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Nelson Werneck Sodré faleceu em 1999

Doada à Biblioteca Nacional, toda a obra de Nelson Werneck Sodré estará à disposição do mundo inteiro via internet, na Biblioteca Virtual da BN.  Ela ficará disponível ali na seção Pensamento Brasileiro. A doação foi feita por Olga Sodré, filha e única herdeira do escritor. Este  incansável e fundamental historiador brasileiro, que também foi um exemplar democrata e patriota, recebeu comovente homenagem na solenidade de abertura do acervo, que ocorreu dia 3 de agosto na própria sede da Fundação Biblioteca Nacional.  O ato foi conduzido pelo presidente da FBN, Galeno Amorim. Estiveram presentes e discursaram a diretora da Biblioteca Virtual, Mônica Rizzo, o advogado Eduardo Magrani  e o escritor Joel Rufino dos Santos, que participou com NWS da equipe orientada por este para a elaboração da série História Nova, que o golpe de Estado de 1964 extinguiu e a ditadura imposta ao país em seguida perseguiu. Olga Sodré fez na ocasião um relato ao mesmo tempo emocionado e emocionante sobre a trajetória do pai.

APRESENTAÇÃO DE OLGA SODRÉ NO EVENTO DA BN 

NARRAÇÕES DE UMA GERAÇÃO AMORDAÇADA: A DITADURA E O SEQUESTRO DE NELSON WERNECK SODRÉ

1. TRANSMISSÃO DO LEGADO E FILIAÇÃO INTELECTUAL

Quando em 2008, minha mãe adoeceu e me pediu para assumir os cuidados da obra de meu pai, Nelson Werneck Sodré, fui aos poucos descobrindo estarrecida não apenas a calamitosa situação editorial de seus livros, mas o grave risco de apagamento da memória de sua contribuição intelectual pessoal e o da extraordinária atuação cultural realizada por ele e por outros intelectuais, na segunda metade do século XX. A partir da instalação da ditadura em 1964, a voz dessa geração foi amordaçada, houve um verdadeiro seqüestro da contribuição intelectual de Nelson Werneck Sodré e cortes profundos foram feitos na raiz de seu legado, impedindo o fluxo natural da transmissão de seu pensamento e de sua memória para as novas gerações.

Tomei, então, consciência do erro cometido ao mergulhar tão completamente nas águas de minhas próprias pesquisas, cujas correntes internas me afastaram para outras regiões do conhecimento. Estava, então, terminando um livro de síntese entre a psicologia ocidental e oriental, que tinha sido objeto de anos de pesquisa e reflexão, porém pareceu-me que a contribuição de Nelson Werneck Sodré era mais valiosa e decisiva para a cultura brasileira do que a minha, que tinha também seu valor, mas era mais especializada e de um interesse mais restrito. A contribuição dele para o pensamento brasileiro é um tesouro inestimável e parte inerente da formação humana e intelectual de uma criativa geração de pensadores e artistas que inovaram a cultura brasileira, num período de ouro da vida cultural brasileira (anos cinqüenta e sessenta do século XX).

Nelson Werneck Sodré foi meu primeiro e grande mestre na área social, e continuo concordando com as linhas gerais de sua análise social da História do Brasil, porém deixei a enseada de seus ensinamentos para sair em busca de outros horizontes.  Em 2009, iríamos comemorar dez anos de seu falecimento e, em 2011, chegaríamos ao seu centenário.  Em 2008, percebi, portanto, que precisaria voltar rapidamente meu barco em direção às praias de seu pensamento, e começar a tomar providências a fim de utilizar essas datas como ganchos para o resgate de sua memória. Comemorarei, hoje, o encerramento desse período, colocando todo seu patrimônio autoral a mim legado em domínio público, de modo que sua obra possa estar assim não apenas à disposição de seus leitores nos livros já editados ou na Biblioteca Virtual da BN, mas possa também tornar-se patrimônio do povo, vindo e ser publicada e interpretada de modo amplo e variado pelas mais diversas tendências do pensamento brasileiro.

Desejo celebrar o encerramento desse ciclo iniciado em 2008 e dedicado à restauração de sua memória, aqui na Biblioteca Nacional, para a qual ele próprio doou o seu Acervo, com um testemunho pessoal[1] a respeito de alguns ângulos menos conhecidos de sua participação política e intelectual na vida brasileira, pondo em relevo sua grandeza intelectual e humana diante dos golpes mortais desferidos contra ele e seu legado intelectual[2]. É importante relatar aqui esses golpes contra sua pessoa e sua memória, pois eles visavam matar sua contribuição, que permanece, entretanto, viva em seu Acervo da BN, na memória de muitos de seus leitores, e no trabalho de vários pesquisadores.

A partir de 1990, alguns pesquisadores de valor reascenderam as chamas de sua obra, como reconheci em recente texto especialmente escrito para introduzir seu acervo na Biblioteca Virtual da BN, “Nelson Werneck Sodré e a Fênix: Renascimento da Contribuição de um dos pilares do Pensamento Social Brasileiro.” Entre os pesquisadores que mantiveram viva a sua memória se destaca Joel Rufino dos Santos, que também compartilhará hoje conosco seu depoimento pessoal. Considero ter ele um lugar especial na filiação intelectual de Nelson Werneck Sodré não apenas por ter sido seu assistente, ter convivido e trabalhado diretamente com ele, tendo feito parte de sua equipe, mas, sobretudo, por ter ele embebido características essenciais desse historiador em sua caminhada pessoal, manifestando sua fidelidade como discípulo dileto dele. Assim sendo, temos aqui, hoje, a presença do mais representativo herdeiro dessa filiação intelectual à qual também me sinto integrada.

Num depoimento escrito em 1976, durante o governo Geisel, e publicado em seu livro “O Fascismo Cotidiano” [3], Nelson Werneck Sodré conta que o Instituto Nacional do Livro proibiu ao editor Ênio Silveira publicar não apenas o prefácio que escrevera para o romance de sua prima Martha, por ele apresentada a esse editor, mas até a dedicatória na qual ela lhe demonstrava seu reconhecimento. Esse gesto tão mesquinho ilustra a sistemática tentativa de assassiná-lo como escritor e de aniquilar qualquer manifestação de apreço por ele.  Comentando esse triste episódio, ele menciona que não só o prenderam em uma fortaleza[4], mas apreenderam também seus livros, tendo sido impedido de ensinar e privado da cátedra no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB).

Esse pacífico escritor e professor não era um bandido, um malfeitor ou um político corrupto. Era um brilhante escritor, um militar exemplar, um democrata de ética irrepreensível, um homem completamente dedicado ao trabalho pelo povo brasileiro, aos seus familiares e companheiros. Que crime cometera para que sobre ele se desencadeasse tal violência? Por que não tendo cometido nenhum crime ou violência, e sendo, ao contrário, extremamente afável e cordial mesmo com seus piores opositores, foi ele considerado tão perigoso por aqueles que implantaram a ditadura em nosso país? Por que foi ele colocado na lista dos dez primeiros eminentes brasileiros a terem seus direitos políticos cassados, entre eles dois Presidentes da República?[5]. O instituto onde ele ensinava (o ISEB) foi brutalmente extinto por um dos primeiros atos do novo governo, que, imediatamente, logo no dia seguinte de sua posse, mandou fechar a sede desse instituto, na Rua das Palmeiras.

Em várias palestras e artigos, particularmente em “O ISEB, Nelson Werneck Sodré E A Cultura Brasileira[6] procurei testemunhar a valiosíssima contribuição intelectual e cultural dessa instituição, onde tantos cursos e eventos maravilhosos reuniram públicos os mais heterogêneos e ávidos de conhecimento sobre a realidade brasileira e sobre projetos para o desenvolvimento do país. As arbitrariedades atingiram não apenas a pessoa e a vida política e intelectual de Nelson Werneck Sodré, mas se estenderam aos seus livros e à sua produção intelectual: as livrarias se recusavam a receber seus livros para a venda, os jornais não mencionavam o seu nome e ele só podia escrever em algumas revistas sob pseudônimo. No livro acima citado, Nelson Werneck Sodré conclui que isso equivale a morte de um escritor, e era esse justamente o objetivo: matar a sua obra e sua atividade intelectual, amordaçar seu pensamento.  É preciso dizer que essa tentativa de assassinato intelectual foi extremamente dolorosa de ser vivida não apenas para ele, mas igualmente por mim, toda nossa família, e a geração assim golpeada.

2. FÚRIA DA DITADURA E AMORDAÇAMENTO DO PENSAMENTO

A analise da perseguição e da fúria que se desencadearam contra Nelson Werneck Sodré e o ISEB, assim como o destaque a eles dados nas medidas precursoras e iniciais do governo ditatorial têm muito a nos ensinar sobre o processo político brasileiro. É importante andarmos para frente, ultrapassando esses tristes episódios sem, entretanto, nos esquecermos das violências e dos crimes cometidos. É fundamental tirarmos as lições essenciais desse passado, pesquisando a verdade dos fatos e nos perguntando o porquê de tanta violência, em particular contra alguém que não tinha nenhum cargo importante no governo deposto, tinha sido colocado na reserva por esse mesmo governo, o governo do Presidente Jango Goulart, não estava mais em nenhum comando militar e se dedicava apenas a escrever e ensinar. As medidas contra ele e o ISEB foram, em última análise, uma brutalidade contra a cultura e o pensamento. Elas revelam o medo que essas autoridades tinham de uma atividade intelectual livre e colocada a serviço do povo e da nação. O verdadeiro perigo que temiam não era um golpe comunista eminente, pois não havia nem sinal dele no horizonte. O perigo estava na mudança das consciências que o conhecimento pode trazer.

Para verificar que o alvo era o conhecimento basta lembrar que, logo no primeiro dia do novo governo, dia 1º de abril de 1964, a belíssima sede do ISEB foi invadida e completamente depredada, nada ficando inteiro, no edifício onde tantos eminentes pesquisadores haviam debatido e lecionado. Abordando o fascismo cotidiano instaurado pela ditadura, Nelson Werneck Sodré descreve como as cadeiras e mesas desse instituto foram estraçalhadas, os quadros arrancados das paredes, as vidraças e molduras quebradas, as poltronas esfaqueadas, as gavetas atiradas ao chão e os papéis espalhados pelo jardim, as estantes derrubadas e os livros rasgados. Esses atos por si só narram a história de um ódio tremendo contra a cultura e o conhecimento. Imediatamente preso após o golpe, ainda em maio de 1964, Nelson Werneck Sodré teve que responder a um Inquérito Policial Militar (IPM) sobre o ISEB, que envolveu também três Ex-Presidentes da República, Ministros da Educação, professores, escritores, editores, teatrólogos, cineastas, parlamentares, militares, dirigentes sindicais e estudantes.

O Ministério da Educação foi transformado em Palácio de IPM e os dirigentes desses inquéritos passaram a governar nosso país, sua cultura e sua educação! O primeiro IPM ao qual Nelson Werneck Sodré respondeu foi publicado em junho de 1964, e a acusação contra ele era de “ação extremista no meio intelectual e estudantil, agindo principalmente no âmbito do Ministério da Educação” [7]. Nesse IPM, se faz alusão ao seu depoimento prestado na Fortaleza de Santa Cruz (Niterói-RJ), para onde fora levado e permaneceu por 54 dias, após ser preso, no dia 26 de maio de 1964, por investigadores da Polícia Paulista, na fazenda de sua tia em Fernandópolis (SP). Nesse IPM, Nelson Werneck Sodré foi acusado de ser “um dos mais ativos responsáveis pela infiltração comunista no Ministério da Educação e Cultura”, mas respondeu que sua ideologia estava registrada em seus livros. Em conclusão, é dito: “suspeito desde 1951, hoje parece deve ser considerado comunista”. O crime de que ele e muitos outros intelectuais foram acusados era, portanto, um crime que se situava no nível das idéias, era um crime ideológico, e a perseguição a que foi submetido atentava em última instância contra a liberdade de pensamento.

Esses foram tempos muito sombrios para todos nós, pois não apenas meu pai teve que se esconder e foi preso, mas eu também não podia voltar para casa, tendo que viver mudando de esconderijo por não saber o que me esperava se eu voltasse para casa. Não se tratava apenas da perseguição ao meu pai, mas eu também podia estar em risco ou colocar outras pessoas em risco, já que, na época, eu era membro do comitê universitário do Partido Comunista. Eu era uma jovem idealista que nada tinha feito além de defender a justiça social e almejar um mundo melhor, porém podia também ser considerada criminosa por defender idéias contrárias às da ditadura. Tendo escapado às pressas da ocupação militar do diretório acadêmico da faculdade de direito (Caco), onde os estudantes resistiam, no dia do golpe, eu temia tanto pelo meu pai, como por mim e meus companheiros. Conto esses fatos pessoais para que se possa ter uma noção da nuvem de terror que escureceu o céu de nossas vidas, e para que se possa ter uma visão da extensão do mal que se abateu sobre Nelson Werneck Sodré, envolvendo seus familiares e companheiros.

Não foram as pessoas engajadas politicamente que me abrigaram, na medida em que nossos companheiros atravessavam também a mesma tempestade, Fui acolhida por pessoas conhecidas de quem nunca esperei tal atitude. Eram pessoas simplesmente boas e íntegras que tomaram consciência política com o golpe, e que acabaram aos poucos por se politizaram em decorrência do que viram ou viveram, no processo instaurado pela ditadura. Sobrevivi a esse período, mas estava completamente atordoada. O ano de 1964 era o ano de minha formatura, porém o mundo desabara sobre minha cabeça e os meus sonhos de uma sociedade mais justa e mais humana desmoronaram como um castelo de areia. Esse era o projeto de vida que me interessava, e, de um momento para o outro, eu não tinha mais projeto ou interesse por coisa alguma. Meu pai resistia bravamente, e diante dele eu fazia de conta que era forte, mas a verdade é que perdera o rumo. O sofrimento era tão profundo que já nem sentia medo, e resolvi voltar para casa, sabendo que minha mãe enfrentava tudo aquilo sozinha, com a ajuda apenas de familiares e amigos.

Fui emergindo aos poucos desse abismo, mas estava completamente abalada pelo horror que a ditadura instaurara em nosso país, assim como pela dor dos amigos desaparecidos, mortos ou torturados. Percebi estar despreparada para enfrentar a incompreensível sufocação do pensamento e dos ideais de justiça. A depressão já me rondava e eu não sabia… Em 1966, sentindo-me completamente sufocada pela atmosfera de arbitrariedade social reinante no país e tendo recebido uma bolsa de estudos para a França, vi nisso uma luz no final do túnel escuro onde me encontrava.  Lá cheguei completamente fragilizada, e um amigo me encaminhou para um tratamento psicanalítico que me permitiu falar dessas dores e restabelecer minha vida afetiva, intelectual e política, nesse novo país que me recebeu de braços abertos em seu universo cultural e universitário. Essa retomada da vida intelectual permitiu-me uma renovação do pensamento e uma caminhada intelectual própria. Tornei-me novamente uma líder estudantil, no movimento universitário de 1968, e posteriormente professora e pesquisadora, tendo participado, na Faculdade de Ciências Humanas Clinicas (Sorbonne – Paris VII), das grandes transformações introduzidas a partir de 1970 na universidade francesa.

Ao contrário de mim, quando a ditadura se instaurou no Brasil, Nelson Werneck Sodré já estava forjado por um longo processo de lutas políticas anteriores e estava mais amadurecido e preparado para enfrentar a terrível situação da ditadura.  Quando essa chegou, eu recém começara minha vida política. Ela era uma planta ainda muito débil que mal despontava e foi ceifada pela raiz. Embora também amargurado com o desmoronamento de uma vida inteira dedicada à atividade literária e à luta pela cultura e pela transformação do país, Nelson Werneck Sodré recusou a hipótese de se exilar e deixar o Brasil. Tinha plena consciência que aqui era seu lugar, e não queria, de modo algum, deixar uma luta nacional à qual já se entregara de corpo e alma. Ele havia trabalhado dia e noite para tentar pensar e escrever sobre o enigma social brasileiro, participando ativamente de um longo processo para impedir as anteriores tentativas de golpe e denunciar os entraves que bloqueavam a emancipação do nosso povo. Já tendo sido afastado da cena política brasileira, durante o período que chamou de seu ‘exílio’, no sul do Brasil, ele não queria nem pensar em sair das terras brasileiras, preferindo resistir heroicamente e continuar lutando com as armas intelectuais que já manuseava como um grande mestre.

3. CONTRIBUIÇÃO DE UMA HERÓICA RESISTÊNCIA INTELECTUAL

Nelson Werneck Sodré optou, portanto, pela resistência por meio do combate intelectual, mantendo acesa sua paixão pelo conhecimento do processo brasileiro e retratando essa sombria fase de nossa História em obras contundentes e precursoras, como A Farsa do Neoliberalismo[8]. Não se deixou abater, mantendo aceso o fogo da paixão pelo Brasil e seu povo. Seu coração lúcido e consciente observava e analisava os detalhes desse violento processo ditatorial. Assim sendo, os livros de sua última e terceira etapa de produção são marcados pelo tom polêmico e apaixonado de um incansável combate político e de um incessante trabalho de levantamento de dados sobre as transformações sociais introduzidas pela ditadura para amordaçar o povo e atrelar nosso desenvolvimento à globalização capitalista.

A leitura atenta de seus livros permite-nos entender que o golpe e a violência da ditadura não ocorreram em conseqüência dos últimos acontecimentos do governo de Jango Goulart nem foram uma reação contra uma suposta ameaça comunista. As tentativas de golpe de estado, no Brasil, acompanham o processo de abertura democrática e transformação mundial iniciada em 1945 com a derrocada do nazismo e a deposição da ditadura de Vargas. Durante todo esse período e enquanto esteve na vida ativa militar, Nelson Werneck Sodré participou com sucesso dos movimentos nacionalistas e democráticos que conseguiram bloquear essas tentativas de golpe.  Esse foi favorecido pela conjuntura internacional e pelo desmantelamento do sistema de defesa militar democrático e pelo afastamento de militares nacionalistas como Nelson Werneck Sodré.

O golpe de 1964 foi o desfecho de um longo processo de enfrentamento entre os golpistas e as forças nacionalistas e democráticas em luta pelo domínio do poder político e de nossas riquezas nacionais. Quando esse processo de luta nacionalista e democrática se abre em 1945, Nelson Werneck Sodré era um brilhante oficial com uma promissora carreira militar, que bem jovem tinha chegado a ser ajudante de ordens de Ministro da Guerra e instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, no período de 1948 a 1950, onde ensinou História Militar. Nessa época, ele participa da diretoria cultural do Clube Militar e dirige a Revista do Clube Militar, empenhando-se na luta pelo monopólio estatal do petróleo brasileiro e contra a participação do Brasil na Guerra da Coréia, posições também defendidas pelo PCB.

Por essas posições passa ele a ser acusado de comunista e, em 1951, é desligado da Escola de Estado-Maior e enviado para bem longe da cena política. Apesar de suas ligações com o então Ministro da Guerra, general Newton Estillac Leal, ele foi enviado para o extremo sul do país, na fronteira do Rio Grande do Sul, vivendo um ‘exílio’ político e cultural, numa pequena guarnição de Cruz Alta.  Já nessa época, as forças de direita e suas tendências golpistas eram bem fortes. Nelson Werneck Sodré relata em vários de seus livros, em particular em suas memórias, as tentativas de golpe militar contra as quais lutou a começar pela tentativa de 1954 para depor o governo democrático de Getúlio Vargas, que só foi impedida pelo suicídio deste Presidente da República.

Em 1955, acompanhei de perto a articulação por ele realizada junto aos comandos militares nacionalistas, atendendo a um telefonema do Ministro da Gera, General H. T. Lott, para ajudá-lo a bloquear o movimento golpista do onze de novembro. Em 1958, toma corpo uma acirrada e violenta campanha nos órgãos de comunicação contra o ISEB e Nelson Werneck Sodré, que já são sinais precursores da violência que viria a seguir com o golpe de 1964 e a ditadura. Ao longo dessa constante luta democrática e nacionalista, as críticas e ataques golpearão brutal e arbitrariamente a vida de Nelson Werneck Sodré devido às suas posições intelectuais e políticas. Durante a crise gerada pela renúncia de Jânio Quadros, Nelson Werneck Sodré ficou preso por 10 dias por ter se oposto à tentativa do golpe que pretendia impedir a posse do vice-presidente eleito, João Goulart.

Após a posse desse Presidente, a pressão contra ele continua e os militares de direita procuram tirá-lo mais uma vez da cena política, transferindo-o para uma guarnição militar, dessa vez situada no extremo norte do país. Ele foi, então, designado para o Quartel General da 8ª Região Militar, em Belém (Pará). Estava ao lado dele, em seu apartamento em Botafogo, quando nosso querido amigo, o jornalista Raul Riff, Secretário de Jango, telefonou pedindo-lhe que entendesse a posição desse Presidente da República que precisava ceder pelo menos momentaneamente à pressão desses militares, até se fortalecer no poder. Nelson Werneck Sodré retrucou que já tinha cedido anteriormente às manobras desses militares, mas que não lhe parecia, naquele momento, oportuno deixa-los desmantelar o esquema militar nacionalista que impedira as tentativas anteriores de golpe, garantindo a posse desse Presidente.

Assim sendo, Nelson Werneck Sodré já previa a possibilidade de uma nova tentativa de golpe e, em conseqüência dessa maneira de encarar o desenrolar do processo político, recusou-se terminantemente a aceitar essa proposta. Em sinal de protesto, requereu seu afastamento do serviço ativo do Exército e consumou a sua exclusão das fileiras militares, em 25 de agosto de 1961, solicitando a sua passagem para a reserva.  Terminava assim dignamente, embora sem o reconhecimento oficial, uma brilhante carreira militar, sempre dedicada ao serviço da nação brasileira e à defesa da ordem democrática. Convivi com Raul Riff, sua esposa Beatriz e seu filho Tito, durante o exílio deles em Paris, e muito conversamos sobre esses acontecimentos.

A decisão de Jango foi pessoalmente muito mais prejudicial para ele e para o Brasil do que para a vida de Nelson Werneck Sodré. Não apenas, após essa passagem para a reserva, pode ele se dedicar mais às suas atividades de escritor, pesquisador e professor, mas também pode ter uma mais intensa participação na vida política e cultural brasileira, projetando-se na memória nacional como o ‘General do Povo’, como contei em meu artigo para a Revista ADVIR, publicada pela Associação de docentes da UERJ[9]. Além disso, se ele tivesse ainda na vida militar ativa, no Norte do Brasil, na época do golpe, talvez não tivesse ele sobrevivido para nos transmitir suas lúcidas análises sobre a situação econômica e política instaurado pela ditadura.

É evidente, entretanto, que a fúria de seus inimigos não ficou satisfeita com o fechamento do ISEB, com a cassação de seus direitos políticos, apreensão de seus livros e suas prisões. Quando voltei ao Brasil, em 1971, numa primeira tentativa de reintegração à vida do país, pude presenciar o recrudescimento da violência ditatorial contra os que ainda bravamente a ela resistiam entre eles Nelson Werneck Sodré. A atmosfera era ainda mais irrespirável do que no início dessa ditadura: o governo tentava de todas as maneiras amordaçar as vozes, calar o pensamento e sufocar qualquer resistência. Em abril de 1972, meu pai foi submetido a novo interrogatório na sede da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) do Estado da Guanabara (atual Estado do RJ). No parecer final de 09 de junho de 1972, o responsável da investigação observa ser ele “um intelectual, moderado ao falar, tratável e humilde, a despeito da posição”.

Esse investigador acrescenta que Nelson Werneck Sodré comentara nada temer sobre o processo, já que escrever um livro sobre o Brasil não pode ser considerado um crime.  Entretanto, nesse processo, ele era acusado de ter cometido um ato ilícito ao escrever a História Militar do Brasil. Sob a alegação de inexistência de conexão entre os fatos praticados pelos indiciados, o processo foi, então, enviado ao Superior Tribunal Militar, em 1973. Esse Inquérito Político Militar (IPM) só terminou em maio de 1978, e como a última edição da História Militar do Brasil era de 1968, a sentença final considerou prescrita a ação penal de punição de um a três anos de prisão que deveria lhe ser imposta. Assim sendo, esse inquérito demonstra ter sido Nelson Werneck Sodré perseguido de modo absurdo e impiedoso, deste o início até o fim da ditadura. Na medida em que ele foi perseguido por suas idéias, por seus ideais e por sua atividade intelectual sob a acusação de comunista, cabe-nos agora testemunhar e refletir sobre essa questão.

4. UM PENSADOR MARGINAL E A QUESTÃO COMUNISTA

A acusação de comunista e a curiosidade em torno dessa questão sempre pairaram sobre a atividade intelectual de Nelson Werneck Sodré, e, por várias razões, não foram jamais por ele claramente elucidadas. A atual situação brasileira e o desejo de transmitir seu legado intelectual em toda sua integridade estimularam-me a dar meu testemunho a esse respeito. Não há dúvida, que, até o final de sua vida com quase noventa anos, ele continuava um polêmico e árduo defensor do marxismo, com base no qual ele deixou uma obra monumental e novas contribuições para o pensamento brasileiro e para as ciências sociais em nosso país, como defendi na Comissão Científica do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) ao destacar “A Originalidade da metodologia de pesquisa histórica de Nelson Werneck Sodré”  [10].

Ele nunca pediu para pertencer ao IHGB ou nenhuma outra instituição acadêmica ou literária oficial. Ele sempre permaneceu à margem delas, dedicando-se unicamente à transmissão dos conhecimentos que poderiam servir ao povo brasileiro sem jamais fazer concessões à busca de cargos ou de prestígio. Passando por cima dessa marginalização, considerei que as comemorações do centenário poderiam tornar-se uma bela ocasião para que essas instituições reconhecessem os seus méritos e prestassem-lhe a devida homenagem, e por isso, desde 2008, procurei estabelecer um contato o mais amplo possível com as diferentes instituições das áreas do conhecimento nas quais ele atuara. Apesar de sua enorme e sólida produção literária e sua longa carreira de crítico literário, Nelson Werneck Sodré jamais tentara igualmente ingressar na Academia Brasileira de Letra, mas, com o apoio de alguns acadêmicos, em particular de Alberto Venâncio Filho e Carlos Heitor Cony, foi organizada numa mesa-redonda em homenagem ao Centenário dele, no dia 18 de agosto de 2011[11].

Suas aprofundadas e vastas pesquisas, no campo da história, também nunca tiveram o aval acadêmico ou de alguma instituição histórica oficial. Ele só foi eleito e convidado a ingressar, no IHGB, nos últimos anos de sua vida, em agosto de 1997[12]. Em resposta ao presidente do IHGB, prof. Arno Wehling numa carta datada de 25 de agosto de 1997, Nelson Werneck Sodré escreve que seu primeiro impulso foi o de declinar o honroso convite em função do parecer elaborado por sócios do IHGB, como decisão da entidade, num libelo[13] contra a História Nova do Brasil, obra coletiva por ele assinada com seus professores adjuntos[14], no ISEB, entre eles Joel Rufino dos Santos. Após refletir sobre a questão, tomou, entretanto, a decisão de aceitar o convite apesar de tudo que acontecera anteriormente[15].

Nelson Werneck Sodré foi, então, integrado ao quadro de Sócio Honorário do IHGB, mas, tendo falecido logo depois, em 1999, jamais compareceu às atividades dessa instituição.  Essas pequenas narrações exemplificam como aquilo que Nelson Werneck Sodré escrevia incomodava a ponto de desencadear o repúdio, a fúria e a violência contra ele e seus livros, como aconteceu com o inquérito policial militar a respeito de sua versão da história militar do Brasil, assunto sobre o qual ele foi, sem dúvida, um dos maiores conhecedores e intérpretes. A interpretação pessoal que tinha da história militar é um direito indiscutível de qualquer pesquisador. Tendo sido esse trabalho baseado em amplo e minucioso levantamento de dados e numa análise rigorosa de nossa história militar, usando um método abalizado e cientificamente reconhecido, só caberia contra ele outra interpretação igualmente fundamentada e não um processo político – militar ou as críticas injuriosas de alguns professores universitários[16].

Quanto à acusação de comunista, é preciso salientar que Nelson Werneck Sodré sempre defendeu os interesses nacionais, democráticos e populares. Seus livros, pesquisas ou ensinos focalizavam a realidade brasileira[17]. A sociedade comunista não era diretamente objeto de seus estudos, embora nela acreditasse. As pesquisas e livros de Nelson Werneck Sodré apenas analisavam e criticavam a situação histórica de dominação e espoliação do povo e da nação brasileira sob um enfoque marxista.  Assim sendo, parece-me que a acusação de comunista é usada mais como uma justificativa para condenar essa incansável defesa dos interesses nacionais do povo brasileiro, em oposição aos interesses políticos e econômicos dos grupos hegemônicos no governo estabelecido pela ditadura.  Com isso não pretendo encobrir ou negar que ele fosse comunista e defendesse os ideais de uma sociedade futura baseada no principio da igualdade de todos, que atendesse às necessidades dos trabalhadores e que fosse por eles próprios governada. Ele foi e permaneceu comunista até o final de sua vida, sempre fiel a esses ideais[18].

Nelson Werneck Sodré recusava, contudo, a tentativa de reduzirem seu enfoque a uma previsível classificação a priori com base em supostas acusações de sua obra orientar ou de ser orientada pelo Partido Comunista. Nunca me ocorreu perguntar se ele era membro do Partido Comunista. Eu inferia que ele era, e não me parecia necessário ou oportuno pedir-lhe um posicionamento a respeito. Eu sabia que, desde a Escola Militar, ele recebera de um de seus professores, o professor Isnard, a quem muito admirava, certas pinceladas de marxismo,  porém sabia também que ele só amadurecera seu método histórico e dialético, após os anos cinqüenta,  época em que eu o ajudei a organizar o material que serviu de base aos seus livros dedicados ao estudo do marxismo. Sua aproximação do Partido Comunista é seguramente anterior a esse período, e ocorreu possivelmente quando eu era ainda muito pequena, tinha apenas dois anos, e ele servia em Salvador, por volta dos idos de 1943.

Embora ele sempre tenha sido um cuidadoso educador e procurasse responder as constantes questões que as crianças colocam sobre o mundo e a sociedade em volta, nossas conversas a esse respeito só se intensificaram a partir de meus sete anos, ou seja, por volta de 1948. Nessa época, nós morávamos no Rio, e ele ensinava na Escola de Comando do Estado Maior do Exército (1948-1950). Já, então, eu me empolgava com seu entusiasmo nacionalista e seu amor pelo Brasil, mas tudo isso era ainda impreciso em minha cabeça infantil. Ele mal começara a me transmitir os rudimentos de sua compreensão do mundo, e eu apenas registrava algumas vagas idéias carregadas das emoções que ele me passava sobre sua intensa vida intelectual e política[19].

Quando ele foi afastado para o sul do Brasil, nossa família ficou morando em Cruz Alta por quatro anos. Foi, então, no início dos anos cinqüenta que ele passou a receber regularmente a visita de um misterioso personagem[20]. Eu sentia o respeito de meu pai por esse homem, e toda essa atmosfera me encantava. Nunca esqueci esse personagem, e mesmo quando as divergências os afastaram, meu pai e eu guardamos sempre por ele uma especial afeição. Esse foi meu primeiro contato com Carlos Marighella,[21] que  permaneceu em meu coração como um dos grandes heróis brasileiros.

Aos treze anos, meu pai me deu solenemente meu primeiro livro marxista: “A Origem da família, do Estado e da Propriedade Privada” de Engels. Essa foi a minha iniciação da vida intelectual adulta. A partir daí, ele me levava nas reuniões políticas, muitas vezes secretas. Certa vez, por exemplo, quando alguns militares, numa reunião em S. Paulo, estranharam a presença daquela garota, ele retrucou: “Ela é de minha inteira confiança!” Ele se empenhou assim profundamente em minha formação intelectual e política, especialmente na área de história e literatura, realçando o papel feminino[22] e conversando sempre longamente comigo sobre suas idéias, seus livros e os acontecimentos do mundo social. Por tudo isso, eu o considero meu primeiro e grande mestre, mas também um grande amigo e confidente com quem eu podia compartilhar minhas dúvidas e incertezas na vida.

No final dos anos cinqüenta, quando deixei o colegial, minha decisão estava tomada. Eu desejava mudar o mundo! Em resumo, eu aspirava por mais liberdade nos costumes e ralações humanas, e queria uma sociedade mais justa. Ao entrar para a faculdade, decidi ingressar no Partido Comunista, e comuniquei minha decisão a meu pai. Para meu espanto, ele disse que essa era uma decisão muito série, e que eu devia pensar bem para ver se estava preparada para ela. Só quando ocorreu o golpe, compreendi o que ele queria dizer com essa advertência… Minha militância era bastante juvenil e empolgada, e foi esmorecendo quando fui tomando consciência do modo de funcionamento da organização partidária[23].

Tudo isso foi amplamente discutido durante logos anos com Nelson Werneck Sodré com quem sempre mantive um diálogo franco e respeitoso, sem que nenhum de nós procurasse denegrir ou ofender a posição do outro. No início dos anos oitenta, quando voltei ao Brasil, aqui encontrei um clima de abertura política e intelectual que facilitou minha reintegração ao nosso país. Pude, então, restabelecer esse diálogo com ele em novas e interessantes bases. Ele se interessava e discutia comigo a respeito de meu percurso através da psicologia e da espiritualidade, e, eu continuava admirando profundamente as escolhas e a postura dele, considerando-o muito mais forte e preparado do que eu no campo social e político[24]. Não tenho críticas ao seu combate ou às suas escolhas, e as considero mesmo exemplares[25]. Além de um brilhante escritor e historiador, ele foi um verdadeiro humanista e um democrata que soube transmitiu e consolidar a base de minha formação, deixando-me seguir livremente meu próprio caminho rumo a um horizonte diverso do dele e até criticado no caminho marxista que adotara, demonstrando, portanto, até o final de sua vida, uma maravilhosa abertura de espírito.


[1] Ao longo das comemorações do centenário, procurei registrar alguns outros testemunhos, tendo em vista que, até esse momento, nenhum estudioso da obra e do pensamento desse autor se preocupara em colher meu testemunho, o que me parecia, como professora de método de pesquisa, um erro grave de não utilização de uma fonte idônea e de um arquivo vivo.

[2] Como se trata de um testemunho, não será necessário citar o trabalho de outras pessoas sobre ele nem reproduzir as referências já feitas em outras ocasiões, limitando-me a indicar textos que escrevi durante as comemorações do centenário, evitando assim repetir o que já disse em outras apresentações.

[3] Nelson Werneck Sodré, O Fascismo Cotidiano, Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1990, pp 26-30.

[4] Ele esteve preso no forte de Copacabana e na fortaleza de Santa Cruz.

[5] Juscelino Kubitscheck e Jango Goulart.

[6] Olga Sodré, “O ISEB, Nelson Werneck Sodré e a Cultura  Brasileira”, Campo Grande (MS): Revista  de História ALBUQUERQUE, , v. 3 –n.6, jul./dez. 2011, pp.9-22.

[7] As citações desse IPM foram retiradas de cópias de algumas folhas desse inquérito a mim cedidas por Rodrigo Czajka e por ele recolhidas numa pesquisa realizada nos arquivos de Brasília entre 2006 e 2008, em busca de informação sobre os IPM da Imprensa Comunista e do Comitê Cultural do PCB, e  a quem autorizei o acesso e uso desse material para sua tese de doutorado.

[8] Nelson Werneck Sodré, A Farsa do Neoliberalismo, Rio de Janeiro, Graphia, 1995.

[9] Olga Sodré, “O Centenário de um ‘General do Povo’ e ‘Pai da Nação’“, Revista ADVIR, Nº27, dezembro DE 2011, PP 59-65.

[10] Esse pronunciamento foi feito na sessão comemorativa ao centenário de nascimento de Nelson Werneck Sodré, em 13 de julho de 2011, na qual se pronunciaram também os seguintes professores: Candido Mendes,  Esther Caldas Bertoletti e Norma Côrtes, tendo todos os nossos  depoimentos sido publicados na Revista do IHGB, a. 172, n. 453,out../dez. 2011, pp.53-107.

[11]  Nesse evento, doei a cada um dos acadêmicos um exemplar da nova edição de seu livro “Memórias de um Escritor” [11], especialmente lançado nas comemorações do centenário, defendendo a “Relevância das Memórias de um Escritor para a Literatura e a Cultura Nacionais” Esse texto foi publicado com os dos demais participantes desse evento num CD da ABL feito para registrar essa comemoração.

[12] Logo após uma reforma desse instituto, que criou um quadro especial de sócios honorários “integrado por nomes de notório saber e produção intelectual, nas áreas a que se dedica o Instituto, traduzidos em obras de real significação para os estudos brasileiros” (Ofício do IHGB 199/97).

[13] Esse parecer foi registrado na Revista do IHGB. tendo o historiador a ele respondido, na Revista Civilização Brasileira e em seu livro: Nelson Werneck Sodré, A História da História Nova, Petrópolis (RJ)): Vozes, 1987.

[14] Argumenta que em função desse parecer os autores desse livro foram presos, torturados, perderam seus trabalhos e três deles tiveram que se exilar.

[15]. Explicou, nessa mesma resposta, ter tomado essa decisão para não perturbar a ação da nova direção do IHGB, que estava dando sinais de mudanças renovadoras em sua orientação Solicita que sua carta fosse inserida na Revista do IHGB como fora o malsinado parecer, pedido que lhe foi negado por razões institucionais.

[16] Como as que foram feitas por alguns professores da USP, como já narrei em testemunhos anteriores, acima citados.

[17] Da mesma maneira como o valor da obra arquitetônica de Oscar Niemayer ou as pinturas de Portinari não podem deixar de ser reconhecidas por eles serem comunistas, a obra de Nelson Werneck Sodré só pode ser avaliada e reconhecida por seu valor histórico ou literário.

[18] Assim sendo, lamento que o PCB não tenha organizado nenhum evento em sua homenagem por ocasião de seu centenário. Vários marxistas estudiosos de seu pensamento organizaram eventos em diversas universidades do país, porém não fui convidada a falar em nenhum deles.

[19] Quando vi, por exemplo, um filme sobre Joana d’ Arc associei, em minha imaginação, a história desse personagem com as lutas que meu pai  narrava sobre o Brasil, sonhando em um dia vir a ser como essa heroína francesa.

[20] Guardei em minha memória e minha imaginação, a forte figura de um mulato grande e bonito, todo vestido de branco, com chapéu e sapatos também brancos. Eu tinha nove anos ou dez anos, e não sei como sabia que devia guardar segredo a respeito dessas visitas, mas fazia isso com empenho, orgulhosa de poder assim participar desse segredo.

[21] Eu não estava mais, no Brasil, quando ele foi expulso do partido em 1967, e, depois, em fevereiro de 1968, veio a fundar o grupo armado Ação Libertadora Nacional, mas mesmo acreditando fundamentalmente num caminho democrático para o socialismo, admiro sua coragem de procurar lutar e resistir contra a ditadura pelas armas. Ele, Mario Alves e Apolônio Carvalho foram meus grandes ídolos comunistas brasileiros e chorei copiosamente a terrível morte dos dois primeiros.

[22] Ele desejava que eu fosse um novo tipo de mulher e se esmerou para me transmitir sua visão sobre a igualdade dos homens e das mulheres com extremo cuidado para preservar em mim um perfil feminino autônomo e independente.

[23] No final de 1963, antes mesmo da implantação da ditadura, eu já achava que com os métodos empregados em nossa vida política partidária não seria possível mudar o mundo. Começava, então, uma tomada de consciência, que seria aprofundada anos mais tarde, sobre a necessidade de uma transformação não apenas da sociedade, mas também do ser humano, o que me orientou para a psicologia e posteriormente para a espiritualidade.

[24] Educada de forma autônoma, eu queria encontrar minha própria verdade e ela estava fora do universo que meu pai me fizera conhecer. Até hoje, contudo, estou completamente de acordo com ele no que diz respeito ao conhecimento da realidade social brasileira e da necessidade de construir uma sociedade mais justa e igualitária.

[25] Considero-o um homem extraordinário no que diz respeito tanto à ética, como à política e à vida intelectual.