Etiquetas

, , ,

Enquanto as principais atenções a respeito do deslocamento tectônico em curso no mundo se concentravam na Conferência dos Países Não Alinhados, em Teerã, representantes de dez Estados de primeira importância do sul asiático se reuniam no Camboja para dar forma a um acordo de livre comércio naquela região. A vingar a iniciativa, será assestado novo golpe na hegemonia global dos Estados Unidos, num momento em que este pais se empenha em promover lá uma espécie de ALCA, sob o seu comando. Tal como aqui, com a criação e o fortalecimento do MERCOSUL, foi derrotado na ALCA propriamente dita – embora não desista nunca –, o poder estadunidense arrisca sofrer agora, com a criação desse organismo (que, aliás, por coincidência, também se poderia chamar MERCOSUL) novo revés, e muito mais danoso para o futuro do dólar como moeda corrente mundial. Com China, Japão, Índia e outros países, lá estão metade da população e um terço do PIB mundial. M.K Bhadrakumar examina o tema aqui, no original, e na tradução de Simão Bonjardim a seguir.

Acordo asiático para mega conversas sobre área de livre-comércio

M.K Bhadrakumar

Nenhum jornalista indiano, ao que parece, se preocupou em cobrir a reunião dos ministros do comércio dos 10 países da ASEAN e seis parceiros (China, Japão, Coréia do Sul, Índia, Austrália e Nova Zelândia) no Camboja na quinta-feira. A imprensa de negócios da Índia, ao invés, voltou-se para o oeste – para Teerã, o que provavelmente é mais sexy do que Siem Reap [centro turístico e histórico do Camboja.

Eles entenderam errado. Talvez a ordem seja invertida. A decisão tomada na reunião em Siem Reap certamente vai dar lugar a um dos desenvolvimentos mais profundos no drama asiático, reescrevendo a geopolítica da região que mais cresce no mundo. A reunião decidiu que os 16 países começarão as negociações em uma cúpula regional em novembro, para levar a Ásia em direção a uma área gigantesca de economia e livre comércio.

A parceria global econômica regional [RCEP] que está proposta poderia transformar fenomenalmente uma região de 3,5 bilhões de pessoas (cerca de metade da população do mundo), como um mercado integrado, com um PIB combinado de US $ 23 trilhões, cerca de um terço do PIB corrente anual do mundo.

A idéia é juntar os cinco ASEAN ALCs existentes (incluindo a Índia) num quadro único. Curiosamente, o Japão é o principal motor a empurrar a ideia, uma vez que o RCEP seria uma “ajuda vital para o país, quando sua política de comércio chegou a um impasse.” Curiosamente, Tóquio prefere a integração asiática dentro RCEP à proposta de Parceria Trans-Pacífico debatida pelos Estados Unidos.

A China, é claro, tem razão para ficar feliz. A China vai ver que o RCEP proposto de 16 nações tem o potencial de criar um nível de interdependência (e benefício mútuo) na região asiática que poderia ajudar na moderação das tensões no Mar da China Meridional

A Índia também está entusiasmada com a proposta RCEP. Em última análise, FTA da Índia com a ASEAN está impulsionando o comércio em mais de 40%. O ministro do Comércio, Anand Sharma, tem pressionado para a conclusão antecipada das negociações dos serviços e contratos de investimento entre a Índia e a ASEAN.

As negociações RCEP podem vir a ser uma longa caminhada. Mas a decisão de dar início às negociações significa que a ASEAN não considera que o “pivô” dos EUA para a Ásia o único espetáculo na cidade. A atração de maior comércio e investimento e de parceria econômica envolvendo a China (que será obrigatoriamente o parceiro dominante na RCEP) é muito colorindo as perspectivas asiáticas.

Os EUA também percebem isto. Pela primeira vez, um representante comercial dos EUA, Ron Kirk, participou da reunião econômica de cúpula da ASEAN, significando que a integração econômica asiática proposta tem implicações profundas para a estratégia os EUA na Ásia-Pacífico.

Mas este não é um jogo de soma zero. Observações de Kirk após sua ‘bilateral’ com o seu homólogo chinês, Chen Deming, à margem da cimeira da ASEAN econômica confirmam isto. Kirk disse: “O ministro Chen e eu deverriamos saber que um dos poucos pontos brilhantes no ambiente econômico global é a relação entre a China e os EUA, e estamos empenhados em resolver a herança do comércio para que a relação continue a crescer.” Evidentemente, aqui não há estratégia de contenção.