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Nessa série de matérias que intitulamos “deslocamento tectônico” [1, 2, 3, 4] ao descrever o atual processo de perda de hegemonia dos Estados Unidos nas decisões mundiais, para ganho em contrapartida de China, Rússia e outros países dos BRICS, assim como do Irã e outras nações de África e Ásia, agora entramos numa etapa de plena exposição. Abriu-se em Teerã neste domingo, 26, a Conferência dos Países Não Alinhados, com a participação de chefes de Estado e altos representantes de 120 países. Como notou um observador, ali está verdadeiramente representada a comunidade internacional, uma vez que lá se apresentam os países mais populosos e todos os continentes da Terra: praticamente toda a América do Sul e Central, a África, a Ásia. Só lá não está a OTAN, cujos integrantes são habitualmente batizados de comunidade internacional pela mídia corporativa (presstitute).  A semana promete notícias de alta relevância em resultado das negociações e comunicados da conferência. A agência chinesa oficial Xinhuá deu do acontecimento uma nota significativa, pelo próprio conteúdo e pelo fato de expressar o ponto de vista do governo chinês. O original está aqui e a tradução divulgada por Vila Vudu a seguir.

Três temas a destacar na Conferência dos Não Alinhados
27/8/2012, Du Yuanjiang, Yang Shuyi, Zhu Xiaolong, Xinhuanet, Pequim

TEERÃ, 26/8 – A 16ª Conferência de chefes de estado ou governo dos países do Movimento dos Não Alinhados (MNA) acontecerá dias 30-31 de agosto em Teerã. São esperados governantes e altos funcionários de mais de 100 países.

Antes da Conferência, haverá encontro de ministros dos países membros do MNA, logo depois de um dia de discussões entre especialistas convidados, que aconteceu no domingo.

Esse ano, a Conferência dos Não Alinhados acontece contra o pano de fundo de vários levantes na Ásia Ocidental e no Norte da África.

Para os analistas, além das questões já tradicionais, como direitos humanos, combate ao terrorismo, desarmamento das Armas de Destruição em Massa, a questão palestina e reformas na estrutura da ONU, três outras questões serão objeto de atenção concentrada, no entorno da Conferência.

A crise na Síria

Os analistas preveem que, com a crise na Síria ainda sem solução à vista, o Irã, aliado muito próximo dos sírios, tentará usar o fato de hospedar essa rodada da Conferência do MNA para obter apoio para o governo sírio.

O secretário de Segurança Nacional e Relações Exteriores do Parlamento iraniano, Alaeddin Boroujerdi disse no domingo que o Irã opõe-se a qualquer intervenção externa na Síria, destacando que a Conferência do MNA em Teerã visa a criar um modo de ajudar a resolver a crise síria, que já dura 18 meses.

No sábado, o porta-voz do ministro de Relações Exteriores do Irã Ramin Mehmanparast disse que o Irã apresentará proposta “extensa e compreensiva” para o fim da crise síria, e que a proposta iraniana seria discutida no entorno da 16ª Conferência dos Não Alinhados.

Na quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Irã Ali-Akbar Salehi já anunciara a proposta de Teerã, dizendo que seria “aceitável e racional”.

A posição do Irã é que todos devem recuar, evitar qualquer violência e tentar construir algum tipo de solução de convivência entre os vários partidos políticos na Síria – disse em recente entrevista à rede Xinhua o Dr. Sadeq Zibakalam, professor de ciência política na Universidade de Teerã. “O Irã sabe que, se Bashar al-Assad for deposto, aumentarão as pressões sobre o Irã” – disse o professor Zibakalam.

A questão nuclear iraniana

Recentemente, altos funcionários israelenses ameaçaram com ataque militar de Israel às instalações nucleares iranianas. A ameaça foi respondida com firmeza pelo Irã, que disse que o país retaliaria com plena força, se fosse atacado. O ministro da Defesa do Irã, brigadeiro-general Ahmad Vahidi disse, dia 22 de agosto, que, se atacado por exército estrangeiro, o país defenderia a própria soberania e a integridade de seu território.

Já há anos, o Irã opera para obter apoio internacional para seu programa nuclear. Durante essa rodada da Conferência, outra vez tentará obter apoio do maior número possível de países para sua posição relativa à questão nuclear – contra sanções e ameaças militares e apoio ao diálogo e à negociação –, de modo a conter a crescente pressão ocidental.

O Irã tentará usar a reunião dos Não Alinhados, para obter que pelo menos alguns dos participantes manifestem apoio à busca de solução negociada e de diálogo, disse o professor Zibakalam. “O Irã tentará usar essa oportunidade para tentar obter alguma espécie de contrapeso à pressão que virá especialmente dos EUA” – acrescentou.

Relações Irã-Egito

Há notícias de que o presidente do Egito Mohamed Morsi visitará Teerã durante a reunião dos Não Alinhados, para entregar a presidência rotativa do grupo ao Irã. É visita significativa, se se considera que os dois países romperam relações diplomáticas há mais de trinta anos.

Egito e Irã romperam relações diplomáticas depois da Revolução Popular Islâmica de 1979, quando o Egito deu asilo no Cairo ao deposto Xá Pahlavi e assinou tratado de paz com Israel. Há dois anos, funcionários dos dois países fizeram comentários considerados “de boa vontade” sobre laços bilaterais, e há rumores de que é possível uma normalização das relações. Desde a posse de Morsi, esse ano, têm-se renovado sinais, dos dois lados, de que há interesse nessa direção.

Há anos o Irã vem expandindo sua influência na região, e o Egito ocupa posição muito importante no mundo árabe. Para muitos especialistas, o aquecimento de relações bilaterais entre os dois países afetará significativamente a estrutura geopolítica da região. Por isso, tudo que Morsi diga ou faça, ou se participará de reuniões com representantes do Irã enquanto acontece a 16ª Conferência dos Não Alinhados, será objeto de observação atenta.

Para o professor Zibakalam, “do ponto de vista dos líderes iranianos, não há motivo que impeça o pleno restabelecimento de relações diplomáticas com o Egito, depois da posse do novo governo egípcio.”