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Corre na Internet um debate entre professores, interessante e instrutivo, sobre os incidentes ocorridos há dias na universidade federal de Guarulhos, SP. Um grupo de estudantes, com reivindicações próprias, ocupou em manifestação o prédio da direção da Unifesp local e de lá foi desalojado de modo truculento pela PM. Houve duas dezenas de prisões, em seguida relaxadas. Professores, que estão em greve na rede federal, se dividiram em relação ao acontecimento, alguns a apoiar a ação dos estudantes, outros a acusá-la de aventureirismo ou até de provocação.

Foto AE: Estudantes presos são soltos pela PM

À parte o mérito próprio da questões levantadas, o debate é significativo, porque mostra um novo momento na luta de estudantes e de professores por suas reivindicações. Há quase 50 anos, foi sufocado pelo golpe de Estado de 1964 um processo de ação política no qual essas categorias haviam desenvolvido práticas ágeis e eficazes de avaliação de cenário, formulação de objetivos, construção de alianças e participação na luta de todo o povo pela democracia e os interesses nacionais. Nos 20 anos que se seguiram, a luta contra a ditadura proporcionou meta e fator de unificação fáceis de perceber e obrigatórios, mas limitados. A partir de meados dos anos 80, predominou uma tendência à dispersão e a reivindicações locais e parciais. Agora, parece começar uma fase nova, mais complexa, mas mais promissora, na qual estudantes e professores reaprendem a lutar juntos em favor de seus pleitos específicos, mas em harmonia com os interesses maiores da democracia, do país e da paz.

Uma notícia sobre o início dos acontecimentos pode-se ver clicando aqui e uma nota sobre a soltura pela PM dos estudantes presos, com resumo dos acontecimentos, aqui. A transcrição de imeils do debate entre professores está a seguir.

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De: Anita Handfas
Enviada em: quarta-feira, 20 de junho de 2012 09:35
Para: Armando Boito; sergio lessa
Assunto: Re: Sobre os fatos ocorridos no Campus Guarulhos da Unifep na noite do dia14/06/2012

Caros colegas, somente hoje tive a chance de ler as mensagens a respeito dos acontecimentos na UNIFESP. Tenho estado envolvida com as mobilizações do movimento nacional dos docentes das IFES e aqui na UFRJ a greve de ocupação tem se revelado uma greve massiva, de participação e mobilização de professores, estudantes e técnicos-administrativos. Pelos relatos de Davisson e Henrique, não parece que o mesmo ocorre na UNIFESP e neste caso, a atuação dos estudantes (ou de um grupo deles) tem se prestado a dividir o movimento. Não acho de pouca importância prestarmos atenção à atuação do ME nessa greve, ao contrário, o que vi e ouvi no vídeo, o que tenho sabido por informes que nos chegam aqui no Rio me levam a concluir que as ações estudantis só tem colaborado com o avanço da direita e isso é inadmissível, quando se quer construir um movimento de massas. É claro que nosso papel não pode ser outro senão o de condenar a presença e a ação da polícia, no entanto não podemos deixar de admitir que isso tudo poderia ser evitado se não fosse a atuação desastrosa dos estudantes que me parece inclusive claramente deliberada, ou seja, é aquela política pseudo esquerdista de “vou provocar pois tenho que apanhar para sair na mídia” “tenho que apanhar pois só assim estou mostrando que sou revolucionário”. A palavra de ordem gritada histericamente pelos estudantes é inadmissível para aqueles que respeitam o povo e se interessam em construir um movimento amplo e organizado.

E para que fique bem claro minha posição, é preciso agora condenar a atuação da polícia, e tentar de todos os modos trazer o movimento grevista para a luta e a organização. Com relação aos estudantes, isolar a parcela pseudo esquerdista e trazer para o centro da luta o conjunto dos estudantes.

Daqui a pouco vou na manifestação dos professores das IFES do Rio, pretendemos reunir cerca de 10.000.

Essa é a minha opinião.

Abraços, Anita

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Em 19/06/2012, às 12:03, Caio Toledo escreveu:

Colegas,

apoios à NOTA podem ser endereçados a DAVISSON DE SOUZA davissonhistoria@yahoo.com.br

sds,

caio


NOTA PÚBLICA SOBRE A PM NAS UNIVERSIDADES:

o episódio na UNIFESP.

    Os abaixo-assinados, professores de distintas universidades brasileiras, estão convencidos de que é inaceitável a utilização da Polícia Militar para resolver conflitos internos à comunidade acadêmica. Os recentes episódios configurados pelas prisões arbitrárias e violências físicas contra estudantes e funcionários em universidades brasileiras são fatos intoleráveis que devem ser repudiados e denunciados pela consciência democrática.

Ao tomarmos conhecimento da violenta ação repressiva da PM paulista contra vários estudantes da Universidade Federal de São Paulo, campus Guarulhos, no dia 14 de junho, não podemos senão manifestar nossa inteira concordância com a NOTA PÚBLICA da PRÓ-REITORIA DE ASSUNTOS ESTUDANTIS dessa universidade. Os termos da digna e ponderada NOTA são os seguintes:

“Frente à ação policial ocorrida no campus Guarulhos da Unifesp no dia 14 de junho de 2012, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) manifesta a toda comunidade acadêmica e a toda sociedade o veemente repúdio à opção de tratar as questões universitárias, por mais complexas e controversas, por meio da violência. Ressaltamos que são valores da PRAE o compromisso com a democracia e o respeito à diversidade intelectual, cultural, social e política”.

Signatários: Adma MUHANA, USP; Adrián GONZÁLES, USP; Álvaro CROSTA, Unicamp; Arley MORENO, Unicamp; Beatriz RAPOSO, USP; Caio N. de TOLEDO, Unicamp; Cilaine Alves CUNHA, USP; Cristiane GOTTSCHALK, Edmundo DIAS, Unicamp; Francisco ALAMBERT, USP; Heloisa FERNANDES, USP; Hector BENOIT, Unicamp; Iná CAMARGO, USP; Jorge Luiz SOUTO MAIOR, USP; Jorge MIGLIOLI, Unicamp; Fernando LOURENÇO, Unicamp; Isabel LOUREIRO, Unicamp; Leda PAULANI, USP; Lincoln SECCO, USP; Lúcio Flávio ALMEIDA, PUC-SP; Luiz MARTINS, USP; Marcos SILVA, USP; Marcos Barbosa de OLIVEIRA, USP; Maria Victoria BENEVIDES, USP; Margareth RAGO, Unicamp; Marly VIANNA, USO; Milton PINHEIRO, UNEB/ICP; Osvaldo COGGIOLA, USP

Patrícia TRÓPIA, UFU; Paulo CENTODUCATTE, Unicamp; Plínio Arruda SAMPAIO JR., Unicamp; Ricardo ANTUNES, Unicamp; Ruy BRAGA, USP

Sérgio SILVA, Unicamp; Sofia MANZANO, USJ; Valério ARCARY, CEFET-SP; Virgínia FONTES, UFF; Vladimir SAFLATE, USP

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De: sergio lessa
Enviada em: terça-feira, 19 de junho de 2012 21:23
Para: Joao Quartim Moraes
Assunto: Re: Sobre os fatos ocorridos no Campus Guarulhos da Unifep na noite do dia14/06/2012

Caríssimos!

Parece-me que é preciso dissociar duas questões: 1) a tática e a estratégia dos estudantes foi acertada? A segunda questão: 2) é justo chamar a PM para resolver questões acadêmicas?
Sobre a primeira questão, a meu ver, o móvel da luta, seus objetivos, são justos (contra a privatização, a precarização, o Reuni, etc.). E isto é o fundamental. As outras questões, não menos importantes, da tática e da estratégia de acumulação de forças, etc., é preciso discutir com os estudantes diretamente envolvidos.

Sobre a segunda questão: a opção por trazer policiais ao campi universitários é uma inovação dos últimos anos. A liberdade de cátedra e a autonomia universitária foram mais defendididas pelos reitores na época da ditadura que pelos nossos reitores hoje eleitos — e a posição contrária à chamada dos PMs da pró-reitoria da Unifesp não invalidade esta afirmação. O que ocorreu na USP e agora na UNIFESP são os casos mais notórios entre outros muitos outros que ocorreram nas universidades menores e mais distantes. Na UFAL estamos com vários estudantes, no momento, sendo processados na PF por terem ocupado a reitoria. E o Reuni aqui só foi aprovado colocando policiais federais a cercar a reunião do Consuni (nosso órgão máximo).

Há uma indiscutível tendência do governo (em todas as instâncias) de reprimir policialescamente tanto o movimento discente quanto o docente.

Não há outra posição a ser tomada — acima de qualquer outra consideração que deva ser feita no fórum adequado, com os estudantes envolvidos, etc. — senão o repúdio intransigente do uso da força policial nos campi para reprimir alunos e/ou professores e técnicos que reagem contra a destruição sistemática da universidade pública.

Abraços

Sergio Lessa

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Em 19 de junho de 2012 18:40, Joao Quartim Moraes escreveu:

Caras e caros

No que me concerne, as respostas do Davisson e do Henrique deixam claro que quaisquer que sejam as motivações dos signatários do manifesto dos 50, eles falharam ao não dissociar explicitamente sua posição daquela dos que chamaram a PM. Resta o impasse na
Unifesp Guarulhos e o  desgaste que representa para a universidade pública..

saludos

JQM

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Em 19 de junho de 2012 18:32, Henrique Amorim escreveu:

Caros,

Desculpem a demora para responder. A situação na Unifesp é complexa e de difícil análise. No entanto, não é nada difícil entender que chamar a polícia para resolver um problema que é assunto da PRAE, dos estudantes, dos professores e funcionários da Unifesp é no mínimo lamentável. Davisson já fez um relato claro do que se passa na Unifesp Guarulhos. Há inúmeras outras questões que poderiam entrar aqui em discussão como, por exemplo, um abaixo-assinado encabeçado por um grupo de professores que propunha sair da greve nacional docente por conta dos problemas enfrentados pela greve dos estudantes. Ou seja, de maneira oportunista a situação de embates desgastantes da unifesp tem sido usada como argumento desmobilizador da greve nacional. Esse é apenas mais um dos problemas que estamos enfrentando. É preciso e necessário que todos os que puderem se posicionem publicamente no sentido de coibir qualquer forma autoritária de resolução dos problemas vividos por nós no campus de Guarulhos.

abraços,

Henrique

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Caro Davisson e colegas,

que lê com atenção sua ponderada carta perceberá que o fulcro dela não está em discutir o “caráter de classe” ou as eventuais “orientações político-ideológicas” das lideranças/grupos estudantis. Prova disso é que, lendo e relendo-a, não encontrei nenhuma referência a “socialistas sinceros“, a “progressistas sinceros” ou coisa que o valha. Importantes que sejam, entendo que não devemos privilegiar, no “calor da hora”, intermináveis digressões teóricas sobre o grave episódio.

Concentremo-nos, neste momento, a discutir aquilo que importa aos socialistas: é aceitável a criminalização do movimento estudantil, tal como se configurou no episódio da Unifesp? É justificável o apelo à PM protofascista para dirimir conflitos internos à comunidade acadêmica?

Posto que nesta lista são conhecidos dois documentos vindos da Unifesp – o Manifesto dos 50 docentes ofendidos e a Nota Pública da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis -, importa saber: qual deles os socialistas devem apoiar? O Manifesto que justifica a entrada da PM no campus ou a NOTA que repudia a prisão e o espancamento dos estudantes?

Por fim, solidarizo-me com vc. que apoia a digna e corajosa NOTA da PRAE.

abs,

caio

ps. as cenas do espancamento podem ser vistas aqui:


—– Original Message —–

From: Armando Boito

To: Davisson de Souza

Sent: Tuesday, June 19, 2012 10:30 AM

Subject: Re: Sobre os fatos ocorridos no Campus Guarulhos da Unifep na noite do dia14/06/2012

Davisson,

a sua mensagem, muito cuidadosa ajuda, na medida do possível, a esclarecer. Faço um reparo.

A minoria radicalizada que se isolou seria mesmo composta de “socialistas sinceros” ou de “progressistas sinceros” que estariam apenas cometendo um erro de avaliação? Eu penso que há elementos para colocar em dúvida o “socialismo” ou o caráter progressista” de muitos elementos dessa minoria.

O refrão que cantaram insistentemente contra a PM é um refrão elitista. Um socialista não faz qualquer ofensa a quem quer que seja. Faz ofensas a partir dos valores socialistas. Não foi o que vimos. O refrão, que eles cantaram em coro e por longo tempo como mostra o vídeo, diz:

“Que vergonha que deve ser,

reprimir trabalhador para ter o que comer.”

Isso é elitista, antipopular e odioso.  O refrão não condena a repressão por si só – o que é compreensível – mas, sim, pelo fim que ela persegue. Devemos perguntar: reprimir trabalhador para garantir a propriedade privada não seria vergonhoso? Para manter a desigualdade, tampouco? E para se divertir? Não! É vergonhoso porque o ato é perpetrado como um meio de sobrevivência, ou seja, é vergonhoso porque tem um objetivo típico daqueles que, na nossa sociedade, não têm outro meio de sobreviver a não ser vendendo a sua força de trabalho.

A quase totalidade dos policiais e dos soldados das Forças Armadas são de origem popular. O combate contra a polícia e as Forças Armadas não pode, para um socialista, mobilizar preconceitos contra essa origem.

Obrigado pela sua mensagem,

Saudações socialistas,

Armando

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Em 19 de junho de 2012 09:48, Davisson de Souza escreveu:

Companheiros:

É difícil fazer um breve relato de uma situação tão complexa, mas atendendo ao camarada Danilo, vou fazê-lo sob o risco de alguns simplismos. Gostaria de dizer, inicialmente, que os 50 signatários desta carta não respondem pela maioria dos docentes (somos cerca de 180) e este não é o único documento que será entregue ao Consu amanhã, convocado com pauta exclusiva (campus de Guarulhos). Logo vocês terão acesso a outra carta, esta sim assinada por mim, que tem o mérito de buscar estancar a escalada repressiva que ganhou impulso neste momento.

Por um lado, não concordo com as estratégias esquerdistas do grupo que está no controle do ME, que provocou a antipatia dos setores mais progressistas da universidade e o isolamento durante a greve. Em aula pública ao movimento (sobre a legitimidade da greve estudantil), cheguei a alertá-los do risco de vários erros (segundo a minha modesta opinião) que posteriormente vieram a cometer. Por outro lado, também não estou de acordo com os encaminhamentos propostos até aqui pelas diversas instâncias de gestão da universidade (a começar pela Congregação, que votou pela abertura de sindicância no mesmo momento que aprovava uma comissão de diálogo com os estudantes).

Porém, creio que a solidariedade a quem foi vítima da truculência da PM deve ser incondicional e estar em primeiro plano, independentemente das críticas (especialmente as internas) que tenhamos aos companheiros de qualquer orientação política. Mas, no atual contexto, restou-nos tentar juntar os cacos pelo menos para evitar o mal pior (mais repressão).

Quero ainda apresentar uma versão pessoal sobre duas passagens do referido documento:

“As agressões passaram a atingir também os professores que, inicialmente, tentavam dar aulas” = “Os alunos intensificaram os piquetes para garantir a greve, pois de forma desrespeitosa e antidemocrática, alunos e professores contrários ao movimento (amplamente vitorioso nas primeiras assembléias) faziam de tudo para deslegitimar o mesmo entrando em sala de aula”

“Depois da ocupação ter sido desmobilizada pacificamente…” = “depois da reintegração de posse pela tropa de choque da PM, que conduziu mais de 40 estudantes à delegacia no próprio ônibus da universidade”.

Peço que não repassem esta mensagem, destinada apenas aos camaradas desta lista, a quem tanto estimo e respeito. O momento é delicado e as desavenças pessoais entre os colegas do campus somente acentuam o impasse.

Em um futuro não muito distante, espero receber todos vocês em Guarulhos.

Saudações socialistas.

Davisson

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De: Danilo Martuscelli
Para: Joao Quartim Moraes
Enviadas: Segunda-feira, 18 de Junho de 2012 21:52
Assunto: Re: Sobre os fatos ocorridos no Campus Guarulhos da Unifep na noite do dia 14/06/2012

Caro Quartim

não entendo que a PM do Alckmin é a melhor opção para resolver o caso em questão. Certamente, o radicalismo dos estudantes chegou a um ponte limite, o que os levou a um nítido isolamento, mas isso não deve justificar o uso da repressão policial. Como tive a oportunidade de conversar com outros colegas que lecionam no campus Guarulhos e que não assinam o manifesto, penso que seria interessante ouvi-los.

Javier, Davisson e Henrique, vocês teriam condições de fazer um breve relato do que tem ocorrido na Unifesp?

Dani

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De: Joao Quartim Moraes
Para: abelardo;
Enviadas: Segunda-feira, 18 de Junho de 2012 20:57
Assunto: Sobre os fatos ocorridos no Campus Guarulhos da Unifep na noite do dia 14/06/2012

———- Mensagem encaminhada ———-
De: Marcia Eckert Miranda
Data: 18 de junho de 2012 12:56
Assunto: Sobre os fatos ocorridos no Campus Guarulhos da Unifep na noite do dia 14/06/2012

Prezados amigos.

Infelizmente, a Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) vem sendo alvo de continuada violência promovida por um grupo de alunos, movidos por objetivos e promovendo ações incompatíveis com as bandeiras da melhoria do ensino e a democracia.

A despeito do que foi noticiado na mídia, o manifesto em anexo busca tornar pública outra versão dos fatos, já que os órgãos de imprensa recusam-se a ouvir docentes e funcionários.

Um abraço

Marcia Eckert Miranda