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Hu Jintao e Ahmadinejad em Pequin, (Foto Peoples’ Daily, 8.6.12)

Nada é tão revelador da mudança atual na correlação internacional de forças quanto o deslocamento da “fronteira do perigo” no mundo. Durante séculos, essa linha esteve na Europa, em particular,  na divisa entre Alemanha e França, de onde irromperam várias guerras regionais e duas guerras mundiais catastróficas. Hoje, com a emergência da China no papel de potencial mundial e o ressurgimento da Rússia nessa categoria, a linha de perigo se deslocou para leste, mais especificamente para a região do Oriente Médio, onde está em curso a preparação de enorme e terrível conflito. Um dos lados tem forma nítida e organizada: os Estados Unidos e seus aliados da Otan, associados a expressões locais de aristocracia tribal capitalista fundada no petróleo. O lado oposto, a articular-se em defesa de Irã e Síria, que o bloco estadunidense quer ocupar, ainda toma forma.

Há dias publicamos em Mirante a matéria com o título acima, na qual MK Bhadrakumar analisa a evolução desse conflito. Hoje, novamente divulgamos crônica interessante do diplomata e publicista indiano a respeito do tema. Ele fala da recente reunião em Pequin da Organização de Cooperação de Xangai, um pilar da aliança em construção que se contrapõe ao imperialismo estadunidense, juntando China e Rússia a vários países vizinhos, com aproximação de Índia, Paquistão, Afeganistão e Irã. O original você pode ler clicando aqui e a tradução, apresentada na Internet por Sergio Caldieri, vem a seguir:

 

SCO: Shanghai Cooperation Organization / OCX: Organização de Cooperação de Xangai
Para enfrentar tempos de mudanças
12/6/2012, M K Bhadrakumar, Asia Times Online

A Organização de Cooperação de Xangai/Shanghai Cooperation Organization (SCO) sempre foi a soma total das concordâncias possíveis que houvesse, em cada momento, no relacionamento entre China e Rússia. Daí advieram sempre as potências e as fragilidades do grupo. Na reunião da SCO, em Pequim, semana passada, foi novamente o que se viu.

No décimo ano de existência, a identidade da SCO – que inclui China, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão – ainda está em mudança. É muito menos que uma aliança formal, mas é muito mais que mero ‘balcão de conversa’. Ainda não tem ‘líder’ e orgulha-se do próprio novo formato multilateralista, mas, de fato, nada se move na agenda da SCO sem o aceno de concordância de China e/ou Rússia.

A Rússia admitiria a Índia como membro pleno, mas a China não admite; Cazaquistão, Tadjiquistão e Quirguistão admitiriam o Irã, mas Rússia e China não admitem; a China quer a Turquia como “parceiro de diálogo”, e a Rússia não faz objeções; ambas, Rússia e China querem o Afeganistão como “observador”; e Cabul, sem dúvida, já está “dentro”.

A SCO não tem agências de “implementação”, mas já é voz que se ouve cada dia mais. O foco primário da organização sempre foi a Ásia Central, mas começa agora a lançar redes por toda a Eurásia e pelas regiões vizinhas. Um dos objetos da cooperação é a atividade antiterrorismo, mas sem estrutura unificada de “comando e controle” e, tudo considerado, cabe a cada país membro cuidar individualmente dos próprios problemas. A Organização de Cooperação de Xangai não é bloco militar, mas os exercícios militares ajudam a aumentar a coesão estratégica interna e a aprofundar a cooperação para defesa e segurança de todos.

Em termos genéricos, ainda é possível encontrar argumentos para mostrar que a SCO é organização que quase não tem efeito algum no plano prático; mas também já se tem de conceder que se constituiu uma massa crítica, e que o agrupamento vai ganhando cada dia mais tração.

Esse ano, a reunião da Organização de Cooperação de Xangai, em Pequim (6-7/6/2012) atraiu especial atenção. Quatro fatores podem ter contribuído para o inusitado interesse com que a reunião foi acompanhada em todo o mundo.

Para começar, a volta de Vladimir Putin ao Kremlin como presidente ‘eletrificou’ a política regional e mundial. Os jurados ainda estão deliberando sobre se Putin ‘tenderá’ na direção dos “orientalistas” que há entre as elites da política externa da Rússia, distanciando-se assim dos “ocidentalistas” que quase sempre dominam a cena; ou se Putin apenas fará uso seletivo do “orientalismo”, para ganhar alavancagem em relação ao ocidente, de cujo campo cultural a Rússia faz parte; ou se navegará em rota mediatriz entre o oriente e o ocidente, para tirar o máximo proveito possível, para a Rússia, do crescimento chinês e para, ao mesmo tempo, colher qualquer benefício possível, para a Rússia, das rusgas que surjam no relacionamento China-ocidente, enquanto a Rússia concentra-se na própria regeneração como potência mundial independente e um dos grandes ‘equilibradores’ que há no sistema internacional.

Em segundo lugar, até que haja mais clareza sobre as novas lideranças em Washington e Pequim, permanecerá alguma névoa sobre o futuro das relações entre as grandes potências. É preciso esperar ainda mais ou menos um ano. A Rússia, por assim dizer, chegou um pouco adiantada à festa e tem de esperar no saguão, porque a noite ainda é criança, e EUA e China ainda vasculham os guarda-roupas cavernosos, para ver o que encontram de aproveitável para compor a toalete mais adequada.

Ao mesmo tempo, as relações respectivas de Rússia e China com os EUA estão na chuva (por diferentes motivos), o que torna indispensável que os dois países partam à procura um do outro e se deixem ver de mãos dadas. Em terceiro lugar, a realidade geopolítica no solo pátrio da Organização de Cooperação de Xangai é que EUA e OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) estão já no estágio final de implantar presença militar de longo prazo na Ásia Central.

Nem a SCO (que já existe há quase uma década) nem Rússia ou China individualmente foram capazes de impedir que EUA e OTAN prosseguissem na trilha que definiram. A realidade emergente exige que a SCO faça grandes ajustes. Dito claramente: o apito-aviso dos marinheiros que chegam ao porto toca cada vez mais alto e forte, e Rússia e China sentem que não será fácil manter as raparigas da Ásia Central recatadamente ocupadas dentro de casa.

Em quarto lugar, não importa quais sejam os rumos tortuosos que tome o impasse afegão, a corrida pelos recursos naturais do Afeganistão já começou. China e Índia já disputam os recursos minerais intocados daquele país, mas a coisa ainda é incipiente.

A Nova Rota da Seda dos EUA é tentativa mal disfarçaca de fixar a liderança de Washington – enfileirada com a Índia – no processo de integrar a Ásia Central, rica em recursos, ao mercado mundial, mediante o desenvolvimento de vias de comunicação que cruzem o sul da Ásia. Brevemente, New Delhi hospedará uma conferência internacional de grupos empresariais envolvidos ou interessados no Afeganistão; é iniciativa indiana, mas o evento será oficialmente anunciado em Washington.

Erguendo a cabeça por cima do parapeito

Como essas subcorrentes se comportarão, ninguém sabe no momento, e China e Rússia estão provavelmente fazendo a coisa certa, ao posicionar a SCO como corpo de coordenação para os estados regionais, na esfera da cooperação econômica e de segurança. Equivale a dizer que China e Rússia perceberam como mais necessário e de maior serventia agruparem-se, do que qualquer outro modo possível de ‘conter’ a estratégia de “contenção” dos EUA em relação a ambas.

Por sua vez, a divulgação sem precedentes da parceria sino-russa durante a visita de estado de Putin à China pouco antes da cúpula da SCO deu ainda mais peso e eloquência aos procedimentos de grupamento. A reunião, nessas circunstâncias, estava destinada ao “sucesso”, e o único ponto ainda por discutir seria como garantir substância tangível ao sucesso da história.

Os EUA forçaram o ritmo de operação da SCO, com vários movimentos de provocação contra Rússia e China. Os EUA deram boas-vindas ambivalentes à presidência de Putin, movidos pela crença simplória – ou mero pensamento desejante [wishful thinking], dependendo do ponto de vista do analista – de que o sistema político russo padeceria de doença terminal; essa ideia arrastou Washington e cruzar todas as linhas vermelhas das relações entre estados e a intervir acintosamente na política doméstica russa, não raras vezes com declarada animosidade contra a personalidade política de Putin.

É difícil acreditar que tudo que disse o embaixador dos EUA em Moscou, Michael McFaul, desde que chegou à cidade, tenham sido exibições solo de professor bem intencionado que simplesmente ignorasse o b+a=ba do código de conduta do hiper codificado mundo da diplomacia. (Afinal, já ocupou posição importante na Casa Branca, antes de ser nomeado para Moscou.)

Aqueles rompantes podem não ter acertado diretamente o plexo do ‘reset’ EUA-Rússia, mas eram parte da implantação já decidida no governo dos EUA dos planos para instalar o sistema de defesa de mísseis antibalísticos [orig. anti-ballistic missile defense system (BMD)] nos países da OTAN, ignorando os protestos da Rússia. E recomeçou o velho jogo de jogar a Georgia contra a Rússia. (A mais recente visita da secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton a Tbilisi coincidiu com a chegada de Putin a Pequim, na 4ª-feira passada.)

Mais importante que isso, os EUA fizeram de tudo para minar os esforços dos russos para iniciar um diálogo político dentro da Síria, ao estimular (clandestinamente) a Arábia Saudita e o Qatar a incitar a violência e a sistematicamente desqualificar a missão do enviado da ONU, Kofi Annan.

Quanto ao Afeganistão, Washington continua a só muito seletivamente envolver Moscou – primeiro, em relação à operação da Rede Norte de Distribuição [orig. Northern Distribution Network], que facilita o suprimento das forças da coalizão liderada pelos EUA no Afeganistão – , ao mesmo tempo em que desdenha as aberturas russas para alguma política ampla de cooperação. O sentimento de indignação de Moscou ficou muito evidente, quando a Rússia respondeu “não” ao apelo da OTAN, em Chicago, para que contruibuísse com $10 milhões para financiar a construção das forças armadas afegãs.

E o atrito também aumentou na tateante relação entre EUA e China, depois da decisão de Washington de ‘reequilibrar’ suas forças com vistas ao movimento “de pivô” na direção do Pacífico Asiático. Também contra a China, vê-se já um robusto movimento dos EUA, de intervenção nos negócios internos chineses.

A China também dá sinais de preocupação crescente com a implantação do sistema norte-americano de mísseis de defesa no Pacífico Asiático. Comentaristas russos já lembraram que, com a implantação do sistema ABM [Anti Ballistic Missiles] dos EUA, a limitada capacidade nuclear dos chineses seria “neutralizada” muito antes que a muito superior capacidade estratégica dos russos.

Basta dizer que a SCO (leia-se: Rússia e China) decidiu que é hora de pular fora do domínio dos problemas regionais e erguer a cabeça por cima do parapeito eurasiano. Um comentarista russo observou que
“Os tempos mudaram e a Organização de Cooperação de Xangai mudou também, com os tempos. As crises no Oriente Médio, inclusive as que foram disparadas pela Primavera Árabe; o papel que os países ocidentais desempenharam lá; a retirada das tropas dos EUA do Iraque, e, muito mais importante, também do Afeganistão, exigiram ampla revisão das abordagens da OCX e levaram a organização a ampliar seus esforços de política exterior.”[1]
Mas aí há exagero e falta foco. No momento, o que está acontecendo é que graças à posição consolidada da Organização de Cooperação de Xangai em algumas questões internacionais que interessam diretamente a Rússia e China, os dois países decidiram fortalecer mutuamente as respectivas ‘mãos-de-jogo’, na oposição às maquinações dos EUA – seja  quanto aos mísseis de defesa, seja quanto à segurança no Pacífico Asiático.

Criar “valioso espaço de segurança”

O que significa isso? Em artigo publicado no Diário do Povo de Pequim, Putin escreveu que “sem a participação de Rússia e China, sem que se considerem os interesses de Rússia e China, nenhuma questão ou tema internacional pode ser discutido ou implantado.”

De fato, já está acontecendo exatamente assim no caso da Síria, em relação ao qual Rússia e China demarcaram o limite: não haverá intervenção militar externa na agenda da mudança de regime em Damasco; mantém-se o apoio à missão de Annan; e fim da violência dos dois lados, para que seja possível “estabelecer um diálogo político amplo”; e “acordo pacífico e justo, sem intervenção do exterior.”

Na essência, o que está acontecendo, para citar trecho de um editorial do jornal Global Times, do Partido Comuista Chinês, é que
“A mudança, de uma estratégia adversária, para uma estratégia de ampla parceria, cria valioso espaço de segurança para essas duas potências [China e Rússia]. Dadas as incertezas do espaço internacional futuro, essa é rara e valiosa garantia de segurança, a partir da qual os dois atores poderão desempenhar influentes papéis globais.

Simultaneamente, as duas potências estão abertas para o ocidente. O engajamento econômico de ambas com o ocidente é maior que o intercâmbio comercial entre elas. O ocidente tem influência cultura sobre ambas e nos dois países as respectivas elites defendem que se dê prioridade aos laços com o ocidente.

Não há dúvidas de que o ocidente é importante para Pequim e Moscou (…). Não há contradição entre as respectivas políticas. Ao contrário, quanto mais próximas estejam China e Rússia, mais oportunidades terão para desenvolver relação de igualdade com o ocidente.”[2]
Evidentemente, a China prefere o abraço visível com a Rússia que não exige concessões, deixando ampla flexibilidade para agir em outros pontos. O que se pode ver é que as expectativas políticas dos chineses no momento estão abaixo do ponto ao qual a Rússia gostaria de ver chegar a Organização de Cooperação de Xangai. Nas palavras do ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov, “a Organização de Cooperação de Xangai é hoje grupo bem firmemente costurado, de gente que pensa de modo semelhande, firmemente dedicada a desenvolver ativamente um diálogo político confiável, de igualdade e mutuamente vantajoso, de cooperação econômica e humanitária, e para expandir as relações internacionais.”

Simultaneamente, em questões chaves como os mísseis de defesa ou o Afeganistão, Rússia e China continuarão a agir independentemente. Praticamente não há coordenação possível entre Rússia e China para qualquer plano prático, enquanto a Rússia planeja sua resposta “assimétrica” à instalação pela OTAN do sistema de mísseis antibalísticos de defesa dos EUA.

Pode-se dizer que a última palavra ainda não foi dita sobre a cooperação entre Rússia e o ocidente para a defesa com mísseis. A verdade é que ainda há tempo para que Rússia e OTAN acertem suas diferenças, porque há período gestacional de anos, antes da plena instalação e operação do sistema; durante esse tempo, os dois lados também trabalharão em outras áreas de cooperação que ajudam a ampliar a confiança mútua.

Alexander Rahr, conceituado analista alemão das questões russas, diz que “Acho que a Rússia fará todo o possível para fortalecer relações de confiança com o ocidente. Talvez, depois de essa operação de retirada do Afeganistão das tropas da OTAN através da Rússia estar concluída; depois de passada a campanha eleitoral nos EUA; e com o presidente Obama mantendo-se na presidência, seja possível voltar aos assuntos de cooperação.”

De fato, há vozes de semelhante otimismo cauteloso também do lado dos russos. Influente na comunidade estratégica russa, o general Viktor Yesin, que foi chefe das Forças de Foguetes Russos Estratégicos [orig. Russian Strategic Rocket Forces Staff], diz que
“O problema não pode ser resolvido de forma direta. O princípio do ‘queremos-tudo-e-já’ induz a impasses na negociação e ao consequente confronto. Não atenderia aos interesses da Rússia, da OTAN e do resto do mundo, porque minaria a estabilidade estratégica e a segurança internacional.

Uma via para solução mutuamente aceitável baseada em concessões aceitáveis para por um acordo de cooperação Rússia-OTAN para mísseis de defesa. O acordo deve incluir um mapa do caminho, i.e. do progresso a obter passo a passo na direção de uma infraestrutura europeia conjunta, ou pelo menos interconectada, de mísseis de defesa, e da construção de mútua confiança, com previsibilidade e transparênci; o que só será possível se os dois lados saírem, das palavras, aos atos.”
Yesin sugeriu que é possível para Rússia e OTAN iniciar o estabelecimento de centros conjuntos, pelos quais trocarão informações e planejamento conjunto, desenvolvendo já a cooperação para os mísseis de defesa.

Pé ante pé, no Hindu Kush

O Afeganistão será o caso-teste crucial para a eficácia da Organização de Cooperação de Xangai em mundo em transformação. Se a coisa se pode expressar numa única declaração, terá de ser o que disse o presidente chinês Hu Jintao na reunião em  Pequim, expressão carregada de significado, sobre o Afeganistão: “Continuaremos a observar o conceito de que assuntos regionais devem ser conduzidos pelos países da região, e a Organização [de Cooperação de Xangai, SCO] deve ter papel importante na reconstrução pacífica do Afeganistão.”

O que atraiu grande atenção para a declaração de Hu é que a China jamais antes falara da ideia de desempenhar papel político na solução o problema afegão. Infelizmente, Hu não elaborou sobre o que tivesse em mente, e a impressão que resta é que provavelmente manifestou opinião de outros líderes da Organização de Cooperação de Xangai, expressas em discussões a portas fechadas com a China, quando tenham dado vazão à preocupação profunda sobre o rumo que tomem as coisas no Afeganistão.

Na análise final, não se vê com clareza que papel a Organização de Cooperação de Xangai possa desempenhar no grupamento regional. Ambos os países, Rússia e China, já descartaram intervenção direta no Afeganistão. Por outro lado, a OTAN não manifestou qualquer interesse em trabalhar com a OCX no Afeganistão e, de fato, tem-na visto como uma espécie de pretendente-aspirante surgido na paisagem regional, sobretudo, para conter a influência da aliança ocidental – e dos EUA – na Ásia Central. Seja como for, a possibilidade de o Afeganistão ser posto sob a órbita de China ou Rússia sempre será profundamente incômoda para Washington e seus aliados na OTAN.

Toda a estratégia Nova Rota da Seda de que Washington fala de tempos em tempos visa a trazer para o centro do palco os dois países regionais que, até agora, têm operado como principais equilibradores – Índia e Paquistão. Mas o projeto dos EUA tem enfrentado ventos de proa. Por outro lado, a China tem fortes laços com o Paquistão (e a Rússia também está fortalecendo seu relacionamento com o Paquistão); e os laços dos EUA com o Paquistão estão em cacos.

Além do mais, a Índia em nenhum caso agirá por procuração dos EUA, dado o desejo obsessivo de preservar a própria autonomia estratégica nas questões-núcleo de política externa, como as que impactam suas relações com Rússia ou China. Durante a visita do secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta, a Delhi, semana passada, o lado indiano sugeriu que se repense a estratégia dos EUA para “reequilibrar” suas forças no Pacífico Asiático. Nas palavras de declaração do próprio ministério:
“Quanto às preocupações com a segurança no Pacífico Asiático, [o ministro da Defesa da Índia] Antony reconheceu que a Índia apoia irrestrita liberdade de navegação em águas internacionais para todos. Ao mesmo tempo, sobre questões bilaterais entre países, destacou que é desejável que as partes envolvidas resolvam, elas mesmas, o próprio contencioso, nos termos da lei internacional. O ministro Antony destacou a necessidade de fortalecer a arquitetura multilateral de segurança no Pacífico Asiático, e de andar a passo confortável para todos os países envolvidos.”
Mais uma vez, a OTAN insiste em negociar diretamente com os estados da Ásia Central sobre as vias de trânsito para a retirada de material e equipamento de guerra, do Afeganistão. É abundantemente claro, agora, que os EUA (e a OTAN) manterão dezenas de milhares de soldados no Afeganistão, mesmo depois de 2014.

Não estão fugindo da região. Não surpreendentemente, os estados da Ásia Central mostram-se inclinados a impor difícil barganha aos EUA e à OTAN; e esses, por sua vez, manifestam disposição favorável para aceitar o mais que seja possível da ‘lista de desejos’. Os países da Ásia Central esperam, obviamente, assistência financeira adicional dos países da OTAN, mas sem perder de vista a importância de lançar os pilares de uma parceria de longo prazo que seja mutuamente benéfica.

Mas em primeiro lugar e acima de tudo, também têm havido demandas de que a OTAN deixe por lá pelo menos parte de seu equipamento militar. O Quirguistão, especificamente, já manifestou interessem nos aviões-robôs tripulados a distância. E a Rússia permanece entrega a conjecturas sobre até que ponto os EUA acederão a essas demandas centro-asiáticas.

Na essência, uma relação duradoura de cooperação militar entre a OTAN  e os estados centro-asiáticos poderia estar a ponto de começar – e pela primeira vez na era pós-soviética – entre a OTAN e os países da Ásia Central. Armas da OTAN que sejam deixadas por lá terão de ser reparadas e adaptadas, e as forças da Ásia Central terão de ser treinadas para usá-las. Os passos sequenciais poderiam incluiu a permanência de forças especiais da OTAN, em algum momento, depois de a relação ter-se consolidado.

No pé em que estão as coisas, os países da OTAN já começaram a encrustar-se no espaço da Organização de Cooperação de Xangai, com a criação do Centro de Coordenação para o Combate às Drogas [orig. Coordination Centre for Combating Drugs (CARICC). Obviamente, só uma linha tênue separa o combate às drogas, o combate à guerrilha e o combate ao narcoterrorismo.

Seja como for, o CARICC mantém a China ao alcance do braço. Embora a Rússia tenha sido incluída, Moscou sente-se desconfortável e solitária na barraca do CARICC. A Rússia assiste sem nada poder fazer, enquanto os países da OTAN – especialmente os que fundaram o CARICC, dentre os quais EUA, Reino Unido, Itália, França, Turquia, República Checa – confraternizam alegremente e vão tecendo redes com as agências de segurança dos países parceiros na região – Azerbaijão, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão – e, assim, vão mergulhando na base de recursos de inteligência super sensível (e zombando a matriz que a OCX, a duras penas, construiu para finalidades exclusivamente suas).

Pode-se dizer que boa parte do dilema em que está metida hoje foi criado pela própria Rússia. Fato é que a Rússia não pode exigir dos estados da Ásia Central que mantenham a OTAN longe dali, como se a aliança ocidental fosse alguma espécie de pária, se já está criando sua própria “Aliança de Trânsito”, como é chamada, em Ulyanovsk sobre o Volga, para operar como entreposto de transporte, atendendo necessidades logísticas da OTAN.

Para justificar essa aliança, Moscou alega que seria acordo de interesse meramente comercial, que fará girar anualmente US$1 bilhão. Mas a Regra de Ouro em situações desse tipo é “molho para pato, molho para ganso”: se serve para uma finalidade, serve também para a outra. Ou, no mínimo, assim as capitais da Ásia Central estão interpretando hoje a aliança entre Rússia e OTAN, no Afeganistão. E sentem-se tentadas a criar pactos também ‘à moda afegã’, como os russos, para enriquecer o próprio engajamento estratégico com os EUA.

Em resumo, a OTAN já está atraindo países membros da       Organização de Cooperação de Xangai – inclusive a Rússia – para engajamentos seletivos em torno do Afeganistão, mas sempre em termos estritamente individuais, e ignorando sempre, atentamente, qualquer ‘direito pressuposto’ que Moscou ou Pequim tenham para representar alguma voz coletiva da região, nas questões de segurança. A declaração de Hu Jintao, na reunião de Pequim, sugere que a Organização de Cooperação de Xangai estaria trocando de marcha e partindo para confrontar diretamente a OTAN e os EUA?

O padrão passado mostra que a China insiste em manter seu papel no Afeganistão limitado às questões de interesse econômico, e tem-se mostrado tímida no que tenha a ver com meter os pés na arena política, embora Pequim jamais se canse de repetir que é acionista na estabilidade e segurança no Afeganistão. Havera, nisso, alguma mudança à vista?

Poder-se-ia perguntar, para argumentar: ainda que as políticas chinesas para o Afeganistão mudem dramaticamente, até que ponto Pequim avançará, para garantir papel de destaque para a OCX na operação de montagem das peças da paz no Hindu Kush? Não pode haver dúvidas de que a OTAN jogará duro. Nas palavras de Waliullah Rahmani, diretor do Kabul Center for Strategic Studies:
Creio que, nos próximos dois anos, embora possa haver muito boa-vontade dos estados-membros da OCX para alcançar maior papel na construção da paz, a atmosfera de reconciliação e construção da paz entre o Afeganistão e a OTAN dificultará muito qualquer engajamento da OCX (…). Fato é que não acredito que os países membros da OTAN manifestem alguma real boa vontade em relação a atores tão grandes [leia-se: Rússia and China], que gerariam vastas áreas de sombra no quadro do controle total da OTAN no Afeganistão.
Dito em outras palavras, a Organização de Cooperação de Xangai deve ponderar atentamente, antes, o que o povo afegão espera do grupamento regional. Muito obviamente, a opinião pública dominante deseja reconciliação com os Talibã, em termos políticos; e a maioria da população absolutamente não acredita que se possa pensar em qualquer tipo de estabilidade ou segurança sustentáveis, com presença militar estrangeira de longo prazo no país, especialmente se for presença de militares dos EUA. (Por falar nisso, o principal homem da Rússia no Afeganistão, o embaixador Zamir Kabulov, está na mídia, dizendo que Moscou não tem qualquer objeção a um pacto de segurança EUA-Afeganistão que implique os EUA permanecerem no país depois de 2014.)

Nesse quadro, a Organização de Colaboração de Xangai será fortemente pressionada a encontrar um denominador comum de todos os seus membros, para que se possa engajar no Afeganistão. (Nem os estados asiáticos nem a Rússia, como todos sabem, tem reservas suficientes para pôr sobre a mesa em Kabul, como a China.) Mais uma vez, a Rússia pode estar inclinada a trabalhar sobre o elemento político, mais do que sobre o elemento econômico. Além do mais, a China está também mais bem posicionada, até aqui, que seus parceiros na OCX, porque há tempos trabalha na linha da “amizade faça-chuva-faça-sol” com o Paquistão, para salvaguardar seus interesses vitais no tabuleiro de xadrez afegão.

Seja como for, já seriam necessários dotes extraordinários de clarividência para saber, agora, o que aconterá no Afeganistão; mais ainda para lidar com o que venha a aconetcer. A Organização de Colaboração de Xangai será convocada a reagir, praticamente sem descanso, conforme as coisas evoluam, seja para que lado for, no Afeganistão; e parece bem mal equipada para essas emergências, seja em termos institucionais seja em termos políticos. Se se consideram os dois atores chaves da OCX – Uzbequistão e Tadjiquistão –, se alguma real crise desenvolver-se no Afeganistão, ambos já estarão, só por isso, metidos em suficientes dificuldades.

A persistente rixa entre os dois países debilita a capacidade da OCX para desempenhar papel chave no Afeganistão. As relações uzbeques-tadjiques, que sempre foram difíceis, complicaram-se ainda mais, recentemente, com Tashkent determinando bloqueio econômico contra o Tadjiquistão. Ouvem-se conversas, inclusive, de que Tashkent já estaria obrando numa estratégia calculada para provocar “mudança de regime” em Dushanbe. Stephen Blank, comentarista norte-americano escreveu recentemente, com perfeita clareza: “As rixas uzbeques-tadjiques são como areia nas engrenagens do motor da Rota da Seda e são vexame maior ainda, para a Rússia, criando um altíssimo risco de segurança que poderá a qualquer momento ser explorado pelos narcotraficantes e pelos islamistas extremistas.”

Enquanto esses dois “estados de frente” continuam a brigar, como pensar em esforço coletivo da OCX para conter traficantes e extremistas? Rússia e China enfrentam, sem conseguir resolver, esse dilema, crucial para salvaguardar, antes de tudo, os próprios interesses nacionais. Os dois pesos pesados regionais sabem que, qualquer tática de pressão que adotem, pode levar Tashkent a jogar “a carta norte-americana”.

A rixa uzbeque-tadjique é, sob vários aspectos, um teste crucial pelo qual a OCX terá de passar. A capacidade do grupo regional para agir no Afeganistão está diretamente associada à coesão interna do grupo e ao compromisso político dos estados membros de realmente se manterem alinhados a alguma estratégica comum para o Afeganistão. Não é absolutamente questão de palavras. Assim, quando a poeira assentar, depois da reunião em Pequim, restará a impressão de que a OCX optou pela saída mais rápida, com mais uma declaração sobre a situação afegã, enquanto a caravana EUA-OTAN avança sem ser incomodada.


[1] 16/5/2012, http://indrus.in/articles/2012/05/15/sco_as_a_counter_to_nato_15641.html

[2] 8/6/2012, http://mobile.globaltimes.cn/content/713759.html