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Com esse título (1 e 2), publicamos em 2 e 15 de junho matérias relacionadas com mudanças profundas de situação estratégica que se operam no mundo. Elas dizem respeito principalmente à situação de Rússia, China e Irã, que Estados Unidos e seus sócios menores procuram cercar e sufocar, mas que encontram não obstante modos de resistir à pressão e até mesmo de transformá-la em seu oposto, num meio de acelerar o processo de falência da hegemonia estadunidense.

O observador indiano M.K. Bhadrakumar, em seu blog, chama agora a atenção para um próximo momento importante desse processo: a aproximação entre Egito e Irã, que estão de relações cortadas há mais de 30 anos, para benefício apenas da dominação imperialista no Oriente Médio. Prepara-se a visita a Teerã do presidente recém-eleito do Egito, Mohammed Morsi, a fim de participar da reunião de cúpula do Movimento dos Países Não Alinhados, a realizar-se na capital iraniana no final de agosto. Veja a matéria original aqui e a tradução de Milton Nogueira a seguir.

Teerã se estende para o Egito de Morsi

Este é um acontecimento que tem potencial para abalar a política do Oriente Médio  – o vice-presidente iraniano em visita ao Cairo. Os dois países fecharam as janelas após a revolução iraniana em 1979 e um período negro continuou bem até o fim da era Hosni Mubarak. A revolução na Praça Tahrir, há um ano, anunciou o degelo, e o primeiro sinal dele foi a permissão para um navio de guerra iraniano cruzar o Canal de Suez para visitar a Síria.

Contatos de nível inferior se seguiram, incluindo um encontro entre os dois ministros dos Exterior à margem da reunião países não alinhados em Bali, na Indonésia, em maio do ano passado. O Irã pressionou para a retomada das relações diplomáticas. O Egito, mais uma vez, pensou. Teerã não pressionou, ao compreender as complexidades da situação egípcia.

Enquanto isso, a junta militar permitia que um segundo navio de guerra iraniano cruzasse o Canal de Suez, desconsiderando a repreensão severa por parte dos Estados Unidos e Israel (e a contrariedade da Arábia Saudita). De sua parte, evidentemente, com a aquiescência do Cairo, Teerã começou a convidar uma série de delegações de boa vontade da sociedade civil egípcia, num esforço sustentado para alcançar os vários segmentos – especialmente as forças islamitas – da sociedade egípcia.

Na verdade, uma massa crítica de opinião começou a crescer no Egito, inclusive dentro da Irmandade Muçulmana, em favor do restabelecimento de relações normais com o Irã.

Entra a Arábia Saudita. Aproveitando-se da crise econômica no Egito, Riad ofereceu assistência econômica, mas com restrições. A condição básica para os sauditas era de que o Egito não deveria diluir a campanha regional de Riad para “isolar” o Irã. A principal preocupação para os sauditas é que, se o Egito, o maior e mais poderoso país árabe sunita, normalizasse relações com o Irã, toda a tese geopolítica construída em torno de um cisma sectário artificial sunita-xiita, que o eixo EUA-Arábia Saudita-Israel vem expondo como a peça central da Primavera Árabe, iria para o espaço.

As apostas são realmente muito altas. Em consequência, a Arábia Saudita convidou no mês passado o recém-eleito Mohammed Morsi, da Irmandade, para visitar Riad. Os sauditas esperavam que Morsi fosse atuar na frente sunita-xiita e que o Egito desempenhasse um papel dubio na crise síria.

Mas, lendo nas entrelinhas, tem-se a impressão de que os sauditas não souberam bem lidar com Morsi. Eminentes comentaristas sauditas não se cansam de atacar com duras críticas a Morsi e à Irmandade.  Mesmo após o encontro no mês passado entre o rei Abdullah e Morsi, reportagens críticas continuam a sair na imprensa oficialista da Arábia, colocando até mesmo a Irmandade contra o Al-Azhar egípcio, numa jogada inteligente para dividir o campo islâmico no Egito (Al-Azhar é a instituição religiosa do Egito.).

O importante é que Riad tem tudo a temer da Irmandade – o espectro dos irmãos liderando uma “mudança de regime” na Arábia Saudita em certa medida preocupa os governantes sauditas. As relações entre os sauditas e a Irmandade foram conturbadas e muitas vezes violentas, com o ex-príncipe coroado Nayef usando métodos brutais para esmagar as atividades dos irmãos em solo saudita.

Esse é o ponto em que uma aproximação egípcia-iraniana nesse momento se torna um grande revés para o regime saudita. Se as informações iranianas dadas pela Fars (agência oficial de notícias do Irã) são verídicas, o vice-presidente iraniano Hamid Baqayee pode visitar Cairo para pessoalmente entregar a carta de convite do presidente Mahmoud Ahmadinejad para a próxima reunião de cúpula dos países não alinhados em Teerã.

Ahmadinejad telefonou a Morsi no mês passado para avançar o convite e uma conversa se seguiu, que evidentemente preparou a missão de Baqayee. De fato, Teerã empreende um grande gesto em termos de protocolo – dando delegação ao vice-presidente para visitar um país com o qual não tem relações diplomáticas. Deve-se concluir que a probabilidade de Morsi viajar a Teerã é bastante alta.

Com certeza, um capítulo fascinante está se abrindo na crônica da Primavera Árabe. O Irã tem mantido ao longo da Primavera Árabe que esta vai inevitavelmente favorecê-lo em termos políticos. Do ponto de vista de Teerã, o islamismo é um elo comum que acabará por ligar o Irã com os regimes democráticos que emergem no mundo árabe, liderados pelos partidos islâmicos – seja Tunísia, Líbia ou Iêmen – com o passar do tempo, não obstante as manipulações por parte de terceiros.

Ou seja, os iranianos preveem que esses regimes árabes de Primavera mais cedo do que tarde serão compelidos a prestar atenção à opinião popular da chamada Rua Árabe, o que irá favorecer políticas pan-islâmicas, já que os árabes passam a enxergar através da política de sectarismo que o Ocidente e seus aliados regionais como a Arábia Saudita e Israel propagaram, no interesses de sua autopreservação ou da perpetuação de sua hegemonia sobre o Oriente Médio muçulmano. Os iranianos adotam, naturalmente, uma perspectiva de longo prazo em termos das forças sociais e políticas que são despertadas pela Primavera Árabe no mundo árabe estagnado.

Aí é onde a posição do Egito, torna-se central. Egito é o coração do mundo árabe e é manifestamente aspirante a recuperar o papel que perdeu no período desde o Acordo de Camp David, em 1979, para os sauditas. Todos os três protagonistas – Arábia Saudita, Irã e Egito – sabem que Riyadh perde conclusivamente a guerra ideológica se o Cairo se recusar a fazer política sectária no Oriente Médio muçulmano, e Teerã será então um claro vencedor.

Se Morsi viajar a Teerã no final deste mês, será um momento decisivo na política regional. Há quem gostaria de ser uma mosca na parede, se Morsi se encontrasse líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei. A agência de notícias Fars relatório está aqui.

[Iranian VP to Visit Cairo
TEHRAN (FNA)- Iranian Vice-President Hamid Baqayee is due to visit Cairo in the near future to invite Egypt’s new President Mohammad Mursi to attend the 16th heads-of-state summit of the Non-Aligned Movement (NAM) in Tehran late August.
“Hamid Baqayee will deliver the invitation letter to the Egyptian president to participate in the 16th summit of the NAM members,” Iranian Foreign Minister Ali Akbar Salehi told FNA on Wednesday.]