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A realização das convenções de democratas e republicanos para escolha de candidato a presidente definiu o curso para as eleições de novembro próximo nos EUA. Mas o panorama é algo sombrio. Primeiro, vença Obama ou vença Romney, todas as apostas vão para que continue no poder o “governo invisível” do complexo de interesses da indústria bélica, do capital financeiro e de militares e serviços de espionagem e de ação encoberta que há décadas ditam a conduta dos órgãos de Estado no país, e do Poder Executivo especialmente. Segundo, as instituições políticas em geral e o processo eleitoral em particular ficaram nos últimos anos ainda mais penetrados por bilionários e empresas do capital financeiro, que participam de órgãos de governo e financiam as campanhas fabulosamente caras – tendência esta ainda reforçada por decisão recente da Suprema Corte que liberou por completo para as grandes corporações, inclusive estrangeiras, a doação para os candidatos.

Terceiro, a depressão econômica, que esmaga as camadas médias da população e as leva à depressão política, e o enfraquecimento dos sindicatos de trabalhadores e de segmentos democráticos da intelectualidade, que em outros tempos eram presença influente no Partido Democrata e pesavam para que este adotasse um perfil liberal em política, fizeram com que o pêndulo se deslocasse para a direita nesse partido e o tornasse mais próximo e mais similar a seu oponente republicano.

Nos últimos dias, várias matérias importantes surgiram na imprensa internacional para examinar esse quadro político nos EUA. Destacamos, pela excelente análise de fundo que apresenta, uma resenha publicada no New York Review of Books de livros recém-publicados sobre esse tema pelos prêmios Nobel de economia Paul Krugman e Joseph Stiglitz, não marxistas, mas informados e inteligentes (no original aqui), e, por expressar opinião de um pais amigo-inimigo fundamental dos EUA e se pautar em categorias marxistas, um editorial do órgão do governo chinês publicado em inglês GlobalTimes (no original aqui).

De tudo resulta que o discurso dos candidatos se pareça a uma competição de quem se mostra mais à direita, mais retrógrado, mais agressivo na condução da política externa imperialista do país. Considerado ainda que não raro o discurso é um e a prática depois da eleição, outra, o eleitor minimamente esclarecido fica em dificuldade de escolha. Não obstante, de modo geral os círculos liberais consideram que Obama é o “menos pior”. Talvez por isso as últimas pesquisas indiquem sua vitória nas urnas, ainda que apertada. O mesmo Paul Krugman, no New York Times, procura encorajar essa perspectiva de vitória, apesar da crise econômica que pesa eleitoralmente contra o atual presidente. Ler o original aqui e a tradução de Milton Nogueira a seguir.

New York Times 6/9/12
Limpando a economia
PAUL KRUGMAN

O discurso de Bill Clinton na Convenção Nacional Democrata foi uma notável combinação de cu-de-ferrismo sério e bonito – houve jamais um discurso de convenção com tanto detalhamento de política? – e sacadas memoráveis. Talvez a melhor delas tenha sido seu resumo sarcástico do argumento republicano para recusar a reeleição ao presidente Obama: “Deixamos para ele uma sujeira total. Ele não limpou de modo suficientemente rápido. Então, demitam-no e coloquem-nos de volta no posto”.

A resposta, eu diria, é sim. Os próximos quatro anos são susceptíveis de ser muito melhores do que os últimos quatro anos – a menos que políticas erradas criem outra sujeira.

Ao dizer isso, não estou dando desculpas para o passado. O crescimento do emprego tem sido muito mais lento e o desemprego muito maior do que deveria ter sido, mesmo com a bagunça que Obama herdou. Mais sobre isso mais tarde. Mas, primeiro, vamos olhar para o que foi realizado.

No dia da posse, em 2009, a economia dos EUA enfrentava três problemas principais. Primeiro, e mais urgente, havia uma crise no sistema financeiro, com muitos dos canais fundamentais de crédito congelados; estávamos, na verdade, sofrendo a versão do século 21 da corrida aos bancos que causou a Grande Depressão. Segundo, a economia recebera um grande baque a partir do colapso de uma bolha imobiliária gigantesca. Terceiro, os gastos dos consumidores eram pressionados por altos níveis de endividamento das famílias, muitas das quais foram sacrificadas pela bolha da era Bush.

O primeiro desses problemas foi resolvido muito rapidamente, graças tanto aos lotes de empréstimos de emergência por parte da Reserva Federal e, sim, aos resgates bancários tão difamados. Ao final de 2009, os níveis de tensão financeira estavam mais ou menos de volta ao normal.

Esse regresso à normalidade financeira não produziu, contudo, uma recuperação robusta. Recuperações rápidas são quase sempre lideradas por um boom imobiliário – e, dada a construção de casas em excesso que houve durante a bolha, isto não iria acontecer. Enquanto isso, as famílias tentavam pagar a dívida (ou eram forçadas a isto pelos credores), o que significou demanda deprimida. Assim, a queda livre da economia terminou, mas a recuperação permaneceu lenta.

Agora, você pode ter notado que, ao contar essa história sobre uma recuperação decepcionante, não mencionei algumas das coisas que os republicanos disseram na semana passada, em Tampa, Flórida – os efeitos de altos impostos e regulação, a falta de confiança supostamente criada pelo fracasso de Obama em derramar louvação aos “criadores de emprego” (que eu chamo de teoria sobre nossos problemas econômicos tipo “Mãe, ele está olhando para mim, engraçado!”). Por que a omissão? Porque não há um pingo de evidência para a teoria do PNB sobre o que o aflige nossa economia, enquanto há um monte de provas para a visão de que a falta de demanda, principalmente por causa da dívida excessiva das famílias, é o problema real.

E aqui está a boa notícia: parece provável que as forças que vinham puxando para trás a economia desapareçam nos próximos anos. A construção de casas esteve em níveis extremamente baixos durante anos, e assim o excesso de construção dos anos da bolha já ficou muito no passado – e parece que uma recuperação de construções já começou. O endividamento das famílias ainda é alto pelos padrões históricos, mas a relação entre a dívida e o PIB está em descenso, preparando o palco para demanda mais forte dos consumidores no futuro.

E sobre o investimento das empresas? Está realmente se recuperando rapidamente, desde o final de 2009, e há todos os motivos para esperar que continue a crescer à medida que as empresas veem a crescente demanda por seus produtos.

Então, como eu disse, as chances são de que, salvo grandes erros, nos próximos quatro anos estaremos muito melhor do que nos últimos quatro anos.

Quer isto dizer que política econômica dos EUA tem feito um bom trabalho? Nem um pouco.

Bill Clinton falou sobre os problemas enfrentados em Obama assumir o cargo que “Ninguém poderia ter totalmente reparado em apenas quatro anos todos os danos que ele encontrou.” Se, por isso, ele quis dizer o excesso de dívida, foi muito verdadeiro. Mas devemos ter políticas fortes para mitigar a dor, enquanto as famílias diminuem suas dívidas, bem como políticas para ajudar a reduzir a dívida – acima de tudo, o alívio para os proprietários de casa afogados.

As políticas que realmente tivemos ficaram longe de ser adequadas. O alívio da dívida, em particular, tem sido um fracasso – e você pode argumentar que isso era, em grande parte, porque nunca o governo Obama levou isso a sério.

Mas, dito isto, Obama pressionou de fato através de políticas – o resgate automático e o Recovery Act – que tornaram a recessão muito menos terrível do que poderia ter sido. E, apesar da tentativa de Mitt Romney de reescrever a história sobre o resgate, o fato é que os republicanos se opuseram amargamente às duas medidas, bem como a tudo o que o presidente propôs.

Então, basicamente, Bill Clinton tinha razão: para toda a dor que os Estados Unidos sofreram a seus olhos, o Sr. Obama pode razoavelmente afirmar que ajudou o país a atravessar um momento muito ruim, do qual ele está começando a emergir.