenvolvimento. A China apreciou o papel importante e ativo desempenhado pelo Paquistão nos assuntos internacionais e regionais, disse ele. Yang destacou que a China vai sem vacilação prosseguir a política de fortalecer ainda mais a sua amizade com o Paquistão e está disposta a trabalhar em conjunto para aprofundar a cooperação prática e reforçar a coordenação estratégica e elevar a parceria a novas alturas.

A agência de notícias Xinhua informou que a China e o Paquistão decidiram “reforçar a coordenação multilateral e salvaguardar os interesses comuns de ambos os lados.” A referência parece ser o papel do Paquistão na SCO, cuja próxima cúpula em Pequim terá a participação de Zardari.

Enquanto a visita oficial Yang tinha uma agenda abrangente, consultas Kabulov foram focadas e determinadas. Ele chegou a Islamabad para discutir principalmente a situação no Afeganistão e a próxima visita ao Paquistão pelo presidente russo, Vladimir Putin. Kabulov é especialista em Moscou na negociação de problemas diplomáticos no Afeganistão. Disse ele, segundo o primeiro-ministro Yusuf Raza Gilani, que existem “enormes interesses comuns” entre a Rússia e o Paquistão sobre questões regionais e de cooperação bilateral. Claramente, a referência é à situação em torno do problema afegão, onde tanto a Rússia quanto o Paquistão têm procurado um papel maior, enquanto os EUA procuram restringi-los a funções específicas.

A visita de Putin ao Paquistão, que se espera “para breve”, será a primeira de um chefe de Estado russo na história de seis décadas de relações entre os dois países. Ele vai consolidar a mudança notável ocorrida nas relações entre os dois países nos últimos dois a três anos.

O fato de que Putin escolheu o Paquistão para ser uma das suas primeiras visitas ao exterior depois de tomar posse como presidente no Kremlin demonstra a “mudança de humor” na geopolítica da região. Muitas tendências precisam ser levadas em conta aqui.

A Rússia está se preparando para desempenhar um papel eficaz nos assuntos mundiais. Pode-se esperar que sua postura assertiva sobre a Síria e o Irã se estenda para o Paquistão e a Ásia Central. A Rússia manteve a sua participação na reunião de cúpula da NATO em um nível baixo e cuidou de que nenhum dos líderes convidados da Ásia Central – Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão e Tajiquistão – tampouco participasse. Enquanto isso, Moscou também sediou uma reunião de cúpula da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO). Putin estará durante a próxima semana realizando visitas à Bielorússia, ao Cazaquistão e ao Uzbequistão, e na prática estará lançando seu projeto euro-asiático.

Há sinais de que Moscou espera que a SCO tome posições comuns sobre questões regionais e internacionais. A reunião de cúpula de Pequim pode formalizar um “mecanismo” para esse fim. Os meios de comunicação russos previram que a cúpula terá uma postura de apoio às preocupações da Rússia sobre a questão da defesa anti-míssil dos EUA.

Enquanto isso, a redefinição EUA-Rússia permanece no marasmo e a probabilidade é que ele poderia degenerar durante os próximos meses até que uma nova administração assuma na Casa Branca no próximo ano. As relações se tornaram cada vez mais amargas a nível diplomático. O adversário republicano de Obama, Mitt Romney, declarou que a Rússia é uma “força desestabilizadora no cenário mundial” e é “inimigo número um na geopolítica” dos EUA, e prometeu “re-re-situar” o re-situar promovido por Obama nas relações EUA-Rússia. Obama não pode se dar ao luxo de ser visto como “mole” com a Rússia. Obviamente, a Rússia foi arrastada para o turbilhão da campanha eleitoral presidencial dos EUA.

Desconsiderando as objeções russas, a cúpula da Otan de Chicago também decidiu avançar com a implantação do sistema de defesa antimísseis dos EUA. Moscou já avisou que irá tomar contramedidas. Uma nova “quinta geração” sistema de mísseis foi testada na semana passada. Acima de tudo, Washington persiste com uma política de intromissão na política interna da Rússia e se posiciona para desafiar projeto de Putin Eurásia.

… e um abraço de urso

Por outro lado, Rússia e Paquistão estiveram intimamente em consulta sobre a situação no Afeganistão, e reconhecem os interesses legítimos um do outro. Ambos dão primazia a uma abordagem regional para a resolução do problema afegão. Cada lado reconhece que o outro tem um papel importante a desempenhar no jogo afegão. Uma boa relação de trabalho se desenvolveu através dos últimos um ano ou dois. A Rússia trabalha com o Paquistão no âmbito bilateral, bem como no fórum quadrilateral que inclui Tadjiquistão e Afeganistão.

Por sua parte, o Paquistão considera as políticas regionais russas de forma positiva como favoráveis a seus interesses vitais. Mais importante ainda, Paquistão e Rússia compartilham um profundo ceticismo sobre a “transição” norte-americana no Afeganistão e a capacidade das forças de segurança afegãs de manter a segurança. Ambos avaliam que a NATO perdeu a guerra, mas prepara o terreno para manter uma presença militar de longo prazo a um custo acessível. Em suma, eles sentem fortemente a necessidade de trabalharem juntos na próxima “transição” no Afeganistão e no período pós-2014.

A geopolítica da guerra afegã diz respeito à Rússia e ao Paquistão. Nenhum dos dois está disposto acreditar no que os EUA alegam serem os objetivos da guerra. A Rússia suspeita das intenções dos EUA, tanto quanto o Paquistão. Ao mesmo tempo, ambos estão conscientes da vulnerabilidade EUA/NATO no que respeita às rotas de trânsito através do Paquistão e da Rede de Distribuição Norte. O Paquistão não está só na exigência de um aumento na tarifa para as rotas de trânsito.

Na verdade, o Paquistão procura ansiosamente um aliado na Rússia para ganhar espaço estratégico vis-à-vis dos EUA, enquanto Moscou vê uma janela de oportunidade para recuperar sua perda de influência no sul da Ásia após a derrota no Afeganistão na década de 1980. Assim, é provável que o Paquistão se torne um elemento-chave na evolução das estratégias regionais russas. Na visão de Moscou, a realização dos objetivos dos EUA no Afeganistão e Ásia Central é largamente baseada na cooperação do Paquistão como um parceiro dócil.

Em outras palavras, a fim de combater eficazmente o impulso estratégico dos EUA na Ásia Central, a Rússia (e a China) teria empenhar-se para fortalecer a autonomia estratégica do Paquistão e sua capacidade de resistir às pressões estadunidenses. O Paquistão, por sua vez, demonstrou notável coragem para enfrentar as pressões estadunidenses. O próprio projeto dos EUA chamado de Nova Rota da Seda, destinado a erodir a influência russa e chinesa na Ásia Central, fica paralisado sem a ardorosa cooperação do Paquistão.

No entanto, uma parceria russo-paquistanesa não pode existir num vácuo. Os laços bilaterais são quase nada atualmente. Para uma parceria estratégica sobreviver e ganhar força ao longo do tempo, ela precisa de conteúdo substantivo. Aí está onde se pode esperar que a visita de Putin ponha a bola a rolar. Kabulov disse a Gilani que Putin tinha em vista uma visita “produtiva”, que seria fundamental no reforço multifacetado de cooperação entre a Rússia e o Paquistão.

Kabulov discutiu a agenda da visita de Putin. Gilani listou entre as áreas potenciais de cooperação o reequipamento da usina de aço do Paquistão em Karachi, defesa e cooperação energética. (Curiosamente, as reuniões de Kabulov incluíram o chefe do exército paquistanês Ashfaq Kiani.) Significativamente, Gilani deu boas-vindas à participação da Rússia no projeto do gasoduto Irã-Paquistão e destacou que “algumas propostas concretas”, já foram discutidas .

Em termos geopolíticos, o aquecimento dos laços russo-paquistaneses se enreda com a crescente coordenação entre Moscou e Pequim sobre questões regionais e internacionais. O fato de que Yang e Kabulov visitam o Paquistão ao mesmo tempo sugere um grau de coordenação sino-russa em sua política regional para o Paquistão. Na verdade, nem Yang, nem Kabulov abertamente cutucaram o Paquistão no sentido de um “desafio estratégico” aos EUA. Mas, a essa altura, não era preciso isso. Basta dizer que o novo paradigma já apresenta o Paquistão com uma oportunidade sem precedentes para negociar com os EUA a partir de uma posição de força.

A perspectiva de visita de Putin ao Paquistão será altamente inquietante para Washington na presente conjuntura. Em circunstâncias normais, Washington poderia ter visto a curva ascendente das relações russo-paquistanesas com equanimidade, uma vez que tanto a Rússia quanto a China só teriam uma influência moderadora sobre o Paquistão. Mas esses são tempos extraordinários, com os EUA em conflito simultâneo com Moscou e Pequim.

O fracasso total da estratégia dos EUA no Afeganistão ficou exposto em termos de sua excepcionalidade e na ausência gritante de um consenso regional. Yang e Kabulov poderiam e deveriam ter sido os melhores aliados dos EUA no Paquistão no sentido de pedir a este para trabalhar com a comunidade internacional com vistas a uma paz duradoura no Afeganistão. O paradoxo é que, mesmo na atual situação de alta volatilidade nas relações dos EUA com Rússia e China, eles poderiam muito bem ter feito isso, mas sem os lances de Washington.

O embaixador MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira da Índia. Suas missões incluíram União Soviética, Coréia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.