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Um comentário de Samuel Webb no site Communist Party USA enfocou por outro ângulo a crítica aos rumos do capitalismo que, dias atrás, Mirante comentou com o título acima, em primeira versão, a propósito do artigo What is to be done … now, em que Andrew Levine evoca o Que fazer?, de Lênin, e enfatiza a atualidade dessa “obra política clássica” na procura da saída para a situação crítica com que se defrontam hoje os Estados Unidos.

Sam Webb, com análise leninista mais afinada, descreve a irracionalidade do capitalismo, tornada cada dia mais ostensiva e perigosa pela crise, como decorrência da natureza de classe desse regime e, por consequência, reclamando solução revolucionária. Ver o artigo aqui e a tradução de Roberto Teixeira a seguir.

O capitalismo é um sistema irracional

O economista Paul Krugman, em seu novo livro – End the Depression Now! – e colunas de opinião recentes no New York Times expressam irritação com setores da elite política e econômica de ambos os lados do Atlântico sobre o modo como conduzem a economia.

Krugman diz que muitas pessoas nas alavancas do poder ou perto delas estão escolhendo políticas de austeridade que poderiam enviar o mundo a um atoleiro econômico muito profundo.

O que o deixa quase louco é que outras opções existem e poderiam facilmente ser perseguidas, se a vontade estivesse lá onde estão os tomadores de decisão altamente colocados. Tais escolhas incluem aumentar os gastos do governo, permitindo inflação modesta e crescimento econômico. Isto, diz Krugman, levantaria a economia global para fora da crise, inclusive trazendo a taxa de desemprego para abaixo de seus níveis atuais de depressão.

Mas, para sua consternação, a linguagem e a prática da austeridade afogam as vozes da razão e da recuperação econômica tanto aqui como na Europa.

Então a pergunta é: o que explica essa ligação aparentemente irracional de políticas que deixam os EUA e a Europa na estagnação e poderiam muito bem levar a ambos (e o mundo, nesse aspecto) a uma depressão profunda?

A resposta tem três partes, todas inter-relacionadas.

Primeiro, os defensores da austeridade nas altas esferas de decisão (os mais zelosos estão à direita na política – Merkel, na Alemanha, Cameron, no Reino Unido, e os republicanos, no Congresso dos EUA) estão atados a um argumento econômico errôneo. Ou seja, que é necessário apertar o cinto para conseguir a expansão econômica, pois isto aumenta a confiança dos investidores, alivia as pressões inflacionárias e impede que o capital público atropele o sagrado capital privado no mercado.

Mas esse argumento foi habilmente refutado em numerosas ocasiões por Krugman e muitos outros. E ele se comprovou terrivelmente falho nos países onde foi posto em prática.

Em segundo lugar, atrás de cada gestor político que defende a austeridade não está algum economista defunto, como John Maynard Keynes sugeriu um dia, mas estão, sim, poderosos interesses corporativos de classe e, especialmente, o capital financeiro.

Para esses interesses, uma recessão econômica prolongada, como a que estamos atravessando agora, é uma oportunidade, tanto quanto uma crise. Em ambos os lados do Atlântico, é um momento singular para o grande capital reorganizar radicalmente a seu favor as relações econômicas e de poder que foram incorporadas ao capitalismo avançado durante mais de meio século.

Cometeremos um erro se pensarmos que a camada superior do capital monopolista tem compromisso com uma recuperação robusta que levantasse todos os barcos para a reprodução do capitalismo em escala ampliada. É melhor que essa ficção seja deixada para a introdução de livros de economia.

A economia capitalista oscilando em torno de um baixo nível de atividade econômica não só é capaz de gerar lucros, mas também pode fortalecer o poder de barganha do capital contra o trabalho e o movimento popular. De fato, uma economia mundial caracterizada por excesso de capacidade, estagnação e intensificação da concorrência, proporciona condições ótimas para retroagir os direitos políticos e de negociação coletiva, assim como os benefícios conquistados num período anterior de desenvolvimento capitalista.

Finalmente, o capitalismo, não devemos esquecer, é um sistema irracional. Seu compromisso com a lógica estrutural de acumulação de capital e maximização do lucro faz com que seja assim. Este sempre foi o caso, mas tem força ainda maior nesta época de crise estrutural e destruição do meio ambiente em nível global. Não importa para onde nos voltamos, parece que o capitalismo está agressivamente indo atrás de políticas que não fazem sentido do ponto de vista da humanidade, da saúde econômica e da natureza.

O capitalismo precisa ser substituído.