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Foto N.Y.Times – Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, o presidente Ahmadinejad, do Irã, com dois auxiliares, e o presidente Morsi, do Egito – que se apronta para falar -, na Conferência de Teerã.

Vai finalmente a pleno vapor a Conferência de Teerã. Falou o anfitrião, líder supremo Aiatolá Ali Khamenei, num discurso denso, de conclamação à paz e à cooperação internacional, sem deixar entretanto que saíssem de sua mira os governos de Estados Unidos e Israel, responsáveis por muitas e graves agressões contra o Irã. Falaram o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e o presidente do Egito, cuja mera presença ali já desagradava a Washington, da qual ambos são devedores. Por isso mesmo, suas intervenções vieram com pinceladas para afagar os Estados Unidos, especialmente na forma de referências desairosas ao governo da Síria – apenas o suficiente para que o New York Times pudesse por no título de sua matéria sobre o conclave que a reunião foi “perturbada por repreensões à Síria” –, mas eles mantiveram por rumo central buscar saídas de transição pacífica na região, sem obedecer a diretrizes das potências ocidentais. O recém-eleito presidente egípcio destacou-se em manobras que visam repor seu país no centro político da região e mudar o panorama estratégico dela. Pepe Escobar, no AsiaTimes, desenvolve uma análise ampla e atenta às muitos variantes da situação. O original aqui e a tradução oferecida por VilaVudu a seguir.

Morsi entrega seu cartão de visita
31/8/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online

É melhor você não fazer graçinhas com o Irmão Muçulmano Morsi. 

Chegado diretamente da China “comunista” – onde foi recebido com tapete vermelho pelo presidente Hu Jintao e pelo vice-presidente Xi Jinping – Morsi do Egito aterrissou em terras do “Irã-do-mal” como verdadeiro líder do mundo árabe. [1]
Imagine uma pesquisa feita em Tampa, Florida, com delegados da Convenção Republicana bajuladores do sinistro duo Mitt Romney-Paul Ryan, candidatos. As chances são de Morsi ficar abaixo de Hitler, nas preferências (Oh, não… abaixo de Hitler já está Saddam. Talvez Osama. Ou, quem sabe, Ahmadinejad…).

De Tampa para Teerã. A mais recente foto instantânea da atual divisão geopolítica. De um lado, a massa dos 1% clamando por sangue, seja sangue de Barack Obama ou de muçulmanos variados. De outro lado, o grosso da verdadeira “comunidade internacional”, praticamente todo o Sul Global (incluindo observadores como China, Brasil, Argentina e México) que se recusa a curvar-se ante os diktats imperiais militares/financeiros. Reafirmando suas impecáveis credenciais jornalísticas, a imprensa-empresa dos EUA torce a boca e desqualifica tudo: não passa de “baboseira terceiro-mundista”.

Seja como for, a notícia é que o Egito voltou. A segunda notícia é que o eixo Washington-Telavive está apoplético.

É possível que Morsi pareça estar, como o egípcio do provérbio na imaginação popular, andando de lado. De fato, não para de avançar, nem por um segundo. A essa altura, já é evidente que a nova política externa do Egito está focada em repor o Egito, historicamente o centro intelectual do mundo árabe, na posição de liderança que lhe compete – e que foi usurpada pelos bárbaros sauditas milionários do petróleo, nas décadas durante as quais o Egito não passou de servil lava-penicos dos desígnios geopolíticos de Washington.

Longe vão (bem longe) os dias – mais de 30 anos! – quando Teerã rompeu relações com o Cairo, quando o Egito assinou os acordos [com Israel] de Camp David. O fato de Morsi ter ido à Conferência dos Não Alinhados em Teerã pode não indicar reatamento pleno de relações diplomáticas, como tem explicado o porta-voz de Morsi, Yasser Ali. Mas é golpe diplomático com magnitude de terremoto.

Começa o novo grande jogo 

É indispensável uma rápida recapitulação. A primeira viagem crucial de Morsi presidente foi à Arábia Saudita, para a reunião da Organização da Conferência Islâmica (OCI), em Meca. A Casa de Saud olha a Fraternidade Muçulmana com extrema desconfiança, para dizer o mínimo. Imediatamente depois, Morsi recebeu visita pessoal do Emir do Qatar, que levava um cheque de US$2 bilhões, sem cláusulas de reciprocidade. E Morsi, na sequência, mandou passear o velho líder do orwelliano Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA).

No entretempo, Morsi já havia lançado o plano egípcio para por fim à interminável tragédia síria: um grupo de contato em que se reúnam Egito, Irã, Turquia e Arábia Saudita. Nenhuma solução síria será jamais alcançada sem esses atores chave estrangeiros – com o Egito tendo tomado o cuidado de se autoinstalar como mediador entre os interesses de Irã e de Turquia/sauditas (que são praticamente os mesmos: em 2008, a Turquia firmou acordo estratégico, político, econômico e de segurança com o CCG).

Num único movimento, Morsi cortou a cabeça da falsa serpente que há anos era vendida a Washington pelo rei de brinquedo da Jordânia e pela Casa de Saud, segundo os quais um “Crescente Xiita do Mal”, que iria do Irã ao Líbano via Iraque e Síria, estaria minando a “estabilidade” do Oriente Médio.

O que o rei Abdullah da Arábia Saudita e o Abdullah mais jovem da Jordânia temem, de verdade, é a agitação e a fúria de suas próprias populações (para não citar, nem de longe, qualquer ideia de democracia). Então, é hora de culpar o xiismo rampante por tudo que aconteça, dado que Washington é suficientemente otária – ou esperta – para comprar a tese.

O mito do “Crescente Xiita” pode ser desmascarado de vários modos. Eis um deles – em cena de que fui testemunha ocular, ao vivo, por bom tempo, em meados dos anos 2000. Teerã sabe que a maioria do poderoso clericato iraquiano é totalmente contrária ao conceito Khomeinista de República Islâmica. Não surpreende que Teerã ande tão preocupada com o renascimento de Najaf, no Iraque, como principal cidade santa do Islã Xiita, em detrimento de Qom, no Irã.

Washington compra essa propaganda porque está bem exatamente no coração do Novo Grande Jogo. Seja qual for o governo de plantão, de Bush a Obama, e adiante, uma obsessão chave de Washington é neutralizar o que é visto como um eixo xiita do Líbano, via Síria e Iraque, passando pelo Irã e direto até o Afeganistão.

Mera espiada no mapa diz-nos que esse eixo está no centro do vastíssimo deslocamento militar dos EUA na Ásia – de frente para China e Rússia. Obviamente, a melhor inteligência em Pequim e Moscou já o identificou há anos.

Russos e chineses veem como o Pentágono “administra” – indiretamente – grande parte das reservas de petróleo da região, incluindo o nordeste xiita da Arábia Saudita. E veem como o Irã – centro de gravidade de toda a região – só pode ser a absoluta obsessão de Washington. A conversa ‘nuclear’ não passa de pretexto, de fato o único disponível no mercado. Em síntese, não é questão de destruir o Irã, mas de subjugá-lo e reduzi-lo à condição de aliado dócil.

Nesse jogo barra pesadíssima de poder, entra o Irmão Morsi, jogando uma mão de cartas com a rapidez fulminante de um crupiê empregado, em Macau, de Sheldon Adelson. Cartada que poderia ter exigido meses, talvez anos – o descarte da velha liderança do CSFA do Egito; o Qatar privilegiado em detrimento da Arábia Saudita; uma visita presidencial a Teerã; o Egito voltando ao centro do palco como líder do mundo árabe – foi completada em apenas dois meses.

Claro que tudo depende de como se desenvolvam as relações entre Egito e Irã, e de se o Qatar – e mesmo o Irã – serão capazes de ajudar a Fraternidade Muçulmana a impedir o colapso do Egito (falta dinheiro para tudo: o déficit anual é de $36 bilhões; quase metade da população é analfabeta; e o país importa metade de tudo que come).

De volta a Camp David

O problema imediato com o grupo de contato do Egito para a Síria é que a Turquia – em mais uma instância de sua política externa espetacularmente contraproducente – decidiu boicotar a Conferência do Movimento dos Não Alinhados. Nem isso deteve o Egito, que propôs acrescentar Iraque e Argélia ao grupo de contato. [2]

E entra em cena Teerã, com mais uma proposta diplomática “de amplo espectro”, segundo o Ministério de Relações Exteriores: uma troika de Não Alinhados – Egito, Irã e Venezuela, plus Iraque e Líbano, vizinhos da Síria. Quer dizer: todos querem conversar – exceto, dadas as evidências, a Turquia. A Rússia apoia plenamente a proposta de Teerã.

E bem quando a cobertura da imprensa-empresa dos EUA se lambuza com os discursos de ódio da convenção de milionários em Tampa, em Teerã, no “isolado” Irã, o Supremo Líder Aiatolá Khamenei recebe o secretário-geral da ONU Ban Ki-moon, e conclama a ONU a trabalhar a favor de um Oriente Médio sem armas nucleares. [3]

Não é precisamente atitude de um “novo Hitler” que deseje a bomba atômica, como ainda tentava repetir, ontem, em Israel, o duo Bibi-Barak, inventadores de guerras. Mais parece, com certeza, denúncia vinda de um sul global muito popular da hipocrisia cósmica de Washington, que espertamente ignora o arsenal nuclear de Israel, enquanto tenta apertar o Irã e seu programa nuclear.

Desnecessário dizer que nada disso foi notícia na imprensa-empresa estadunidense.

Simultaneamente, todos os olhos do sul global estão postos em Morsi. Pelo andar da carruagem, não é fantasioso imaginar que a Fraternidade Muçulmana, mais dia menos dia, jogue a carta de Camp David. Nesse caso, deve-se esperar que Washington entre em modo balístico – e talvez viaje no tempo, de volta à América Latina dos anos 1970, e tente (mais um) golpe militar.

Em resumo, se a Fraternidade Muçulmana realmente articular uma política externa independente nos próximos meses, que dê pelo menos um sinal de que Camp David tenha de ser renegociado (movimento que terá o apoio de 90% dos egípcios), a única saída que sobrará para o duo Bibi-Barak, inventadores de guerras, será cair na real.

Notas

1. 30/8/2012, China Daily
2. 28/8/2012, Al-Akhbar
3. 29/8/2012, PressTV

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