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O Jornal da ABI publica entrevista interessante com a jornalista Natalia Viana, uma expoente do jornalismo de novo tipo que surge com força, graças à Internet e ao derretimento moral da mídia ocupada pelos grandes negócios. Ela é jovem de idade e de ideias, corajosa, inovadora e inteligente.  Junto a amigos de perfil semelhante, edita a página Pública (http://apublica.org/), que alça voo na “mídia alternativa” com matérias que conseguem grande circulação, inclusive na imprensa tradicional. O apoio da Fundação Ford, se pode condicionar de algum modo sua ação, com certeza não a impede de abrir uma bonita avenida de jornalismo independente, inclusive com divulgação de documentos liberados pelo WikiLeaks que mostram a ingerência de Washington nos assuntos internos brasileiros e a subserviência de FHC, Serra e outros políticos do país aos Estados Unidos. A seguir. 

 

DEPOIMENTO

O novo jornalismo independente abre seu caminho e pede passagem*

 A jornalista Natalia Viana conta como surgiu a Pública e fala das dificuldades e do prazer de se fazer jornalismo fora da imprensa tradicional.

Por Francisco Ucha

O começo da carreira de Natalia Viana não foi muito estimulante. Presa entre quatro paredes numa sala fria de um grande portal da internet, ela tinha que escrever sobre a agitada agenda cultural de São Paulo a partir de releases. Não aguentou. Depois de um mês, pediu demissão. A partir daí, sua vida profissional teve três momentos cruciais que fizeram toda a diferença.

Primeiro, quando topou trabalhar na Caros Amigos com um salário que constituía um décimo do que o do seu emprego anterior. Lá, passou a ter contato com profissionais como Carlos Azevedo, Marina Amaral e, principalmente, Sergio de Souza. “Você tem jeito pra coisa!”, disse o veterano jornalista para a jovem que buscava seu caminho na profissão. Foram quatro anos na Caros Amigos, onde ela finalmente aprendeu a fazer jornalismo de verdade. “Lá eu descobri que podia escrever absolutamente do jeito que eu queria, ter um tempo de apuração. O Serjão nunca reprimiu minha curiosidade. Não acho que isso é melhor ou pior jornalismo, mas é o tipo de jornalismo que eu faço, que eu sou”, afirma.

Em seguida, quando tirou férias para fazer um curso na Bolívia, em 2004, descobriu um novo mundo profissional, o dos jornalistas independentes. “Comecei a entender que poderia fazer o que eu acreditava que deveria ser feito”. E aparentemente era simples. Bastava uma boa ideia de pauta na cabeça e um gravador, um laptop e uma câmera na mão. Começou a fazer grandes reportagens com baixo custo e vendê-las para veículos ao redor do mundo. A semente da Pública estava lançada.

Finalmente, quando viajou para Londres e passou a trabalhar com Centros de Jornalismo Investigativo, novas oportunidades surgiram, como a de trabalhar em dois documentários e, de volta ao Brasil, ser chamada para uma misteriosa reunião com Julian Assange, do site WikiLeaks.

Hoje, pouco mais de um ano depois de ter formalmente iniciado os trabalhos da Pública – juntamente com sua sócia, Marina Amaral –, Natalia Viana continua obstinada pela boa reportagem. Com o apoio da Ford Foundation, a Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo busca ampliar o número de republicadores de suas matérias. Produzidas por repórteres apaixonados pela apuração e que revelam em seus textos um Brasil repleto de injustiças sociais, as reportagens passaram a incomodar alguns setores pouco acostumados à liberdade de imprensa.

“Muitas vezes há ameaças ou ações que são apenas para intimidar o jornalista. Quando sofremos algum tipo de intimidação, comunicamos a diversas pessoas e deixamos claro que não aceitamos isso. Não se pode intimidar jornalistas em pleno século 21 no Brasil. É inaceitável!”, disse, nesta entrevista ao Jornal da ABI, a jornalista que adora falar de seu trabalho com um sorriso nos olhos.

Jornal da ABI – Como foi o começo da Pública – Agência de Jornalismo Investigativo?

Natalia Viana – Começamos em março do ano passado, mas fui viajar e, na realidade, começamos a trabalhar mesmo em junho. Até dezembro, estávamos trabalhando com apoio voluntário. A Ford Foundation até deu um apoio, mas foi simbólico. Isso significa que eu, Marina e Tati precisávamos fazer outros trabalhos para sobreviver. Estávamos pagando o escritório e investindo ao mesmo tempo. No fim de 2011, a Ford topou dar financiamento por um ano e assim tivemos que nos dedicar a uma coisa mais burocrática, de organização da Pública, não produzimos tanto. No início de 2012 começamos a funcionar de forma mais organizada e fizemos um site novo. A Pública está no Facebook desde junho de 2011; nesse ano, pouco mais de 150 pessoas curtiam a nossa página. Agora já são mais de 6 mil pessoas curtindo a nossa página no Facebook. Estamos trabalhando com mais estrutura; temos programação, metas. Sou coordenadora de estratégia (risos). Bonito, né? Temos que estar atentos para a real vocação da Pública. Por exemplo, várias ongs queriam nos contratar para produzir matérias sobre algum assunto. Mas não achamos que devemos ser um serviço de fazer reportagens sob encomenda, temos que manter nossa visão. Está acontecendo no Brasil, assim como no mundo inteiro, essa explosão do jornalismo independente. Ainda há pouca estrutura, pouco incentivo e pouca discussão. Por outro lado, há muito jornalista que está deixando a Redação para se virar sozinho

Jornal da ABI – Você fala em ‘jornalismo independente’. Não seria mais correto falar em ‘jornalista independente’?

Natalia – Sim, pode ser. Chamo de ‘jornalismo independente’ aquilo que o jornalista independente faz. Aquele que não está atrelado a um grande veículo comercial. O que está acontecendo não é uma mudança de paradigma no jornalismo, é o bom e velho jornalismo de sempre. O que está mudando é um modelo comercial, assim como em outros campos. O que está acontecendo com o jornalismo é o que aconteceu na música. Antes, pra você ser conhecido, tinha que passar pela indústria, havia o monopólio da gravadora. Não podemos negar que há o monopólio da informação no Brasil. Essa é a única coisa que critico fortemente: a concentração dos meios de comunicação. Não acho errado veículo comercial ou com posições políticas. Cada veículo faz o tipo de jornalismo correspondente ao seu modelo de negócio. Por exemplo, o noticiário 24 horas dos grandes portais e agências de notícia. Que tipo de jornalismo é esse? É a notícia sem profundidade. E é assim mesmo. Faz parte do modelo deles. Eles não vão parar para analisar os fatos, se aprofundar na notícia. Esse tipo de jornalista é mais um tradutor do que um repórter. É importante você saber o que está acontecendo agora no Iêmen. Legal. Mas isso você não vai ver na Pública. Nós não fazemos ‘notícia’ e é superdifícil não fazer. Nós fazemos reportagem. Há muita gente que fala que todo jornalismo é investigativo. Eu não concordo. Não sei fazer notícia… e não quero. Um pouco da idéia da Pública nasce daí também. Nós fazemos reportagens bacanas e bem feitas com fotos lindas e mandamos de graça para os veículos. O jornal precisa preencher espaço e acaba dando visibilidade para reportagens bem feitas. Queremos o máximo de republicadores possível. Pode-se publicar livremente desde que dê a fonte. No site está bem explicadinho, numa seção que é o “roube nossas histórias”. Qualquer um pode, mas só tem que obedecer a certas questões. Não pode ser reduzida drasticamente e editada, por exemplo.

Jornal da ABI – Como surgiu a idéia da Pública?

Natalia – É uma ideia antiga. Marina e eu já conversávamos muito com outros jornalistas que o repórter estava podendo cada vez mais ser independente e que, obviamente, a união faz a força. Não tínhamos um modelo ainda. Quando fui fazer mestrado em Londres, em 2006 e fiquei até 2008, comecei a conhecer o mundo dos Centros de Jornalismo Investigativo e a trabalhar neles. Era um modelo que não existia no Brasil. Muitos deles perguntavam se eu não queria abrir uma filial aqui, mas era tudo muito vago. Era difícil ver como isso poderia se materializar aqui. Não temos tradição de um jornal que saia do modelo comercial, um modelo que seja financiado só pelas assinaturas. Um modelo que estamos tentando começar aqui, e esse é um dos nossos desafios, é o de ongs ou fundações que financiem jornalismo. Nos Estados Unidos já existe há muito tempo. A gente não sabia direito como esse modelo ia caminhar no Brasil. O modelo comercial leva a uma piora na qualidade do jornalismo, a cada vez menos investimento na apuração e a pessoas que ficam apenas reescrevendo releases. Mas para fazer jornalismo investigativo tem que ter investimento de tempo, tem que apurar direito… Não sou do tipo de jornalista que vão me contratar porque vou vender revista ‘adoidado’; não vou sair perseguindo Adriane Galisteu por aí por causa de um furo. O jornalismo de investigação não é furo. Raramente é furo! Mesmo porque, hoje em dia o que dá furo? Corrupção no Governo, político com dinheiro na cueca, atriz pelada… O jornalismo de investigação é fundamental para a democracia, mas não dá, necessariamente, resultado financeiro. Então, ele precisa ser incentivado de alguma maneira. A Ford e a Society Foundation já têm essa visão e financiam esses projetos em vários lugares. A Ford Foundation apóia o Observatório da Imprensa e o Intervozes. O que sentimos? Vejo nos congressos da Abraji, todo ano, uma molecada nova que tem muita vontade de aprender. Eles chegam à Redação e não conseguem, não têm espaço para fazer um bom jornalismo. Às vezes há treinamentos para novos jornalistas, mas chegam na Redação e não conseguem..

Jornal da ABI – Mas não conseguem por quê?

Natalia – Eu acho que é por causa da estrutura comercial e devido à forma como as notícias são produzidas. Há uma regra ali que é a regra do mais rápido, do produzir muito. Eles sofrem. Conheço muita gente assim. Eu me formei na Puc, e dois terços dos que se formaram comigo não estão mais no jornalismo

Jornal da ABI – Mas isso também não é por causa da qualidade dos cursos, que são muito ruins e que não preparam bons profissionais?

Natalia – Sim, há muitos cursos muito ruins mesmo. Os cursos de Jornalismo não ensinam a técnica. Não ensinam nem a criticar, oferecer um olhar crítico. Não ensinam a pensar. Não preparam para o mercado e o mercado é ruim. Hoje em dia há aula de assessoria de imprensa! Ah, por favor! Faz um curso técnico para isso. Jornalismo se aprende na prática. Não precisa de quatro anos se for um bom curso!

Jornal da ABI – Como você começou no jornalismo?

Natalia – Comecei da seguinte maneira: Não passei no Curso Abril e fiquei revoltada. Uma amiga passou e foi trabalhar na Contigo, umas das revistas mais lidas do Brasil. Depois de três meses ela largou e foi ser psicóloga. (risos) Eu, que não tinha passado no Curso Abril, que aliás é muito bom, fiquei muito frustrada. Aí comecei a fazer frila e logo consegui emprego em um grande portal. Foi uma segunda chance: ser editora de um canal cultural dentro do site que se chamava “São Paulo Virtual”. Ficava selecionando o que acontecia de mais legal na cidade. Mas tudo era feito em cima de press release! Tudo! Ficava dentro de um prédio, com aquela luz artificial, fechada, e tinha que escrever sobre o que estava acontecendo na cidade! Eu não via o que estava acontecendo cidade! Isso me incomodava profundamente! Eu escrevia “vá ver o filme tal”, e eu não tinha tempo de ver! Eu chorava todos os dias! E ganhava bem. Ligava pra minha amiga que estava na Abril, na Contigo, e ela chorava de volta! Depois de um mês eu não agüentei e larguei esse trabalho! Pensava “não é possível… como é que estou escrevendo sobre coisas que eu não vejo! Estou reescrevendo releases o tempo todo”. Nunca achei que isso seria o ‘fazer jornalismo’.Jornal da ABI – Mas isso não é o “jornalismo” de internet?

Natalia – O jornalismo de internet é bastante assim. Mas há muita coisa que no impresso é assim. O jornalista está sendo obrigado, nas Redações, a escrever cada vez mais em cada vez menos tempo! Muita gente fala que é culpa do jornalista também. Aquele que pega o release e fica reescrevendo. Acho que também é, mas também é muito massacrante. Uma das repórteres da Pública saiu do emprego num grande portal de internet porque foi chamada para uma reunião com todo mundo e o chefe de Redação falou assim: “Se você está querendo fazer jornalismo investigativo, jornalismo correto, pode esquecer, aqui não é o seu lugar. Aqui queremos títulos clicáveis, não importa se o título é um pouquinho diferente da matéria. Não importa enganar o leitor”.

Jornal da ABI – Ele usou essas palavras “jornalismo correto”?

Natalia – Isso, usou. Então, ela saiu de lá. É massacrante, mas o jornalista que ouve isso e fica também não está acostumado a pensar como um. É um local para quem só fica reescrevendo notícia. No online isso é muito forte, mas na tv também, com essa coisa de ‘notícias 24 horas’. Essa falta de checagem, de cuidado com a informação, está extrapolando. Mas tudo é fruto do mercado.

Jornal da ABI – Essa não seria uma boa hora de o jornalismo impresso diário investir na qualidade das reportagens, coisa que o online normalmente não faz?

Natalia – Nunca fui de jornalismo diário impresso. Não saberia palpitar sobre o que eles devem fazer

Jornal da ABI – Voltando para sua história…

Natalia – Comecei a perceber que existia no mundo uma outra coisa. Então, em 2004 fui fazer um curso promovido pelo site Narco News, na Bolívia, onde conheci vários jornalistas independentes das Américas. Eu já estava na Caros Amigos e tirei umas férias pra fazer o curso. Aí comecei a entender que poderia fazer o que eu acreditava que deveria ser feito de maneira independente! Lá conheci gente de uma rádio americana e eu me tornei correspondente deles no Brasil. Me deram um gravador e me ensinaram a editar em áudio. Então, eu fazia reportagem e podia vender para uma revista, para um veículo online e para a rádio. Com isso, ganhava três vezes e conseguia ficar um mês em cima de uma matéria, que é o que eu gosto e sei fazer. Por que isso acontece? Há quebra da barreira da língua porque as pessoas falam várias línguas; há mais interesse em histórias transnacionais e a tecnologia permite. Viajei muito, eu com um gravador de áudio, um laptop e uma câmera. Baixo custo. Fiz grandes matérias.

Jornal da ABI – Você acha que o jornalismo que vocês estão propondo está faltando no Brasil? E mais ainda, as pessoas estão interessadas nele?

Natalia – Sim, porque esse tipo de jornalismo não é de massa. Nem tudo tem que ser de massa. Já conversei com o (Leonardo) Sakamoto e com a Eliane Brum sobre isso, porque existe um mito de que texto pra internet tem que ser curto. Não é verdade. Esses dois jornalistas escrevem textos grandes na internet e todo mundo lê! Então, você vai chegar no site da Pública e vai ter certeza de que tudo foi apurado ao máximo possível, que é uma reportagem para a qual se ouviu o máximo possível de fontes e que o assunto foi pensado de uma maneira completa. Quando os haitianos começaram a chegar ao Brasil e você quer saber por que o nosso País está no Haiti, procura na Pública. E aí você vai ler sobre o drama dessas pessoas. Isso você não vai achar em outro lugar e é fundamental. Nos portais vai achar milhões de coisas picadinhas. Nós vamos fazer investigação mesmo! Por ter morado fora, tenho muitas relações com pessoas de outros países. Essa facilidade de passar informações pra fora e ajudar um jornalista que vem para cá… esse tipo de dinâmica também é uma coisa nova. Não é uma estrutura enorme em que é necessário enviar um ofício burocrático para um escritório… Hoje em dia é assim: ligo pro meu amigo que fala inglês, espanhol… Pergunto se está a fim de fazer a pauta. Ele escreve, eu traduzo. É uma outra dinâmica! Mas há espaço pra isso? Há. Não sei qual tamanho pode ser. Mas vejo muito potencial para a Pública, que também acaba virando um laboratório de experiência de jornalismo. É uma tendência e isso vai crescer. Há muita gente boa fazendo e queremos incentivar. Há uma massa de jornalistas frustrados, que são massacrados, que não conseguem fazer o que querem e você tem o potencial de fazer boas reportagens a custo baixo e bem feito

Jornal da ABI – Como surgiu o WikiLeaks na sua vida?

Natalia – Depois que saí daquele trabalho em que eu chorava todo dia, fui falar com o Sergio de Souza e ele me arrumou um estágio na Caros Amigos, para ganhar dez vezes menos. Fiquei lá e aí virei repórter. Aprendi com o Sergio de Souza e Marina Amaral. Fiquei quatro anos e depois fui para Londres fazer o mestrado. Quando voltei para o Brasil entrei nessa de jornalismo independente, escrevi pra vários locais, The Guardian, Sunday Times… Porque fazia uma reportagem bem feita em português para uma revista, um site, escrevia em inglês para fora e também para rádio, tudo na mesma apuração. Em 2010, passei o ano fazendo o livro sobre a história do jornal Movimento, junto com a Marina e o (Carlos) Azevedo, que eu conheci na Caros Amigos. No fim do ano, em novembro, um amigo meu, que é diretor de um centro investigativo em Londres, me indicou para o WikiLeaks. Eles me ligaram. Não contaram nada, uma coisa cheia de mistério e falaram para eu ir pra lá. Eu topei. Tinha acabado de terminar o livro. Quando cheguei eles falaram: “Natalia, temos três mil documentos das embaixadas brasileiras e nós precisamos divulgar no Brasil. Por favor pense numa estratégia. Nós queremos veículos grandes”. Depois eu pensei que não era fácil encontrar uma pessoa para fazer o que eu fiz. Eles precisavam de um jornalista tão independente que pudesse viajar no dia seguinte pra Londres, porque não tinha emprego fixo. Eles precisavam de alguém com conhecimento de imprensa e política no Brasil e que conhecesse gente na imprensa, mas que fosse independente e que entendesse o que era o WikiLeaks. O WikiLeaks é basicamente o mesmo principio do jornalismo independente. Foi fundado por duas pessoas que têm um princípio: o de publicar documentos secretos, de transformar isso em algo massivo. Aquilo que o jornalismo sempre fez. Não há nada de novo nisso, só adaptaram para a tecnologia de hoje. Foram duas pessoas com uma grande idéia. De novo: tecnologia, arranjo produtivo, novas maneiras de trabalhar.

Jornal da ABI – Como você selecionou os veículos para divulgar esses documentos?

Natalia – As pessoas criticam até hoje como foi feito, mas acho que foi de uma maneira superlegal. Por que a Folha? Porque é o maior jornal do País, além de ter uma pessoa em que eu confiava, que é o Fernando Rodrigues. Eu sabia que o que ele combinasse comigo iria cumprir. Que ele era jornalista de peso suficiente. Liguei pra ele falando que estava trabalhando com o WikiLeaks e que queria que a Folha fosse nossa parceira, mas não podia adiantar nada sobre o vazamento e que só ia entregar o material no domingo. Imagina segurar a Folha com base apenas numa ligação de uma jornalista que não era conhecida? Tinha que ser um jornalista que pudesse bancar essa situação… e foi o que o Fernando fez. Ele me escreveu milhões de e-mails e estava supernervoso. Trabalhamos com a Folha na primeira semana. Mas desde o começo o WikiLeaks queria trabalhar com dois grandes veículos, porque um acaba monitorando o outro… E qual seria o outro? O Estadão é em São Paulo. O outro grande jornal é O Globo, que é no Rio e que também tinha uma pessoa em que eu podia confiar, a Tatiana Farah, que é uma excelente jornalista. E tudo o que foi combinado do começo ao fim foi cumprido. E ficou uma dinâmica interessante, apesar de os dois jornais quase sempre darem um ângulo parecido; são pontos diferentes, textos diferentes. Eles entraram em uma parceria muito interessante em que acordavam quais documentos dariam no dia seguinte e um jornal não furava o outro. Cada um trabalhava o texto a seu modo. Essa coisa da colaboração é parte da nova cultura, não tem jeito. E aí, o que aconteceu? Eu, ao mesmo tempo em que tive que coordenar tudo isso, revisava todos os documentos, porque não podia ter nome de ninguém que fosse sofrer ameaça, e também escrevia reportagens sobre os mesmos documentos para um site do WikiLeaks em português. Então saíam nos dois veículos matérias com o viés deles e no site, com o meu, que era muito diferente. Por exemplo, os documentos da Copa. Existem documentos que os Estados Unidos fazem lobby para que o Brasil fortaleça sua segurança na Copa do Mundo, falando que pode haver terrorismo. O que a Folha deu? “Para Estados Unidos, pode ter terrorismo”. O Globo foi semelhante. No meu foi o seguinte: “De olho nas Olimpíadas, EUA fazem lobby e aumentam presença no País”. Porque para mim é isso, e na verdade eles citam isso: Eles querem que as empresas americanas tenham certa segurança na Copa do Mundo e dobraram o número de agentes do FBI e da Cia. É um olhar completamente diferente

Jornal da ABI – Como a CartaCapital entra nessa história?

Natalia – Como o site do WikiLeaks era pouco conhecido no Brasil, eu entrei em contato com a CartaCapital, e falei: “Estou publicando essas matérias diariamente. Vocês querem um blog?” Eles toparam. Essas mesmas matérias que eu já estava escrevendo para o site do WikiLeaks começaram a ir para o meu blog na CartaCapital e foi recorde… Acho que 11 mil visitas em um dia. Eles me pagaram. Todo meu trabalho para o WikiLeaks foi voluntário, já não tinha mais de onde tirar dinheiro. Mas foram só três meses com eles

Jornal da ABI – Então, a crítica pela escolha dos dois veículos foi injusta?

Natalia – É. Muita gente criticou “Ah, mas por que O Globo e a Folha?”. Por conta de uma série de fatores. No Brasil há uma forte animosidade contra a grande imprensa, principalmente na internet. Isso é histórico. Uma das coisas que eu sempre pergunto é por que o Brasil não tem um grande veículo progressista, de esquerda? Historicamente não aconteceu. Então, realmente nossa impressa é mais que conservadora. Há uma quantidade grande de pessoas que não se vê representada e que tem uma animosidade contra a imprensa. Então, essa crítica é normal. Mas usando critérios técnicos, a escolha foi a melhor. Não dava para dar esses 3,5 mil documentos para um jornalista só. Precisava de uma equipe

Jornal da ABI – Como foi o processo para você tomar conhecimento do conteúdo desses documentos que chegaram à sua mão?

Natalia – Assim que recebi lá na casa, fiquei enlouquecida… fiquei quatro dias lendo direto. Comecei do mais sensível para o menos, de acordo com a classificação deles. Comecei pelo ‘Secret’ até chegar no ‘Confidential’. Não necessariamente é a melhor classificação. Depois você acha mais coisas. Eu fiquei meses com eles e eu lia todo o dia. No fim, sou a única pessoa no Brasil que leu todos os documentos. Fiz uma classificação e os jornais tinham suas equipes que leram do jeito que conseguiram. Mas os jornais seguem o ciclo da notícia. Quando o negócio bombou, a Folha publicou várias coisas na primeira página. O Globo também. Mas depois de dois meses, acabou o interesse pela história do WikiLeaks. Acabou o interesse de furo e em termos de venda. E o jornal tem que vender, não é? Não adianta só ter uma coisa importante. Quando acabou esse tempo, ainda havia muitas histórias. Basicamente de três tipos: que revelavam coisas interessantes dos políticos do PSDB, coisas interessantes sobre empresas e histórias que estavam dispersas por alguns documentos que precisavam de um olhar mais atento. Esses documentos são uma base de dados fantástica! Então, fizemos a semana WikiLeaks na Pública. Foi mais ou menos no lançamento da Agência. Já tínhamos publicado o especial sobre o Araguaia. Chamamos vários jornalistas que nós conhecemos e confiávamos para ficarem três ou quatro dias lendo todos os documentos que não tinham sido lidos. Lemos todos! E aí, só com o material desses documentos, que até tinham sido entregues para a Folha e O Globo e que eles não fizeram nada, ou porque não leram, ou não acharam interessante por questões editoriais mesmo, a gente conseguiu pegar mais 50 reportagens! Foi daí que saiu a história do Serra que tinha pedido ajuda para o Governo americano para treinar a Polícia de São Paulo contra o PCC. Essa história saiu na Pública e muitas outras. Não há nenhum problema nisso, mas é um fato político extremamente importante. O Governo do Estado de São Paulo geralmente não assume que o PCC é um grande problema. O dialogo do Serra com os americanos é muito interessante. Porque o embaixador americano fala “ok, a gente pode ajudar, mas não é melhor você falar com o Governo federal primeiro?”. Porque não se pode fazer parceria passando por cima do Governo federal. Então, tudo o que é minimamente relevante a gente tem que publicar. Os diálogos do FHC com a embaixada, por exemplo. Não há nada de extremamente relevante, mas é muito importante saber o que seu ex-Presidente foi fazer na Embaixada dos Estados Unidos. Não sei por que os jornais não deram. Vai ver que acharam que não era notícia. Tudo bem, mas vamos deixar isso registrado. Houve essa conversa. Assim como com a Dilma, com o Lula, Celso Amorim, que tem infinitos depoimentos. O Nelson Jobim. E nós demos isso. Uma das coisas que eu acho mais legais é o Andréa Matarazzo falando para o Cônsul de São Paulo que o Alckmin é da Opus Dei. Que babado… e os jornais não deram. Não faço nenhum juízo de valores… mas é um fato digno de nota. Há um caso do Presidente da Vale reclamar com o Embaixador americano que o Governo brasileiro estava fazendo um monte de ingerências na empresa, querendo mandar demais na Vale

Jornal da ABI – Essa parceria com WikiLeaks te marcou também no sentido negativo?

Natalia – Acho que não, mas até hoje as pessoas acham que eu sou representante deles. Não sou e nunca fui. Também é interessante que desde o início falava que eu era colaboradora deles, mas esse termo a mídia tradicional não entende. Aconteceram umas cinco vezes de eu dizer que sou colaboradora e o cara escreve que sou representante. Não posso falar em nome do WikiLeaks. Uma revista chegou a publicar “uma espécie de representante”. Colaboração é o novo modelo. Mas… ficou marcado sim. Não acho isso ruim, porque acho sensacional o projeto deles.

Jornal da ABI – Quero voltar um pouco. Por que você decidiu seguir a carreira de jornalista?

Natalia – Costumo brincar que fui fazer jornalismo pelos motivos errados, porque sempre gostei muito de escrever e porque sou muito curiosa. Sempre gostei de história no sentido da essência. Uma das coisas de que mais gosto no mundo é entrevistar pessoas. Fico duas horas fazendo uma entrevista, se deixarem. Mas não conhecia ninguém na área. Lia jornal, não muito. E a faculdade foi extremamente brochante. Na faculdade a gente devia poder experimentar, mas não é bem assim. Eu saí de lá muito desanimada. Então, comecei a trabalhar com livros infantis na Ática e estava achando tudo lindo. Até que fui fazer o Curso Abril e dspois passei a trabalhar como free-lancer. Sempre propunha pautas de comportamento na Capricho, Vejinha. Mas quando comecei a trabalhar na Caros Amigos, o Serjão foi muito legal comigo e disse “Você tem jeito pra coisa!”. Mas eu não achava que eu era alguma coisa. Foi lá que eu descobri isso. Lá eu descobri que podia escrever absolutamente do jeito que eu queria, ter um tempo de apuração. Quando eu chegava e falava “ai, não sei se eu vou conseguir terminar isso a tempo”, Serjão respondia “Leve o tempo que tem que levar, mas faça bem”. Foi assim que aprendi a fazer jornalismo. O Serjão nunca reprimiu minha curiosidade. Não acho que isso é melhor ou pior jornalismo, mas é o tipo de jornalismo que eu faço, que eu sou. É o jornalista obsessivo que vai checar os dados. E é chato… checar os dados é chato. Mas eu adoro! (risos)

Jornal da ABI – Você foi produtora assistente de um documentário, o Black Money?

Natalia – Na realidade fui de dois. O Black Money é do Lowell Bergman, que é o jornalista retratado no filme O Informante; era o Al Pacino. O documentário é muito legal; mostra casos de corrupção transnacional. Há uma lei nos Estados Unidos segundo a qual se uma empresa americana praticar corrupção em outro país ela pode ser punida. Eles precisavam de alguém em Londres para pesquisar e ajudei a fazer isso. Também fiz um trabalho semelhante para um documentário sobre guerra biológica chamado Anthrax War, para uma rede canadense. Foi superlegal porque nunca tinha trabalhado em tv.

Jornal da ABI – Como aconteceu isso?

Natalia – Fui indicada por alguns amigos do Centro de Jornalismo Investigativo quando eu estava em Londres, em 2008. É um trabalho bem específico. Para fazer as pesquisas para esses documentários tem que ser uma pessoa que tenha justamente essa obsessão de buscar, de convencer a fonte a falar, de aprofundar. Trabalhei em cada documentário um pouco mais de dois meses, quase três meses.

Jornal da ABI – Como o jornalista independente deve atuar? Seu trabalho é mais solitário?

Natalia – Não sou a favor do jornalista independente como um lobo solitário. Sou a favor da troca de experiências . Por isso resolvemos criar o Conselho Consultivo da Pública, que antes não existia. Queremos cada vez mais que a Pública seja um centro de discussão e um laboratório de formatos, de estudos para onde o jornalismo pode ir. Não estamos fechados a nenhuma idéia, mas acreditamos no jornalismo e no jornalista independente, nos valores básicos do jornalismo, no rigor jornalístico. Aprendemos com Sergio de Souza.

Jornal da ABI – Essa troca de experiências também se reflete na republicação, pela Pública, de material de parceiros internacionais, de jornalistas de outros países, não é mesmo?

Natalia – Sim. Temos pessoas que mandam matérias. Tenho amigos na Bolívia. Grandes jornalistas, um correspondente da Times na Bolívia, correspondentes do Le Monde. O jornalista apaixonado quer que sua reportagem saia no máximo de línguas possível. Eles acham ótimo que saia em português! Então traduzimos e publicamos. Viramos uma espécie de curadores desse material, porque selecionamos o material que interessa para o público brasileiro, damos uma adaptada, editamos. Mas além de ser um núcleo para discutir jornalismo e reportagem, queremos trazer jornalistas interessados nisso e discutir idéias de como fazer de maneira nova. Sentimos a falta de projetos jornalísticos. O Brasil não tem projetos jornalísticos.

Jornal da ABI – Gostei muito de uma definição que você deu do que é ser jornalista e está na internet. Você se lembra?

Natalia – Tem aquela do gato: ‘jornalista investigativo é como um gato que vê meia gaveta aberta e quer entrar, quer abrir’. (risos) Você está trabalhando e chega uma notícia dizendo: ‘Polícia nega que haja acampados no Anhangabaú’, isso na época do Ocuppy Wall Street. O que você vai fazer? Poxa! Vai no Anhamgabaú checar, ora! Eu não conseguiria não ir lá! (risos) O nível de não checagem é absurda!

Jornal da ABI – É boa essa definição, mas o que você falou tem mais impacto. Você disse que o jornalista tem que estar completamente dentro de sua reportagem. Tem que dormir com ela, falar sobre ela com os amigos, refletir, tentar dominá-la, compreendê-la, melhorá-la, prová-la. Jornalista é ver o mundo de uma forma singular, sempre observando e analisando a mídia.

Natalia – Nossa, eu falei isso? Bonito mesmo! É aquele negócio da obsessão, você está com uma pauta e não consegue pensar em outra coisa. Tive uma conversa sobre isso com o Julian (Assange). Quando se faz algo de forma apaixonada é quase como uma causa. Acreditamos que fazemos algo fundamental e que vai melhorar o País. Vai qualificar a democracia, melhorar os debates democráticos. Quando estamos com uma matéria é a coisa mais gostosa do mundo.

Jornal da ABI – No início de agosto começaram a ser publicadas as primeiras reportagens vencedoras das Microbolsas da Pública. Como foi a montagem desse projeto e a seleção dos profissionais ganhadores? Houve o retorno esperado?

Natalia – O Concurso de Microbolsas da Pública foi muito bem sucedido, na nossa opinião. Qual era a idéia? A Pública pretende não apenas produzir reportagens próprias de profundidade, mas também incentivar jornalistas que querem fazer suas reportagens de maneira independente. É o chamado empreendedorismo no jornalismo. Nós percebemos que seria muito mais rico abrir uma chamada pública para que os próprios jornalistas enviassem propostas de reportagem do que simplesmente pautar as pessoas ou contratar trabalhos como freelancer. E também achamos importante fazer um concurso em que os jornalistas não precisassem estar ligados a um veículo para participar – o que acontece muito nos concursos de jornalismo. Com a internet, a figura do jornalista que consegue fazer jornalismo independente ganha muita força. Quando abrimos o concurso, em fevereiro, recebemos 70 propostas de todo o Brasil, muitas delas excelentes. A Eliane Brum, que é nossa conselheira e ajudou a votar nos selecionados, como todos os nossos conselheiros, resumiu de uma maneira muito legal: ‘Foi bom constatar que há tanta gente interessante por aí’. Selecionamos os quatro vencedores, e ao longo de três meses fizemos um acompanhamento, conversando sempre com os vencedores, trocando idéias e orientando a pauta. É claro que sempre há conflitos, o que é perfeitamente normal em uma relação profissional em que todos os lados são muito apaixonados – o que, eu posso garantir, é o caso tanto da equipe da Pública quanto de todos os vencedores. A reportagem da Natalia Garcia, sobre o Cingapura que dá de frente para o Itaquerão, é um belo retrato do Brasil que pretende lucrar algo com a Copa – ela encontrou moradores se preparando para alugar seus apartamentos por R$ 20 mil para os jogos. Já o retrato dos assentamentos do MST em São Gabriel, no Rio Grande do Sul, feito pelo Jefferson Pinheiro e o André de Oliveira, trouxe uma realidade complexa e muito, muito triste, que detalha o abandono do projeto de reforma agrária, como uma política sistemática, mesmo. Temos outras a caminho, como um retrato muito interessante de um guerrilheiro gaúcho que lutou na guerrilha do Che Guevara na Bolívia, depois da morte dele, um personagem pouco conhecido ainda, feito pelo jornalista também gaúcho Daniel Cassol. E há mais a caminho, porque a rede Brasil Atual, uma rede de comunicação ligada a sindicatos, abraçou a nossa proposta e topou financiar mais algumas das pautas propostas, em conjunto. Não posso revelar as próximas pautas, mas serão publicadas até o final do ano. No ano que vem, abriremos o Segundo Concurso de Microbolsas da Pública.

Jornal da ABI – Vocês receberam propostas de jornalistas que só trabalham em Redações tradicionais, com emprego fixo?

Natalia – Sim, recebemos algumas, e claro que nos interessa também. Como a Pública trabalha com uma licença da Creative Commons (creativecommons.org) e o objetivo é que as reportagens sejam o mais republicadas possível, deixamos aberta a possibilidade de os veículos publicarem a reportagem também. Aí, vai dos veículos toparem publicar algo sem ter exclusividade, que é uma lógica um tanto nova no mercado. Mas recebemos respostas bem positivas neste sentido, mais do que o esperado. No ano que vem, vamos incentivar mais!

Jornal da ABI – A evolução da conectividade pode ajudar muito no trabalho do jornalismo! Isso deve ajudar muito vocês…

Natalia – O negócio da conectividade ajuda muito. Outro dia estávamos, eu, Andréa Dip e Marina Amaral, cada uma na sua casa, editando e publicando matérias.

Jornal da ABI – O Jornal da ABI é um bom exemplo disso: temos colaboradores no Rio, São Paulo, Vitória, São Bernardo, São Caetano, Natal e outras cidades e todos se encontram e se reúnem na internet. Usamos o Twitter até durante o fechamento, para esclarecer dúvidas com fontes e repórteres…

Natalia – É isso! Nossa colaboradora em Floripa revisa e coloca nas redes sociais. Isso é ótimo. É isso que está acontecendo. Mas também uma das coisas que está acontecendo na comunicação e jornalismo, no Brasil, é que há muita notícia e opinião, e pouca reportagem. Mesmo os blogs que tentam fazer frente têm muita opinião e gritaria com conteúdo pouco consistente. E há outra coisa: eu não sou uma jornalista prioritariamente de internet. Nasci sem internet; a primeira vez que tive e-mail eu tinha 19 anos. Fiz isso pra me comunicar com minha família, quando fui para Londres fazer intercâmbio; no meio da faculdade, fui ser garçonete. Lembro, quando eu estava na Caros Amigos, de alguém que falou sobre a existência “de um tal de Google”. Essa geração de agora já nasce com tudo isso e pensa diferente, tem outra agilidade. Desde o ano passado, eu, Marina Amaral, Tati e todos os que estão com a gente nessa empreitada temos que aprender a fazer tudo, a fazer o site, a mídia social, editar foto, e isso toma tempo. É um conhecimento não só técnico, mas estético também. É uma tendência irreversível. Estamos fazendo questão de que todos os envolvidos na Pública consigam fazer todo o processo, o que fica muito dinâmico e coletivo.

Jornal da ABI – Acabou de estrear um hot-site na Pública chamado “Os Caminhos da Corrupção”, sobre os problemas com verbas para Educação na Amazônia. Como foi desenvolvido esse projeto e como chegaram aos números apresentados?

Natalia – Esse projeto, que a gente chama de “O futuro da Amazônia”, analisa a educação básica na Região Norte a partir de dados públicos, que foram compilados, cruzados e analisados pelo ótimo jornalista Fabiano Angélico, que é especializado em jornalismo de dados, uma tendência que tem crescido no jornalismo investigativo. Ele foi financiado pela Fundação Carlos Chagas, o que é legal em si, porque é a primeira fundação brasileira que financia um projeto – é muito importante que se crie cultura de financiamento de jornalismo investigativo dentro do Brasil, algo que hoje existe muito pouco. O projeto é muito bacana porque alia o jornalismo de dados – publicamos infográficos mostrando como a educação da Região Norte fica atrás do resto do Brasil, e depois cruzando os resultados com os relatórios da CGU (Controladoria-Geral da União) que apontam problemas na administração da verba federal destinada à educação em 32 cidades dessa Região, incluindo indícios de fraude e se desvios. Agora, estamos na segunda fase, que é a de aliar as descobertas do nosso cruzamento com o que chamamos de “shoeleather journalism”, que é a velha arte de sujar os sapatos. Nossa repórter, Ana Aranha, vai até algumas cidades onde foram encontrados grandes problemas pela CGU para traçar o retrato humano do que acontece de verdade quando os recursos da educação são desviados ou mal aplicados. Essa aliança do jornalismo de dados com a boa e velha reportagem trouxe um resultado muito rico.

Jornal da ABI – O Brasil está entre os cinco países onde mais se assassinam jornalistas no mundo. Com uma estatística dessas, quais são os cuidados que jornalistas independentes devem tomar para trabalhar em regiões onde há clara ameaça à liberdade de imprensa?

Natalia – Todo jornalista independente tem que tomar ainda mais cuidado, porque ele não está ligado a um veículo. É sempre importante ter um ponto de apoio, conhecer o território onde se está pisando, entender os riscos antes mesmo de viajar para algum local. Mas nós percebemos também que muitas vezes há ameaças ou ações que são apenas para intimidar o jornalista. Isso não pode e não deve acontecer, e um grande amigo nosso, o jornalista britânico Andrew Jennings, sempre diz que é muito importante não se intimidar. Muitas vezes, em especial se tratando de jornalistas mulheres, querem botar medo.

Jornal da ABI – A Pública já sofreu alguma ameaça?

Natalia – Olha, não gosto muito de falar disso, até porque dá importância a pessoas que querem mesmo é intimidar. Quando sofremos algum tipo de intimidação, comunicamos a diversas pessoas e deixamos claro que não aceitamos isso. Não se pode intimidar jornalistas em pleno século 21 no Brasil. É inaceitável!

Jornal da ABI – Como tem sido a aceitação das matérias da Pública pelos republicadores? Tem aumentado o número de republicadores satisfatoriamente?

Natalia – Sim, o número de republicadores tem aumentado bastante. Iniciamos nossa operação, com uma equipe, financiamento e um site customizado, em janeiro deste ano. Desde então, nossos republicadores saltaram: hoje são mais de 40, entre veículos tradicionais, alternativos ou independentes e blogs. Entre eles estão, por exemplo, a EBC, o Yahoo Brasil, a CartaCapital, o jornal Lance!, e o Huffington Post, o maior site noticioso dos Estados Unidos… Veículos como o Estado de S.Paulo e os portais Uol e Terra têm usado nossas reportagens como referência, como ponto de partida para realizar matérias próprias, o que é excelente.

Jornal da ABI – Por que você acha que a chamada grande imprensa ainda não está republicando algumas dessas reportagens?

Natalia – Primeiro, eu não costumo usar este termo “grande imprensa”, porque está carregado de conotações. Eu chamo os veículos comerciais estabelecidos de tradicionais, enquanto a Pública e outras organizações parecidas buscam modelos econômicos diferentes, não comerciais e sem fins lucrativos. Eu vejo que a mídia tradicional está crescentemente usando a Pública como fonte, pelo menos. E é normal que seja um processo longo, porque é um modelo que não existia antes. Nunca se tinha ouvido falar de uma agência apenas de reportagens. Também não havia uma organização que produz apenas reportagens aprofundadas, financiada por fundações. Na nossa imprensa há uma carga política muito grande, e é muito freqüente acusarem tal veículo de estar deste ou daquele lado. É difícil demonstrar que somos independentes, de fato, que não estamos em favor deste ou daquele governo ou partido. Que o nosso negócio é monitorar os poderes, sejam eles governos, empresas, instituições – sempre com um foco em transparência e direitos humanos. Lendo as nossas reportagens é fácil entender isso. Como o jornalismo de interesse público e sem fins lucrativos é uma tendência crescente no Brasil e no mundo, acho que a idéia vem se firmando aos poucos.

Jornal da ABI – Há algum novo projeto em gestação que você possa adiantar?

Natalia – Estamos realizando uma série de reportagens especiais sobre a região amazônica, um projeto bem grande e que deve trazer frutos muito legais até o fim do ano. Aproveito, aliás, este espaço, para convidar os veículos que se interessarem pelo trabalho e por utilizarem nosso conteúdo para nos procurarem: temos muita coisa boa sendo produzida, e temos muito interesse que veículos impressos usem nossas reportagens!

(Colaborou Desirèe Luíse)

*) A entrevista pode ser lida também em http://issuu.com/ucha/docs/jornaldaabi3