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Esta é uma pergunta que se torna cada dia mais saliente no mundo inteiro mas, também, nos próprios Estados Unidos. A filmes que mostram soldados estadunidenses a se “divertirem” matando civis no Iraque e no Afeganistão, à exibição da naturalidade com que o presidente Obama assume pessoalmente o comando de uma equipe de assassinato à distância por meio de “drones” – no Oriente Médio e no Paquistão, por enquanto – e a muitos fatos desse gênero divulgados nos últimos meses se soma a série mais recente e espantosa de explosões de violência individual, que mataram dezenas de pessoas em escolas e outros locais públicos naquele país, para pôr em foco esse tema tão complexo e tão crucial: por que a cultura da violência é tão forte nos Estados Unidos?

A grande mídia (presstitute, como a batizou Paul Craig) limita-se, como sempre, a aproveitar os atos de terror para vender mais, lucrar mais e espalhar mais na população o medo, tão benfazejo à indústria de guerra que governa o país. Mas cresce o número de pessoas com visão e prestígio que se inquietam com isso e manifestam perplexidade e questionamento. Muitas são as causas levantadas: o racismo, o espírito do “destino manifesto” que supostamente dá aos Estados Unidos direito e “missão” de dominar o mundo, o individualismo exacerbado etc. Michael Moore examina com sua inteligência arguta alguns ângulos da questão em artigo publicado pelo mexicano La Jornada, com original aqui e tradução cedida por Adital aqui. O brasileiro Mauro Santayana também focou o assunto, com sua habitual lucidez, aqui. Um lugar especial no processo cabe à indústria do cinema, fundamental para difundir a ideia de que a violência é o meio normal de resolver diferenças entre humanos. O escritor e cineasta Saul Landau deu em CounterPunch uma contribuição valiosa para essa reflexão. Ler o original aqui e a tradução de Roberto Teixeira a seguir.

ConterPunch 3-5.08.2012

Mais estadunidense do que o beisebol e a torta de maçã

A cultura estadunidense da violência

por Saul Landau[i]

Quando criança, eu brincava de jogos de guerra (caubois matando índios). Meus amigos e eu tínhamos hábito e atirar uns nos outros, com armas de brinquedo é claro. No meu bairro do Bronx Sul, os membros de gangue mais velhos tinham armas reais e às vezes atiravam uns aos outros. Como nos filmes! Os desenhos que eu adorava quando criança eram carregados de violência, tal como os filmes de guerra de Hollywood que faziam propaganda para a guerra real contra Japão e Alemanha.

Quando James Holmes ceifou 12 e feriu quase 60 pessoas em um cinema no Colorado, senti violência fresca entrar no meu corpo como se uma massagista tivesse me lambuzado com hostilidade líquida antes de começar a massagem. Agressão penetrou meus poros, inundou meu cérebro e cobriu as células do meu coração. Enquanto os meios de comunicação informavam o número de rajadas disparadas, os tipos de armas possuídas pelo assassino e da anatomia do apartamento-armadilha tipo Holmes, o presidente Obama e o candidato Romney proferiam declarações brandas sobre a necessidade de oração, e consolo para as famílias das vítimas. Nem mencionaram o controle de armas ou a cultura da violência que define os Estados Unidos. Liberdade parece igual a posse de arma para a National Rifle Association e muitos de seus membros.

A violência, mais estadunidenses do que torta de maçã e beisebol, tornou-se uma questão social maior e um grave problema de saúde pública. Quase todos os dias alguém dispara e mata alguém em inúmeras áreas metropolitanas. Famílias sofrem, os policiais dizem que estão investigando e jornais e emissoras de TV fazem reportagens. Eu, igual a dezenas de milhões de pessoas, vejo as histórias de sangue na TV e facilmente caio no poço do fascínio dos desdobramentos e sequelas da violência. Mas a mídia não analisa ou procura temas subjacentes em atos horríveis como o de Aurora ou idênticos. Em vez disso, eles os usam para vender telejornais, jornais e conseguir anunciantes.

Na verdade, a mídia nos embebeda com a cultura da violência. Em filmes de Hollywood e da TV, a morte violenta se tornou a única fórmula para a retribuição adequada. Vilões de filmes sofrem fins hediondos – a justiça de cinema. A violência como a metáfora cultural bem se adapta a um país que durante décadas tem vivido em guerra perpétua, apoiada pelos donos da economia de guerra.

A carnificina de Aurora aconteceu depois dos massacres de Columbine High School, Virginia Tech, Fort Hood e no supermercado em Tucson, Arizona, e dos tiroteios mais recentes em Chicago e Tuscaloosa. Uma vez que este é um ano eleitoral, não ouvimos apelos generalizados para uma legislação que limite a venda de fuzis de assalto, nem ouvimos uma crítica justificável das políticas nefastas da ARN. Em vez disso, o público estadunidense viu-se inundado com números sobre violência armada que vão desde o fato de que mais de 84 pessoas são mortas diariamente com armas à estatística chocante de que existem mais de 30.000 mortes relacionadas com armas de fogo anualmente no nosso país. Compare o uso de armas para matar pessoas com Inglaterra. Em 2010, houve 8.775 assassinatos por armas de fogo nos EUA, em comparação com 58 na Grã-Bretanha. Assassinato em massa a tiros tornaram-se o tesouro amado de milhões de estadunidenses que abandonam políticas óbvias de seu próprio interesse diante de qualquer indício de que um político tem intenção de controlar a posse de armas. O ARN agora tem o Congresso e o presidente sob suas garras institucionais à medida que coleta de dólares de fabricas da armas e serve seu mingau sádico como evangelho cristão (Jesus teria tido um grande arsenal em sua casa) para a sociedade estadunidense comer. Mas a violência nos Estados Unidos transcende o controle de armas.

A violência define a cultura estadunidense. Ligue em desenhos infantis ou qualquer espetáculo de “drama” e veremos e ouviremos sons e imagens de agressão contra os outros. A política externa dos EUA defende a violência como solução para os problemas. Bombardeia Kosovo, a Líbia. Invade o Iraque ou agora a Síria. Quer bombardear o Irã. Os filmes de Hollywood, futebol e hóquei profissionais, jogos de vídeo – tudo força a exibição de violência para puxar o público para o seu principal meio de atração. A dominação masculina brutal tornou-se a estética estadunidense de “entretenimento.” A mídia vende a violência, da mesma forma como a linguagem da violência molda o discurso político. Em Hollywood, raramente um filme é levado aos cinemas sem a soco e o som de um punho batendo num rosto, uma bala rasgando através de um corpo ou um carro empurrando outro carro para fora da estrada. Nosso sistema prisional cresce cada vez mais, com os seus primos industriais, em paralelo à militarização das forças policiais locais. O presidente dirige o “comitê de assassinato no exterior”, a decidir quais pessoas serão hoje “droned”. Desde que invadimos e ocupamos outros países rotineiramente, nos acostumamos à guerra permanente, e nossos jovens conhecem armas e as usaram contra os outros no Oriente Médio. O sargento Robert Bales ceifou cerca de 15 afegãos, e supomos que foi em resultado de seus traumas de guerra. É mais fácil atribuir o stress de guerra como um motivo para assassinato em massa do que descobrir por que a cada dois meses alguém começa a atirar nos outros na rua, em um shopping ou um cinema.

A violência do Estado fica encoberta na legitimidade. Nós matamos pessoas para a nossa segurança por drones guiados a distância no Paquistão, no Iêmen e na Somália, enquanto continuamos a exercer a nossa vontade violenta no exterior. Na era da guerra perpétua, com assassinatos, um ataque às liberdades básicas e uso de drones para proteger nossa segurança, nós também sofremos luto nacional cada vez que um “maluco” mata “inocentes” civis – diferentes daqueles que morrem no exterior, como danos colaterais. A alta  na contagem de corpos dos Estados Unidos parece ocorrer como uma estatística paralela aos atos violentos executados no exterior. Soldados estadunidenses matam civis afegãos. “Equipes de matadores” dos EUA andam por lá e podemos nos perguntar por que alguma coisa dessa cultura de assassinato poderia se espalhar na volta para casa. Nosso orçamento militar literalmente liga o país à guerra e a uma economia de guerra.

A culpa pelo crime violento é descarregada sobre as minorias. Lemos diariamente sobre prisioneiros (principalmente homens negros) que recebem a pena de morte. Mas nada acontece às pessoas que projetam armas automáticas, a não ser que a recompensa por fazer um bom trabalho. Seus patrões, os magnatas culturais finais, criam violência para fins de lucro. Eles fornecem a inspiração para a cultura moderna dos EUA.

Agora vamos rezar, mas manter a arma pronta para uso no cinema, onde você pode precisar dela na próxima vez que alguém beber muito da nossa cultura da violência e decidir desempenhar o papel do palhaço durante uma exibição de Batman ou levar para as ruas a violência dos desenhos animados. 

Saul Landau é escritor e cineasta estadunidense, autor de 14 livros e mais de 50 filmes, escreve em jornais e revistas.


[i] Curiosamente, embora combatendo o espírito de violência dominante entre seus patrícios, o autor usa a palavra American (aliás, Unitedstatesian, ou equivalente, nem existe no seu idioma) para designar o que é estadunidense, endossando assim uma das primeiras e mais violentas manifestações dessa violência, que foi a de se apossarem eles virtualmente de todas as Américas – enquanto não o puderem fazer de fato – e assimilar Estados Unidos e América.