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No início do Século XX, quando o imperialismo dos Estados Unidos entrava em auge de poder, um seu presidente de então, Theodore Roosevelt, cunhou a expressão big stick (porrete grande) para designar o instrumento principal de política externa de seu país. Mas ele usou a expressão em conversas discretas, jamais divulgou foto sua com um porrete na mão. Não precisava disso, bastava-lhe ter o poder de fato. Já Obama, que está ao leme do barco (embora na verdade não o dirija) num período de ocaso, quando Washington há 20 anos destrói um país atrás de outro sem conseguir vencer uma guerra, há dez anos gasta trilhões de dólares e centenas de milhares de homens sem conseguir vitória numa guerra contra 20 mil talibãs de pés no chão, posa de porrete na mão. Um leão, quando perde dentes, ruge mais alto?

A imagem usada pela Casa Branca (ao lado) para divulgar a conversa ao telefone do presidente dos Estados Unidos Barack Obama com o primeiro-ministro turco Erdogan transmitiu mensagem simples, mas contundente.  Segundo a imprensa turca, era: “Bata em Bashar, bei Erdogan!”. Para reforço, manda lá a Hillary Clinton nos próximos dias. No entanto, mesmo que esteja disposto a cumprir o mandado, para ajudar a derrubar o presidente sírio o primeiro-ministro turco está paralisado por um estado de desordem nas forças armadas da Turquia que ele ajudou o engendrar. É o que observa M.K. Bhadrakumar no AsiaTimes. Leia a matéria original aqui e a tradução oferecida por Vila Vudu a seguir.

AsiaTimes 4.8.12

Obama manda Erdogan bater

por MK Bhadrakumar
Em Ancara, a ficha demorou a cair, depois que a Casa Branca distribuiu a foto que mostra o presidente dos EUA Barack Obama empunhando um taco de baseball numa mão enquanto, com a outra, segura o telefone ao qual fala com o primeiro-ministro da Turquia Recep Tayyip Erdogan, na 2ª-feira à noite.[1]

A Casa Branca limitou-se a informar que Obama discutiu com Erdogan como “coordenar esforços para acelerar uma transição política na Síria, que deve incluir a saída de Bashar al-Assad” e partilhou com ele “crescentes preocupações” com a violência na Síria e a “deterioração das condições humanitárias.”

Por que segurar um taco de baseball, ao tratar de política no Salão Oval – e por que divulgar a foto ‘documental’? Os turcos analisaram várias possíveis explicações: Obama estaria fazendo pose de grande líder mundial, durão; provavelmente, tentava intimidar Bashar; talvez quisesse impressionar Israel e a Arábia Saudita – ou, talvez, Irã e Rússia. Mas logo, mais calmos, concluíram que Obama enviava clara mensagem a Erdogan para resolver logo o caso da “mudança de regime” na Síria: “Bata em Bashar, bei Erdogan”.

É verdade: o exército turco está deslocando tanques para a fronteira síria. Mas Erdogan ainda não deu o passo (indispensável) de tentar que o Parlamento turco autorize que o exército invada a Síria. No momento, Erdogan dá tratos à bola, nervosamente. Reuniu-se com o Conselho Superior Militar em Ankara na 4ª-feira para atualizar-se sobre o estado das “preparações de guerra”. Atualizou-se na mesma reunião, inter alia, sobre o fato de que as forças armadas turcas estão em estado, de fato, bem lamentável.

Estão na cadeia 68 pashas (título usado por oficiais militares e civis), acusados de traição. A reunião da 4ª-feira foi convocada para decidir sobre as promoções anuais no alto escalão militar turco, mas a lista de nomes a serem promovidos resultou surpreendentemente curta, porque, dos 68 generais da “zona de promoção”, cerca de 40 não podem ser promovidos, porque estão presos. Comentarista da política turca, Murat Yetkin resume a escandalosa realidade:

“Ano passado, o chefe do comando do Estado-Maior das Forças Armadas general Isik Kosaner renunciou, com três altos comandantes, em protesto contra a prisão dos generais. A pressão é hoje ainda maior sobre o atual comandante do Estado-Maior, general Necdet Ozel, porque também foi preso um ex-comandante do mesmo Estado-Maior, Ilker Basburg. Basburg, acusado de chefiar “uma organização terrorista”. E outro ex-chefe do Estado-Maior turco, Hilmi Ozkok, deve comparecer ante a corte criminal em Istambul exatamente hoje [5ª-feira].”

Ozkok já confessou que sabia de duas tentativas de golpe que os pashas preparavam, no período 2003-2004, contra o governo eleito. Mas argumentou:

“Quando o AKP [Partido Justiça e Desenvolvimento, de Erdogan] chegou ao poder, o alto comando das forças armadas turcas preocupou-se, inclusive eu mesmo. Considerando o que os membros do AKP diziam no passado, nos preocupava que a Turquia voltasse aos velhos tempos [tradução: de governos islamistas]. Começamos a discutir o problema. No exército, todos são livres para dizer o que pensam, mesmo que pensem diferente dos demais, é normal. Mas no fim, todos obedecem às ordens do comando do Estado-Maior.”

Erdogan tem pela frente um desafio formidável – e, nessa hora, Obama o exorta a empreender rápida ação militar para derrubar Bashar, bem quando o próprio exército turco afunda-se em escândalo, com o depoimento de Ozkok exibido pela televisão, nos próximos dias e semanas, por todos os acampamentos militares em toda a Anatólia.

Enquanto isso, os separatistas curdos, que a tudo assistem das montanhas, abriram outro front próximo de Sendinli, cidade do oriente remoto do país, na tormentosa tríplice fronteira entre Turquia, Iraque e Irã. Há uma semana o exército turco combate naquela área.

Para complicar ainda mais as coisas, semana passada a rixa política entre Erdogan e o presidente Abdullah Gul (que costumava ser aliado de Erdogan no AKP) começou a azedar. Gul detonou uma bomba política, ao divulgar, na 2ª-feira, que considerará a possibilidade de candidatar-se à reeleição, em 2014.

A ação de Gul pôs a girar outra vez, feito louco, o caleidoscópio da política turca. O campo de Erdogan respondeu no mesmo dia: Huseyin Celik, vice-presidente do AKP e confidente de Erdogan, lembrou Gul de que devia seu emprego de presidente a Erdogan; e que faria melhor se retribuísse a gentileza e saísse do jogo, abrindo caminho para a eleição de Erdogan à presidência.

Gul respondeu ele mesmo; disse que ainda havia muito tempo para discutir as ideias de Celik. Dois anos são, sim, muito tempo, e Gul tem razão: não há assunto fechado, em política. Ambos Gul e Erdogan são figuras carismáticas, e a expectativa entre os turcos é que optem pelo modelo russo de revezamento de papéis, para as eleições de 2014. O maior problema é que há também um conteúdo “ideológico” na rixa Gul-Erdogan.

Gul tem ideias próprias sobre as limitações do tipo de reforma constitucional que Erdogan busca atualmente – para fazer da Turquia sistema presidencialista, com os poderes do Executivo muito reforçados. Nas palavras de SemihIdiz, destacado comentarista político,

“Gul opõe-se ao tipo de presidencialismo que o AKP de Erdogan deseja (…). Gul entende que o atual sistema parlamentarista deve ser saneado de algumas limitações e deve ser aprimorado, para aprimorar a democracia turca. (…) Nem o Partido AKP nem Erdogan falam sobre quais sistemas de freios e contrapesos haveria, para equilibrar os poderes, no presidencialismo que pregam. Muitos se preocupam com isso, sobretudo se se consideram as notórias tendências autoritárias de Erdogan.”

Mas e o que a guerra na Síria tem a ver com isso. Tem muito a ver. Ambos, Obama e Erdogan concordam que a crise síria tem de acabar imediatamente. Obama parece estar convencido de que se Erdogan for convencido a “fazer mais” – ouvindo o que os EUA disseram ao Paquistão –, a guerra civil acabará e uma “nova Síria” tomará forma. Assim, como por milagre.

Erdogan tem um problema. Tem um problema, para começar “operacional”, porque os militares turcos estão em absoluto desarranjo. E Erdogan tem também um problema político.

A máquina militar turca, para começar, tem de ser retificada, o que leva tempo. E, agora, Gul abriu um front de combate político muito arriscado. A Síria, cada dia mais, se vai convertendo em campo minado para Erdogan. Outro analista experiente e atento, da segurança turca, Nihat Ozcan, espiou com um espelho, na direção da Síria:

“Minha opinião é que há quatro questões a serem examinadas, para entender como será, no final do processo, o modelo sírio. (1) O que significa, para as análises, a modificação pela qual passou a guerra na Síria? (2) Como a atual guerra por procuração afeta o desenvolvimento político interno e os mandatos eleitorais [na Síria]? (3) Como a profunda divisão sociológica que há no povo sírio influencia a questão e modela problema e solução? (4) Se tudo se faz de fora para dentro e não há autoridade ou poder ou desejo suficiente para pôr fim à intervenção estrangeira, o que será a Síria ao final da ‘mudança de regime’?”

Ozcan vê os combates comandados e provocados pela Turquia convertendo-se rapidamente em guerra civil. É possível que o exército sírio comece a perder cada vez mais seu caráter plurinacional, e passe a ser cada vez mais sectário – com predomínio de alawitas. E, simultaneamente, do outro lado, pode acontecer de reforçar-se uma guerrilha com traços políticos sunitas.

Fato é que os ‘rebeldes’ jamais serão exército disciplinado e regular, o que cria a possibilidade de guerra sem fim “sem front, irregular, brutal, sem qualquer tipo de contenção moral” – e não há ameaça maior do que essa para o futuro da Síria.

Outra vez, trata-se de “guerra por procuração” que envolve interferência externa, o que implica que está além da capacidade de alguém, seja quem for, pôr fim à guerra no curto e médio prazo. “Essa situação reforça a motivação para a guerra dos dois lados (sírios) e os leva a manter a guerra.” Com o tempo, voltarão à tona preconceitos religiosos, sociológicos e psicológicas adormecidos no fundo de traumas históricos do passado, o que alimentará a guerra civil e a força dos dois lados em guerra.

Ozcan explica que, se se mantiver o processo hoje em curso, a Síria rachará. E qualquer reunificação exigirá muito tempo. Como analista militar e profundo conhecedor das capacidades turcas, Ozcan previu que:

“No futuro que se antevê hoje, são difíceis as operações clandestinas, as operações aéreas, os ataques aéreos punitivos, qualquer bloqueio por mar e qualquer tipo de operação de paz ou de negociação para a paz que criem situação de vantagem para qualquer dos lados em relação ao outro. Pelo que se vê hoje, o fogo só se extinguirá na Síria como resultado da própria dinâmica doméstica síria.”

Dito de forma mais simples, é alto o risco de que Erdogan acabe preso num labirinto sírio, a menos que exercite a mais absoluta circunspecção nesses telefonemas transatlânticos, cada dia mais raros. (Obama e Erdogan, ao que se sabe, falaram-se 13 vezes por telefone, ano passado; em 2012, até agosto, foram só duas conversas.) O sombrio recado de Ozcan é que “o quadro futuro” da Síria não deixa espaço para que Erdogan se permita complacências.

Erdogan nunca jogou baseball. Mas foi bom jogador de futebol – chegou a ser semiprofissional, nos anos 90s, defendendo as cores de um time local, em Istanbul. Erdogan sabe que, em campo, se se perde o controle da bola, tudo pode acontecer: até gol contra. E também pode acontecer de Gul driblar o zagueiro e mandar a bola para o fundo do gol.


[1] A foto divulgada pela Casa Branca pode ser vista em http://whitehouse.blogs.cnn.com/2012/08/01/obama-speaks-with-world-leader-on-phone-holding-a-baseball-bat/, onde se lê: “Essa foto oficial foi publicada no website, com a legenda: “Presidente Barack Obama ao telefone com o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan da Turquia, dia 30/7/2012 (Foto oficial da Casa Branca, de Pete Souza)”. Em http://astuteblogger.blogspot.com.br/2012/08/why-did-obama-release-photo-of-himself.html, lê-se explicação plausível para a tal foto: ela teria sido modificada. O blog mostra também a foto original não adulterada (imperdível!) [NTs]