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É sempre possível um imprevisto, por exemplo, que o governo dos EUA resolva “partir para a ignorância”, como diz a linguagem popular, e recorrer ao poderio nuclear que lhe dá possibilidade de destruir o mundo trinta vezes, como gostam de dizer os divulgadores militares. Mas, à exceção de uma alternativa colossal de terrorismo suicida como essa – improvável, mas não impossível –, segue acelerado o processo de falência de Washington no papel de centro mundial do poder, que focalizamos em matérias sucessivas com o título Deslocamento tectônico (ver aqui o 1, o 2 e o 3). O governo Obama, ou o que se apresenta como tal, mantém a fala e a pose arrogante de quem manda no mundo, mas o mundo está cada dia menos ligado ao que ele fala. Assistimos agora a outros lances importantes dessa descida, na trajetória do governo do Egito, sob o recém-eleito presidente Morsi, que escapa ao controle que os Estados Unidos exercem há décadas sobre esse país chave no Oriente Médio, e nas conversações que se desenvolvem entre governos de Arábia Saudita e Irã, para desconsolo de Washington. M. K. Bhadrakumar, com sarcasmo e lucidez, dedica ao tema dois comentários reproduzidos aqui e aqui, com a tradução dada por Vila Vudu a seguir.

Egito versus EUA

20/8/2012, M K Bhadrakumar, Asia Times Online
A pergunta mais imediata que se tem de fazer aqui é: o que os EUA teriam a ganhar, afinal, na conquista de Damasco, que perseguem com violência e bestialidade brutais, se já perderam Cairo e Bagdá?
A preocupação e o humor sombrio devem estar aumentando em Washington. O Egito afasta-se da aliança com os EUA – e a dura verdade é que já não é mais possível ocultar ou encobrir o movimento dos egípcios.

Não é exatamente o que Washington entendia como desenvolvimento do “lado certo da história”. No Egito, a ‘Primavera Árabe’ gerou estranho fruto – variante pura, bem diferente dos híbridos brotados na Tunísia, Líbia ou Iêmen.

Considere-se o seguinte. O presidente Barack Obama foi dos primeiros chefes de Estado a congratular-se com Mohammed Morsi, imediatamente depois de sua vitória nas urnas, em maio. Obama quebrou o protocolo e telefonou para dar parabéns ao novo presidente – e mostrou a ansiedade que acometia Washington, disposta a qualquer coisa para criar química esplêndida com o novo Egito.

Em seguida, Obama escreveu carta a Morsi e mandou o vice-secretário de Estado William Burns voar imediatamente ao Cairo, para entregá-la em mãos. Logo depois, lá se foi a secretária de Estado Hillary Clinton ao Cairo, também para audiência com Morsi. E adiante, também o secretário de Defesa Leon Panetta esteve no Cairo: tudo isso, no primeiro mês de Morsi na presidência.

Panetta retornou a Washington satisfeitíssimo, por a liderança militar egípcia, que sempre foi a âncora da estratégia regional dos EUA e zeladora dos interesses dos EUA no Egito, e Morsi, estarem não só se entendendo lindamente, mas, também, porque até já tinham agenda comum.

O resto é história. Em poucos dias ou semanas de otimismo de Panetta, Morsi, sem cerimônias, despachou os militares, que viviam nos corredores do poder político, de volta aos quartéis. Washington não teve escolha além de fazer cara de que não era com ela, detendo-se um passo antes de divulgar a notícia-barriga de que Morsi teria consultado o governo Obama antes de endurecer, de vez, com os militares egípcios.

Até que, no final da semana, a história chegou ao mundo. Os EUA bem podem estar enfrentando pesadíssimo golpe contra seus robustos esforços para influenciar o governo de Morsi. A carta de que Burns foi portador há um mês, ao que se suspeita, continha convite de Obama para que Morsi o visitasse em Washington.

E Morsi viajará. Mas na direção de China e Irã.

O anúncio apareceu na página oficial da presidência do Egito na internet, no domingo. Tudo indica que Morsi está encadeando duas visitas: à China e ao Irã. Que fará visita oficial à China, a partir da 2ª-feira, atendendo a convite do presidente Hu Jintao. E que, de Pequim, parece interessado a viajar a Teerã, na 5ª-feira, para participar da reunião dos países do Movimento dos Não Alinhados.

Pequim ainda não anunciou a visita de Morsi. O jornal estatal chinês China Daily, de fato, publicou comentário na 2ª-feira, intitulado “Visita de Morsi ao Irã pode reformatar a paisagem política” – sem qualquer referência à possibilidade de o presidente egípcio incluir Pequim no roteiro.

Mas Al-Ahram, importante jornal egípcio, noticiou que Morsi e Hu “planejam discutir questões cruciais do mundo árabe, como a situação da Síria e a questão palestina. Os dois presidentes também discutirão modos de ampliar o intercâmbio comercial entre seus respectivos países, além de aumento dos investimentos chineses no Egito.”

Al-Ahram resumiu: “As duas visitas podem assinalar mudanças na política exterior do Egito, dado que esses dois países [China e Irã] vivem momento de relações tensas com os EUA, país do qual o Egito sempre foi leal aliado, sobretudo durante o governo do deposto presidente Hosni Mubarak.”

Nem poodle, nem pau-mandado

Fato é que o Oriente Médio parece estar despertando para a evidência de que os americanos foram mandados dormir na casa do cachorro, no Cairo. Sem dúvida, é decisão que parece carregar a marca da Fraternidade Muçulmana. Que planos terão em mente os Irmãos?

Primeiro, os Irmãos sabem que esse movimento cairá extremamente bem, em boa harmonia com o estado de espírito da rua egípcia, que veementemente demanda nova orientação para a política exterior, que despache para a estratosfera a parceria dos anos Mubarak com os EUA e Israel, e o retorno a uma política externa egípcia independente.

Segundo, Morsi não quer depender excessivamente dos empréstimos do Fundo Monetário Internacional e/ou dos ricos estados do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), empréstimos que está sendo fortemente pressionado a aceitar e os quais, como todos sabem, sempre vêm acompanhados de pesados encargos políticos.

O Fundo Monetário Internacional está impondo termos duros, para conceder um empréstimo de US$3,2 bilhões ao Egito. O Banco de Desenvolvimento Islâmico, com sede em Jeddah, concedeu financiamentos ao Egito que montam a $2,5 bilhões. O Qatar está depositando $2 bilhões no Banco Central do Egito, destinado a aliviar a falta de reservas do país. Ano passado, em maio, a Arábia Saudita anunciou ajuda ao Egito no total de $4 bilhões em “empréstimos baratos, depósitos e avais.” Estava em pleno curso uma guerra, comandada pelos EUA, para subornar a alma do Egito.

Muito razoavelmente, Morsi vê a China como investidor potencial na economia egípcia, porque Pequim não inclui cláusulas políticas na cooperação econômica e, em termos gerais, joga pelas regras do mercado, afinada com as políticas neoliberais que Morsi estaria trabalhando para construir. A questão é que os Irmãos sabem muito bem que os países do CCG – Bahrain, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita – mas muito especialmente a Arábia Saudita, veem os movimentos políticos dos Irmãos como incômodo intrínseco e como ameaça existencial contra os seus respectivos regimes autoritários. A Arábia Saudita, sobretudo, sempre teve relação tumultuada com a Fraternidade Muçulmana.

O falecido Príncipe Coroado Nayef usou métodos de extrema brutalidade para reprimir as atividades da Fraternidade na Arábia Saudita. Recentemente, no sábado, o jornal do establishment saudita Asharq Al-Awasat dava renovados sinais da antipatia que Morsi inspira aos sauditas, em coluna assinada pelo editor-chefe, Osman Mirghani, na qual se lia:

O golpe que Mursi assestou [contra os militares], que lhe permitiu assenhorear-se do poder, foi repentino e não previsto, não só pelo alto comando do SCAF, mas tampouco foi previsto pelo próprio povo egípcio (…) São gestos que se aproximam perigosamente de um golpe de estado (…). A Fraternidade Muçulmana tentou dominar toda a arena política, depois que sequestrou a revolução e empurrou a onda revolucionária para longe do governo, e sem que se possa esquecer que só bem tardiamente se engajaram na revolução egípcia (…). A Fraternidade sempre buscou minar a influência de outros partidos e, para o mesmo objetivo, recusou-se a cooperar ou coordenar ações com outros partidos também durante o período de transição que antecedeu as eleições.

O Egito é hoje governado por declarações e decisões ‘constitucionais’ lançadas por um presidente que tem muito mais poderes do que Mubarak algum dia teve (…) Se há quem diga que Mursi (…) libertou-se e libertou a presidência da custódia e da intervenção do exército, então a pergunta mais imediata que se tem de fazer aqui é: será que Mursi algum dia se libertará da Fraternidade, que parece presente em todas as suas decisões e medidas?”

É útil ter em mente que esse agudo criticismo apareceu um mês depois da visita de Morsi a Riad, a convite do rei Abdullah e dois dias depois da reunião extraordinária da Organização da Conferência Islâmica [Organization of Islamic Conference, OIC] em Jeddah, à qual Morsi compareceu.

A narrativa foi que Morsi, em sua fala à reunião da OIC pediu “mudança de regime” na Síria – o que implicaria que o Egito seria fiel seguidor de campo da linha definida por Arábia Saudita, Qatar e Turquia. A verdade é que Morsi ignorou a troika e propôs que a solução para a Síria fosse buscada por um Grupo de Contato formado de Arábia Saudita, Turquia, Irã e Egito, grupo que mediaria um diálogo sírio e a reconciliação com vistas a construir transição política pacífica, em atmosfera livre de violência.

Apertos de mão e beijos 

Claro: a inclusão do Irã no Grupo de Contato que Morsi propôs foi afronta à Arábia Saudita, que hospedava a reunião da OIC. E houve também a linguagem corporal, que sempre conta muito nas reuniões intra-árabes. Às margens da conferência, Morsi trocou apertos de mão e beijos com o presidente Mahmud Ahmadinejad do Irã e falou-lhe com visíveis manifestações de consideração e afeto.

Teerã imediatamente acolheu a proposta de Morsi, movimento que, por sua vez, conquistou simpatias na Fraternidade no Cairo, que viu, na calorosa resposta de Teerã confirmação segura de que o Egito começa a reconquistar pelo menos parte do prestígio diplomático e estratégico de que gozou na região, no passado. Formou-se uma espécie de parceria de mútua admiração entre o Cairo e Teerã, que atravessou os áridos desertos da Península Arábica.

Da performance de Morsi na reunião da OIC, três coisas emergiram. Primeiro, Morsi sinalizou que o Egito pretende seguir política externa independente em relação às agendas do ocidente e dos países do Golfo do petróleo. Significa dizer que o Egito não mais seguirá humildemente os passos que lhe indiquem nem aceitará posição subalterna.

Segundo, o Egito não está vendo a Turquia como exemplo a ser seguido, apesar dos altos decibéis da propaganda ocidental que, desde a Primavera Árabe, tenta fazer crer que o islamismo do tipo que hoje se vê no governo de Recep Tayyip Erdogan seria o que o médico receitaria para todo o Oriente Médio. Erdogan voltou de uma visita ao Cairo, ano passado, certo que fora consagrado como uma espécie de rock star ídolo dos egípcios. Aparentemente Morsi não se alinha entre seus fãs.

Terceiro, a decisão de Morsi, de incluir o Irã como parceiro na busca da paz para a Síria implica rejeitar completamente a abordagem ocidental e turco-saudita. Nos corredores da conferência da OIC, o ministro de relações exteriores do Egito Mohammed Amr também se encontrou com o ministro iraniano, Al Akbar Salehi, e disse-lhe que Teerã deve, sim, ajudar a resolver a crise síria.

Sim, todos esses movimentos são iniciais, mas a decisão de Morsi visitar o Irã (país com o qual o Egito não tem relações diplomáticas) só pode ser interpretada como movimento estratégico de consequências profundas para a segurança regional e a política global. Não pode passar sem qualquer consideração ou explicação.

Por um lado, o Irã é o primeiro país muçulmano, depois da Arábia Saudita, que Morsi visitará no Oriente Médio. A rua árabe saberá ver que os Irmãos do Egito rejeitam a ideia (difundida pelo ocidente e pela Arábia Saudita) segundo a qual um “Crescente Xiita” liderado pelo Irã seria ameaça às comunidades sunitas no Oriente Médio muçulmano

Muito visivelmente, o Egito planeja normalizar suas relações com o Irã, já bem distanciado do Egito de Mubarak e de seus medos maniqueístas de ‘golpes’ iranianos para desestabilizar o país. As coisas mudaram. O vide-líder da Fraternidade, Mahmoud Ezzat, disse recentemente à Associated Press: “O velho regime costumava converter em fantasmas os seu [de Mubarak] rivais. Nós [a Fraternidade] não queremos fazer como Mubarak e não exageramos o perigo que o Irã representaria”.

Do ponto de vista de Teerã, tudo isso é importante abertura diplomática e geopolítica em momento difícil, quando as conversações chegaram a um impasse no grupo P5+1-Irã. Posto em versão simplificada, as equações no Oriente Médio foram, de repente, libertadas, entraram em fluxo.

Tudo havia sido pensado para ser uma continha simples: “o campo de Teerã” (Irã, Síria, Hizbollah e Hamás) versus “o campo dos EUA” (Arábia Saudita, Israel, Turquia e Qatar). Mas Morsi, sem fazer alarde, está cruzando a barreira geopolítica.

Pode estar a caminho uma forte sacudida na política regional? No mínimo, o caleidoscópio girou e, de repente, vê-se que as situações na Síria, no Líbano ou em Gaza podem começar a eivar-se no novas possibilidades. (Por falar nisso, Morsi deixou bem claro, na conferência da OIC, que qualquer atenção que se desse à crise síria de modo algum desviaria a atenção do problema palestino – questão sempre crucial para o mundo muçulmano.)

A grande pergunta é: o que move a Fraternidade egípcia? A interpretação convencional diz que os Irmãos são gente cautelosa; operam devagar e não se apressarão na tarefa de refazer o cálculo do poder no Cairo nem, menos ainda, na remodelagem da política externa do Egito. Mas é visível que, em oito dias, começou a emergir um retrato diferente dos Irmãos. Como explicar a mudança?

Não há retorno possível à era Mubarak

Visto em retrospecto, o movimento de Morsi contra os militares há uma semana foi golpe preventivo. Os Irmãos avaliaram que, no mínimo, surfariam a onda das altas expectativas da opinião pública, que quer ver mudanças fundamentais nas políticas nacionais; e que qualquer adiamento ou procrastinação na ação resultaria em os militares concentrarem cada vez mais poder, até virarem a mesa, em termos políticos, e esvaziarem a presidência de Morsi.

Simultaneamente, os Irmãos não confiam no papel dos EUA e em suas intenções reais ante a liderança de Morsi. Vale lembrar que a Fraternidade (e o Hamás) acusaram declarada e abertamente o Mossad israelense de ser responsável pelo ataque terrorista no Sinai dia 5/8.

Não se sabe exatamente o que levou os Irmãos àquela conclusão, mas o Sinai é terra sem lei há décadas, e é inconcebível que a inteligência israelense não conheça os grupos de militantes islamistas ativos ali. De fato, ninguém sabe o que realmente aconteceu dia 5/8, e absolutamente ninguém que conheça a região acreditará que os beduínos teriam meios para organizar operação tão altamente profissional.

E há outra coisa também chocante. O ataque terrorista no Sinai aconteceu logo depois de Morsi reunir-se com os líderes do Hamás no Cairo, reunião depois da qual foi decidido reduzir parcialmente as restrições na passagem de Rafah (o que, claro, foi como furar o “bloqueio” de Israel contra Gaza).

Seja como for, o ataque no Sinai aconteceu quando os EUA aumentavam a pressão sobre Morsi para que ressuscitasse os laços militares e de segurança da era Mubarak entre Cairo, Washington e Telavive. Ambos, Clinton e Panetta, muito se empenharam para convencer Morsi a reencarnar o espírito da cooperação tripartite de segurança, EUA-Egito-Israel, no Sinai.

Os Irmãos não deixariam de ver que essa volta às políticas da era Mubarak seria muito mal recebida pelo público egípcio – tanto os islâmicos como os “secularistas” –, o que desacreditaria a Fraternidade e corroeria a credibilidade da presidência de Morsi; que, em suma, seria suicídio político. Os Irmãos tampouco deixariam de ver que qualquer configuração das estratégias regionais do Egito cujo lócus se mantivesse no terrorismo, fecharia no nascedouro qualquer possibilidade de repensar criativamente a questão de Gaza.

Em resumo, a decisão de Morsi de abrir uma linha para Pequim e Teerã deve ser analisada sobre pano de fundo grande, amplo. Os Irmãos perceberam a tempo que havia um plano de EUA-Israel para desestabilizar o governo de Morsi, se não se alinhasse ao diktat de Washington. A partir disso, se puseram a procurar meios e modos para reduzir o atual nível de superdependência do Egito em relação aos EUA e seus aliados no Golfo; para tanto, tentam diversificar as relações externas do país e somar parceiros de peso que possam ajudar na construção da autonomia estratégica do Egito.

As próximas semanas prometem ser momento de definição na política do Oriente Médio, com realinhamentos interárabes, com a viagem de Morsi a Pequim e Teerã. Com o Egito distanciando-se, as estratégias dos EUA na região espatifam-se. A pergunta mais imediata que se tem de fazer aqui é: o que os EUA teriam a ganhar, afinal, na conquista de Damasco, que perseguem com violência e bestialidade brutais, se já perderam Cairo e Bagdá?

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O aceno dos sauditas na direção do Irã 
18/8/2012, M K Bhadrakumar, Asia Times Online

A narrativa não poderia ser mais simples – a Arábia Saudita levou sua guerra fria com o Irã, que tem sido combatida na água, no ar e nas colinas do Oriente Médio, para a grande arena da Ummah [comunidade, nação] muçulmana. E, nessa virada do jogo, o Irã mais perdeu que ganhou.

Mas a reunião de cúpula da Organização de Cooperação Muçulmana [ing. Organization of Islamic Cooperation (OIC)] em Meca, essa semana, tinha subtexto sutil, e quem conheça a política muçulmana sabe que, em ocasiões como aquela, os subtextos são invariavelmente mais significativos que a narrativa manifesta.

A narrativa é que a Síria foi banida do mundo sunita e o Irã nada conseguiu fazer para impedir que acontecesse. A notícia foi estampada em toda a imprensa ocidental. Washington chegou a manifestar satisfação por aquele “forte sinal” ter sido ouvido em Damasco.

Decisão maculada

Mas teria sido a Síria a verdadeira questão central da reunião da OIC? Mais parece que a crise síria apenas ofereceu a vitrine na qual se tornou possível expor, bem visíveis, onde todos os vejam, outros determinados subtextos.

Ninguém suponha que alguma opinião majoritária dentro da OIC e refletida na decisão de suspender o status da Síria como membro da organização venha a influenciar o futuro daquele país. No máximo, a reunião envia um sinal à Síria. Mas a Síria recebe sinais de todos os lados, de perto e de longe, e a questão absolutamente não é essa. Fato é que a OIC é conhecida como organização regional notoriamente inefetiva. Consumiu décadas fulminando a Índia a propósito da questão da Cachemira e até constituiu um Grupo de Contato sobre o tema – com Turquia e Arábia Saudita à frente. New Delhi decidiu ignorar o movimento. Hoje, já ninguém sabe se morreu ou se ainda existe.

Regime resistente como o de Damasco com certeza sabe que a OIC é organização que ladra mas não morde, que a Arábia Saudita sempre desejou comandar. Por ironia, a Síria costumava aconselhar New Delhi a não perder o sono por causa do Grupo de Contato ISI.

O xis da questão é que a crise síria já transcendeu o paradigma saudita-iraniano e metamorfoseou-se em luta de vale-tudo da primeira classe, em que potências exteriores disputam a hegemonia regional – e as disputantes mais poderosas não são sequer países muçulmanos. Não é do interesse dos protagonistas realmente poderosos em disputa – EUA, Europa, Rússia, China – dar a impressão de que sua política de segurança resume-se a  apoiar sunitas ou xiitas no Oriente Médio.

As potências ocidentais relutam em intervir na Síria, e a via diplomática estreitou-se muito; Rússia e China cuidam de tocar a vida, depois de, por duas vezes, terem cruzado a “linha vermelha” no Conselho de Segurança da ONU; e EUA e Turquia foram deixados sós, enfrentando, sozinhos, a difícil questão de como proceder para por fim à violência, depois de a diplomacia ter fracassado e de o regime de Bashar al-Assad não se ter deixado destruir, apesar do muitos ferimentos que lhe foram infligidos – e eis o que é, em resumo, a atual situação na Síria.

Em termos bem simples, a OIC absolutamente não tem função alguma nesses eventos. De fato, se teve alguma, deixou de ter na 4ª-feira, depois da decisão maculada que foi tomada em Meca, de traçar pontes que cheguem a Damasco – em vez de, com um pouco de imaginação, construir para a OIC uma posição de facilitator-cum-mediator em algum momento oportuno, no futuro.

Assim sendo, por que a Arábia Saudita inventou essa tão pouco oportuna iniciativa de organizar reunião extraordinária da OIC? O objetivo central da iniciativa dos sauditas foi mostrar uma frente unida contra o sectarismo no mundo muçulmano. Teerã entendeu logo, o que explica que tenham decidido participar da reunião em Mecca, apesar de praticamente não haver dúvidas de que dali sairia, fosse qual fosse, algum tipo de censura ao regime sírio.

Por sua vez, o Irã também fez a necessária figura que a ocasião exigia, ao dar resposta adequada, no nível do ministro de Relações Exteriores, à decisão da OIC de suspender a Síria.

Em Meca, o ministro iraniano de Relações Exteriores Ali Akbar Salehi disse: “A Síria deveria ter sido convidada ao encontro para defender-se e também para que os presentes ouvissem seu ponto de vista oficial”. Explicou que Teerã manifestara-se contra a decisão da OIC, porque “é decisão contrária à própria Carta da OIC”. E Salehi acrescentou: “Em nossa opinião, é mais lógico [que a suspensão e] nós devemos procurar um mecanismo para sair da crise síria com oposição e governo dedicados a conversar para criar condições favoráveis” a por fim à crise.

Redesenhar as regras do jogo

Em segundo lugar, os desenvolvimentos na Síria estão firmemente trazendo o sectarismo religioso para campo aberto, de um modo que não interessa a nenhum dos grandes protagonistas regionais – Arábia Saudita, Irã, Qatar ou Turquia – dado que praticamente todos eles são tão vulneráveis aos efeitos colaterais de qualquer aprofundamento das diferenças sectárias quanto a Síria hoje.

Quase 20% da população saudita são xiitas, mais de 35% no Kuwait e quase 70% no Bahrain. Os alawitas são minoria com longa história de perseguição e constituem 20% da população da Turquia (além dos curdos precariamente integrados, que são outros 20%). De fato, também no Irã há uma não desprezível minoria sunita.

Em terceiro lugar, não importa o que aconteça em campo, os sunitas desempenharão doravante papel muito mais influente na vida política síria do que antes, o que, outra vez, significa que nenhum dos protagonistas regionais tem o que ganhar com qualquer escalada nas tensões religiosas. E os efeitos das tensões religiosas com certeza serão muito graves. Já há sinais visíveis de que as províncias do leste da Arábia Saudita, onde predominam os xiitas, estão em ebulição. É desafio formidável para a família real, tanto em termos geográficos como econômicos.

Na 4ª-feira, quando a OIC começava sua reunião em Jeddah, viram-se sinais preocupantes no Líbano, onde o clã Meqdad, xiita, sequestrou mais de 20 sírios, em ação de retaliação contra o sequestro de um dos seus, pelo chamado ‘Exército Sírio Livre’. O clã Meqdad ameaçou que “a bola de neve crescerá” e os alvos serão cidadãos sauditas, qataris e turcos.

A Arábia Saudita alertou seus cidadãos para que deixassem imediatamente o Líbano. E os Emirados Árabes Unidos e o Qatar tomaram idêntica providência. Há relatos de dúzias de sírios sequestrados em Beirute na 4ª-feira, e de pistoleiros controlando ruas do subúrbio xiita em Tiro, na parte sul da cidade.

Quer dizer: embora a iniciativa da reunião da OIC talvez não tenha impacto direto nos desenvolvimentos na Síria no curto prazo, a iniciativa levou em consideração o desafio existencial que se cria com o aumento das tensões religiosas e adotou abordagem que, no longo prazo, visa a conter os vários pontos políticos potencialmente inflamáveis na região, impedindo que assumam traços excessivamente sectários.

Em suma, o ataque que resultou da reunião da OIC contra a Síria pouco significa, em termos de consequências, além do significado simbólico. Não cabia esperar que dali os sauditas e os iranianos saíssem aliados, grupos opostos cujas diferenças resultam do choque de interesses nacionais. Mas o objetivo da reunião da OIC pode bem ter sido alcançado, a saber: redesenhar as regras do jogo na Síria e “secularizar” as diferenças e conflitos políticos.

Até que ponto a mensagem da OIC influenciará os militantes linha dura só o tempo dirá, mas o rei Abdullah sem dúvida fez importante gesto de conciliação na direção do presidente Mahmud Ahmadinejad, ao mantê-lo a seu lado, na solenidade de recepção aos líderes que chegavam para a reunião.

Como noticiou a agência Reuters: “Ahmadinejad, trajando o terno escuro e a camisa sem gravata que os líderes iranianos preferem, estava sentado à mão esquerda do rei, no traje árabe tradicional. Os dois foram mostrados conversando e, algumas vezes, rindo juntos.”

É quanto o “subtexto” deixa-se ver como a narrativa real. Avalie-se pelo ângulo que for, o gesto na direção de Ahmadinejad foi uma abertura que o rei saudita fez ao Irã, não importa o que aconteça na Síria (ou por causa da Síria) no próximo período: “Nós dois somos muçulmanos.”

Curiosamente, uma reunião prevista para ser palco de disputa potencialmente gigante entre Arábia Saudita e Irã concluiu com a aprovação da proposta do rei Abdullah, de organizar um centro em Riad, para encontro e diálogo entre as diferentes seitas muçulmanas. Fica-se tentado a supor que a OIC, afinal, tenha entendido a que veio.