Etiquetas

, , , ,

A Alemanha nazista inventou a Blitzkrieg, tática de guerra-relâmpago. A fim de enfrentar o avanço democrático e nacional que, com plena observância do modelo estadunidense de democracia, se desenvolve na América do Sul e Caribe há 15 anos, a CIA inventou a fast-change, a tática de golpe de Estado desferido num piscar de olhos e sem ruptura formal das normas constitucionais vigentes no país-alvo.

Foto Pag. 12. Lugo se despede.

Hoje se procura minimizar o fato, mas nos anos 1930 o nazifacismo tinha forte apoio interno nos países que seriam vítimas dele. O governo da Polônia era facista, assim como o da Hungria. O nazismo gozava de fartas simpatias entre classes e partidos políticos dominantes em França e Inglaterra.

De modo geral, a Alemanha nazista era vista pelos endinheirados na Europa e também nos Estados Unidos como parceira capitalista em negócios e aliada na luta anticomunista. Isto facilitou enormemente o êxito inicial de Hitler, que ocupou a maior parte da Europa praticamente sem encontrar resistência. Ele só seria contido e derrotado na União Soviética, onde seus apoios se revelaram insuficientes e o governo do país, depois de sufocar a “quinta-coluna” interna de simpatizantes do nazismo, pôde mobilizar a população para um esforço formidável de guerra patriótica.

De modo semelhante, a CIA aplica hoje com cumplicidade de “nativos” sua tática de golpe constitucional a jato no sul da América. Com apoio local da mídia corporativa – a presstitute, como a estão chamando pessoas de espírito sadio nos Estados Unidos – e de setores de classes dominantes, além de a todo tempo promover ações de desestabilização de governos que a desagradam, ela planeja golpes de Estado a executar num tempo acelerado ao máximo, a fim de evitar resistência popular. Tentou em 2002 um golpe desse gênero na Venezuela, mas uma contraofensiva também relâmpago de povo e forças armadas o frustrou. Depois de vários ensaios abortados em diversos países – a conspiração é permanente e geral –, tentou com êxito em Honduras, em 2009, embora sua festa fosse estragada pela não conivência do presidente deposto, Manuel Zelaya, o que obrigou o governo de Washington a mostrar suas digitais no crime.

Agora, no Paraguai, o êxito de início parece pleno. O golpe de Estado se consumou em 30 horas, o presidente Lugo limitou-se a um lamento lacônico e a transição de governo teve toda aparência de normalidade constitucional, sob as bênçãos da sempiterna e indefectível hierarquia católica, parceira fiel de golpes reacionários. Atos de protesto popular imediato foram de pequena magnitude. Assim, pelo menos nas 24 horas decorridas desde a deposição do presidente, a glória de CIA e associados ficou sem nódoa ostensiva, e o Departamento de Estado pôde inclusive se dar ao luxo de manifestar “preocupação” com o futuro da democracia no Paraguai.

Resta ver o que farão a seguir, além do próprio povo paraguaio e do presidente deposto, o Brasil e seus aliados do Mercosul e da Unasul. Esse tipo de ameaça conspirativa é real e iminente para todos eles. Venezuela, Bolívia e Equador são mais fortemente visados, mas Argentina e Uruguai também o são, e o Brasil o é especialmente, por sua expressão continental em território, população e economia. Ele tem seus interesses diretamente afetados pelo golpe no Paraguai, país que já está sob pressão dos Estados Unidos para aderir à união aduaneira com que Washington tenta asfixiar pelo Pacífico o Mercosul, assim como para permitir a instalação de um base militar estadunidense em seu território, adjacente à fronteira brasileira. Ali está a estratégica usina de Itaipu, que abastece de energia elétrica as regiões Sul e Sudeste, as mais desenvolvidas do Brasil.

As relações com o Paraguai são assunto delicado, em particular, para o nosso país, que tem perante o povo paraguaio um passivo de sangue antigo, enorme e não resgatável. O respeito à soberania e aos interesses legítimos da nação paraguaia não poderia, entretanto, justificar omissão agora do Brasil e demais vizinhos dela. Também eles têm nesse acontecimento interesses nacionais a defender, tanto os específicos de cada um quanto os que lhes são comuns, nas esferas econômica, política e de segurança. Só uma política enérgica e firme de solidariedade sul-americana, que ao mesmo tempo contemple os interesses do sofrido e combativo povo paraguaio, será compatível com a gravidade da ameaça que pesa sobre a região.

A referência à situação na qual se gestou na Europa a guerra mundial terrível dos anos 1940 não veio por acaso. Antes de assumir caráter de conflito ideológico, a guerra fermentou na expressão de interesses coloniais da Alemanha e de outras potências capitalistas. Então como agora, ambições imperialistas interagem com interesses de classe capitalistas e sentimentos patrióticos de nações ameaçadas para formar de uma situação crescente de pré-guerra, pronta a explodir em processo catastrófico de matança e destruição com escala global. Então como agora, condenam-se ao naufrágio governos tíbios, que não sabem discernir os objetivos nacionais a que estão obrigados, nem apoiar-se, para defendê-los, nas massas da população trabalhadora e no conjunto de forças progressistas da sociedade. Inversamente, credenciam-se a resistir e vencer as nações cujos governos demonstram sabedoria e coragem à altura da necessidade e do momento.

Séculos da história de Estados e nações ensinam que táticas tipo Blitzkrieg ou fast-change são elementos secundários. Embora importantes, não decidem. Principalmente em face de agressões externas, o fator decisivo de vitória ou derrota tende sempre a ser, em última instância, a existência ou não de povo e governo unidos na decisão de defender o país.