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Desde a autodestruição da União Soviética, no final dos anos 1980, quando ficaram no mundo como única superpotência, os EUA lançaram-se à prática da velha máxima de dividir para dominar, fomentando rivalidades religiosas e tribais a fim de destruir nações e mais facilmente submeter os respectivos povos a seu poder. Primeiro, inauguraram a bandeira das “missões humanitárias” para destroçar a Iugoslávia, onde há 50 anos conviviam em harmonia os povos dos Bálcãs, vítimas seculares de guerras fratricidas.

No lugar, ficaram diversos países, todos pequenos e brigando entre si, todos dependentes da vontade de Washington e seus sócios menores imperialistas. Depois, foram para o Iraque e em seguida à Líbia, onde conseguiram resultado semelhante. Agora, para tentar o mesmo, estão na Síria, onde há igualmente um Estado não submisso ao governo estadunidense que há décadas promove uma coexistência relativamente pacífica ente suas diversas facções internas.

O principal ponto de apoio para essa empreitada de Washington e seus aliados na Síria é o ressentimento entre sunitas e outras facções locais com relação aos alawitas, minoria que tem influência maior no exército e no aparelho de Estado. O London Review of Books publicou matéria interessante e instrutiva sobre o tema, que está no original aqui e na tradução cedida por Sergio Caldieri a seguir.

Entre os alawitas
Nir Rosen, London Review of Books, vol. 34, n. 18, set. 2012, p. 19-20

“A introdução do vírus de salafismo sectário que está sendo injetado na Síria pelos sauditas e turcos é deliberado ato de intromissão – como foi feito no Afeganistão nos anos 1980s. A questão é que os alawitas pouco conhecem os fundamentos teológicos da própria religião, que é assunto de estudo só por especialistas iniciados. Os alawitas creem na reencarnação e pouco têm em comum com o islamismo dominante, nem xiita, nem sunita, que praticamente desconhecem. Para os alawitas, a religião é mais manifestação cultural, que questão de fé.”

(MK Bhadrakumar, Indian Punchline, 20/9/2012).

O que define o coração da Síria alawita são as cerimônias fúnebres, os funerais. Em Qirdaha, na montanhosa província da Latakia, terra natal da família Assad, vi dois policiais, com motocicletas adornadas com flâmulas com a imagem de Bashar-al-Assad, que subiam uma ladeira. Faziam a escolta de uma ambulância que conduzia o corpo de um tenente-coronel do Exército Sírio. Homens postados na calçada, ao meu lado, davam tiros de metralhadora para o alto, homenagem ao morto. Meus anfitriões e intérpretes locais davam sinais de embaraço. Prefeririam que eu não assistisse àquelas manifestações; disseram que era primeira vez que acontecia. “É o enterro de um mártir”, disse um deles. – “Então, para nós, é como um casamento.” Crianças com uniformes escolares e professores também postados nas calçadas, jogavam arroz e pétalas de flores na direção do cortejo. Cantavam “Só há um Deus e Deus ama os mártires”. Centenas de pessoas vestidas de negro andavam pelas ruas da cidade na direção do santuário local, para a cerimônia fúnebre. De todos os lados, ouviam-se cânticos de “Bem-vindo, oh mártir. Queremos Assad! Todos queremos Assad!”

Era abril, sexto mês de minha viagem pela Síria. Depois que saímos dali, chegaram notícias de outro funeral, ali perto, na vila de Ras al-Ayn, perto da costa. Uma vila de 700 habitantes já tinha então sete mártires, soldados do Exército Sírio; seis desaparecidos ou capturados; e muitos feridos.

“Todos os dias enterramos mártires”, diz um oficial. “Sacrificaram-se pela Síria”. Um homem, ao lado, falou sobre “os crimes deles”; “eles” mataram o soldado porque o soldado era alawita. Um dos meus guias reclama. Diz que não deve usar termos sectários sobre o conflito. “A oposição não nos deixou escolha” – diz um soldado. “Em matéria de negociação, só querem matar.”

Os alawitas – a seita xiita ortodoxa que é a religião dos Assads, cujos crentes permanecem na maioria fiéis ao presidente e ao governo – são cerca de 10% da população. A maioria dos sírios – cerca de 65% – são árabes sunitas. Os alawitas são uma das várias minorias, como os curdos sunitas e cristãos, os drusos, os xiitas não alawitas e os ismailis. Mas os alawitas sempre foram vistos como caso especial.

Os alawitas pouco conhecem dos fundamentos teológicos da própria religião, que é assunto de estudo só por especialistas iniciados. Mas a crença na transmigração das almas, na reencarnação, e na divindade de Ali, primo do Profeta – numa trindade constituída de Ali, Maomé e um de seus companheiros, Salman al Farisi – põem os alawitas em ponto bem distante do centro da curva do Islã dominante. Para muitos alawitas, a religião é menos uma fé rigorosa e impositiva, que uma expressão da própria cultura do grupo.

A identidade alawita gera algum complexo de inferioridade e medo da dominação sunita. Os alawitas gostam de reencenar a história da própria opressão. “O destino dos alawitas jamais foi invejável” – escreveu a historiadora palestina Hanna Batatu. – “Sob os otomanos, foram abusados, vilipendiados e degradados por vários tipos de exclusão; não poucas vezes, suas mulheres e crianças foram capturadas e oferecidas à venda.” Foram praticamente servos dos senhores feudais sunitas que os otomanos impuseram. Só em 1920, quando começou o mandato francês, o poder da elite sunita foi reduzido, e as minorias, entre as quais os alawitas, começaram a gozar de alguma precária mobilidade social. Os alawitas muito reivindicaram, sem sucesso, que os franceses lhes dessem estado à parte, que os protegeria do domínio dos sunitas.

Para os alawitas, a doutrina pan-arabista do Partido Ba’ath, que tomou o poder mediante um golpe, em 1963, foi o meio que encontraram para superar uma identidade sectária. O exército e os empregos no funcionalismo público deram-lhe meios para escapar das vilas empobrecidas. Rapidamente, pessoas de todos os tipos, emigrados do campo para as cidades, mas, sobretudo, alawitas, passaram a dominar os escalões iniciais do exército, os corpos de oficiais e as academias militares. Em 1971, Hafez al-Assad, alawita e ex-piloto da força aérea, já então ministro da Defesa da Síria, comandou um golpe contra um rival Ba’athista. Quando Hafez morreu em 2000, depois de permanecer trinta anos no poder, seu filho Bashar foi empossado na presidência. Naquele momento, os alawitas haviam-se convertido, de minoria perseguida e marginalizada, em grupo protegido pelo Estado; e o Estado, por sua vez, havia-se convertido em núcleo da identidade alawita.

“Estímulo poderoso para tentar construir a coesão na atual conjuntura, é o grave temor, entre os alawitas de todos os níveis e escalões da sociedade, de que os alawitas sofrerão consequências muito graves, se o atual regime entrar em colapso” – escreveu a historiadora Batatu, em 1981.

Historicamente, os alawitas sempre se mantiveram à margem do Islã que Assad-pai teve de insuflar na Síria, na “islamização” indispensável para que a maioria sunita o aceitasse como presidente da Síria. Os alawitas veem-se como mais ‘liberais’ e mais seculares que os muçulmanos em geral. Podem consumir bebidas alcoólicas; homens e mulheres usam roupas ocidentais; e homens e mulheres interagem livremente em todos os espaços públicos. Não raras vezes, suas opiniões divergem completamente da opinião dos sunitas, mais conservadores. Os alawitas lembram o levante da Fraternidade Muçulmana nos anos 1980s como tempo de violência, quando o regime lutou contra terroristas, até esmagá-los; para os sunitas, foi tempo em que o regime perseguiu brutalmente os sunitas, coletivamente. Naqueles dias, era difícil encontrar um sunita, membro da oposição, que não tivesse perdido um tio, ou que não tivesse pai ou avô na cadeia, preso durante a repressão que se seguiu ao levante coordenado pela Fraternidade Muçulmana. Até agora, a oposição nada disse sobre o que será feito das centenas de milhares de prisioneiros que permanecem nas prisões, no caso de o regime de Assad cair. Os alawitas entendem que têm bons motivos para ter medo.

Na província litorânea de Tartus e em outras partes da região em que vivem os alawitas, foram instalados incontáveis novos postos de controle e revista, comandados por grupos leais a Assad, pelo Exército Sírio ou por membros paramilitares de comitês de resistência popular, em que se misturam uniformes militares e trajes civis. O interior da região armou a própria defesa.

Estive em maio na cidade de Xeique Badr, nas montanhas da província de Tartus. Ali haviam sido mortos 43 membros da resistência local; sete haviam sido capturados, ou eram dados como desaparecidos. Quando eu entrevistava o prefeito, em seu gabinete, veio a notícia de que acabava de chegar mais um soldado ferido. O primeiro mártir da cidade de Xeique Badr foi morto em Daraa, em abril de 2011, um mês depois de iniciado o levante. O mais recente, um coronel morto em Damasco, havia sido enterrado dois dias antes da minha chegada.

A cidade é conhecida por ser terra natal do Xeique Saleh al-Ali, herói da luta anticolonial, que lutou contra os franceses. “Num famoso discurso, ele rejeitou a ideia de estado alawita independente, porque amava a Síria” – disse-me o prefeito, citando de memória partes daquele discurso; ao lado, Abu Haidar, homem da segurança, ouvia. “Não acreditamos em Hafez al-Assad porque fosse alawita, mas porque foi grande patriota” – disse ele. – “Que governo permaneceria no poder por 40 anos, sem o consentimento do povo?” O prefeito reagiu estremeceu, quando lhe perguntai como responderia a novo presidente que a Síria viesse a ter. Como a maioria dos alawitas que encontrei, não conseguem sequer imaginar governo na Síria, sem algum Assad. Um dos homens que assistia à entrevista perguntou como era possível que – na Líbia, na Tunísia, no Egito, na Arábia Saudita e em toda a parte – o ocidente apoiasse islamistas em vez de “movimentos mais seculares e mais avançados”?

O prefeito, como muitos apoiadores do regime de Assad, acredita que esteja em curso na Síria uma conspiração de fundamentalistas islamistas.

Para eles, os levantes na Tunísia, no Egito e na Líbia não foram irrupções espontâneas de protesto popular, mas conspiração organizada para a qual se uniram os EUA, a Fraternidade Muçulmana e os países do Golfo Árabe. “Não é movimento popular. É movimento salafista” – disse um deles. “O que conseguiram, afinal, as revoluções na Tunísia, Líbia e Egito?” – perguntou Abu Haidar. A ascensão de islamistas ao poder naqueles três países tornou os alawitas sírios ainda mais desconfiados de que o fim do governo Assad venha, algum dia, a significar qualquer tipo de mudança para melhor.

Perguntei a Abu Haidar, o homem da segurança, por que Bashar só começara suas (tímidas) reformas depois que começaram os protestos na Síria em março de 2011. Respondeu-me como respondem os apoiadores do regime, que os eventos de 2003 (invasão do Iraque), 2005 (assassinato do primeiro-ministro libanês Rafiq al-Hariri e retirada dos sírios do Líbano), 2006 (guerra de Israel contra o Líbano), 2008 (disputas internas no Líbano) “nos tiraram a liberdade para promover reformas”. Perguntei então se as forças de segurança não haviam atirado contra manifestantes desarmados. Todos responderam que não e insistiram em que o regime proibiu o uso de armas contra manifestantes. Não sei se proibiu ou não, mas sei que houve tiros contra manifestantes. Em seis meses na Síria, estive presente em mais de uma centena de manifestações da oposição. Atiraram contra mim em várias daquelas manifestações. Uma vez, um jovem que estava ao meu lado e atirara uma pedra, recebeu tiros no abdômen e morreu na calçada.

Para viajar em segurança por áreas alawitas, contratei, para me acompanhar, um sargento do exército, dispensado do serviço ativo, de nome Abu Laith, nascido em Rabia, cidade na área rural de Hama. No ano que o conheci jamais o vi comer, mas fumava narguilé cada vez que tinha uma chance; falava constantemente ao telefone, em negociações de seu segundo emprego, como contrabandista de cigarros. Seu salário era de 17 mil liras mensais, cerca de £160. “Não temos conexões no Estado”, contou-me. Por isso, não conseguia emprego no funcionalismo civil: “os únicos empregos que nos restam são o Exército ou serviços de segurança”. Na venda de cigarros contrabandeados, conseguia ganhar 1.000-1.500 liras extras por dia. Vários de seus irmãos estavam ou no Exército ou na Polícia. Dirigindo por áreas que não conhecia, várias vezes perguntou às pessoas como fazer para evitar áreas sunitas. Em alguns pontos, os locais abriram estradas alternativas através de cidades alawitas e cristãs; pelas paredes, viam-se setas pintadas nas paredes, indicando o caminho, para que ônibus e outros carros pudessem evitar os pontos ocupados pela oposição. Quando nos aproximávamos de áreas sunitas, Abu Laith carregava a pistola Makarov. “Vou sair-lhes caro” – explicou. “A coisa mais importante é não morrer sem dar-lhes trabalho.” Falou-me sobre a centena de homens de sua força de segurança regional que haviam sido mortos. Outros duzentos foram feridos. Cinco de seus primos foram mortos.

A maioria dos homens de Rabia servem no Exército ou em forças de segurança em outras partes do país. Muitos vivem em complexos de hospedagem para militares, ou arranjaram casa e família na periferia da grande Damasco onde vivem operários alawitas. Qudsaya, subúrbio sunita de Damasco, inclui dois ‘enclaves’ alawitas: Wurud e “Guarda Republicana”, nome que homenageia os soldados que ganharam casas ali. As duas áreas são contíguas a bairros de operários sunitas; desde o início do levante, começaram os conflitos entre as duas comunidades. Muitos dos prédios em foram construídos ilegalmente e às pressas, em terras do Estado. As autoridades fingem que não veem esses acordos informais, porque os moradores são elementos chave das forças de segurança. Aqui, como nas vilas de onde vieram os moradores, há poucas estradas pavimentadas e praticamente não há serviços públicos. Apesar do abandono, são fiéis apoiadores do regime, a guarda pretoriana que se vê nas ruas. Os homens da segurança que nos cercavam argumentaram que a pobreza em que vivem é prova de que os alawitas não extraem qualquer benefício do regime. “Nunca pedimos coisa alguma e nada queremos, além de viver em segurança.”

Quando Abu Laith levou à sua cidade, Rabia, notícias sobre nossa chegada espalharam-se rapidamente. Milhares de moradores organizaram manifestação que pareceu instantânea, espontânea e sincera, de apoio ao regime, no centro da vila, ao lado de uma estátua de Hafez al-Assad segurando um ramo de oliveira e uma espada. A estátua, paga pelos moradores, foi erigida depois do início do levante. Por trás da estátua, um gigantesco pôster com uma foto de Hafez e Bashar. Sobre o pôster, alguém escrevera “Rabia é a toca do leão”, jogo de palavras com assad, que significa “leão”. Fui levado de casa em casa, para que todos pudessem falar dos parentes mortos e feridos, e dos 42 mártires de Rabia. Disse a um grupo de homens da cidade que, quando visitara cidades onde havia bases operacionais da oposição, como Baba Amr em Homs, também ouvira contar de pais e filhos que haviam sido martirizados. “Nossos filhos estavam simplesmente indo trabalhar” – respondeu um coronel do Exército cujo sobrinho foi morto em Idlib. “Há grande diferença entre matar um homem que saiu de casa para ir trabalhar para o Estado, e matar alguém armado que atira contra o Estado. Pode-se dizer que cinco soldados assassinados num posto de passagem foram assassinados por manifestantes pacíficos?”

Ao longo do ano que passou, os alawitas de Rabia tiveram vários conflitos com moradores sunitas das vilas próximas. No verão, os alunos da cidade não puderam viajar até Hama para os exames escolares, porque a oposição bloqueara a estrada. Cerca de trinta famílias alawitas que viviam em vila próxima, de maioria sunita, mudaram-se para Rabia, sentindo que já não estariam seguros onde viviam antes. As famílias desalojadas de onde viviam sentiram-se frustrados com a resposta que receberam do governo. “Não tínhamos armas. Tivéssemos, teríamos ficado e lutado” – disse-me um velho. “Deveriam ter-nos mandado tanques. Mas a oposição bloqueou todas as estradas. Queremos que o Estado resolva nossos problemas e que o Exército nos devolva às nossas casas. O Exército tem de entrar nessas vilas. Mas estão ocupados, agora, em Hama. Por que o Estado move-se tão devagar?” O pai de Abu Laith, soldado aposentado, concordou. “Só o Exército poderá resolver isso” – disse ele. “Se respondermos nós mesmos, será visto como violência sectária e as outras vilas sunitas unem-se contra nós. Estamos em menor número.”

De Rabia, parti para o noroeste, na direção de Aziziya, uma remota vila alawita que lutou contra os sunitas da vila vizinha de Tamana. Como em muitas vilas alawitas, a maioria dos homens trabalha ou no Exército ou na segurança. Os sunitas vizinhos apoiam, todos, a oposição; e houve operações de milícias sunitas na área, desde a primavera. Salhab, a vila mais próxima, de tamanho significativo, está acolhendo centenas de mães e crianças alawitas que fugiram de suas casas. A luta entre Aziziya e Tamana não dá sinais de estar amainando. Encontrei várias famílias em estado bem próximo da histeria. Uma mulher recém-chegada a Salhab gritava: “Saímos de lá sob fogo! Nossa dignidade é preciosa! Nosso líder é respeitável. Os sunitas são traidores. Tudo por Bashar!”

“Pedimos reforços ao Estado” – outra queixa várias vezes repetida – “mas não mandaram reforços.” Todos concordam que as relações com os vizinhos sunitas sempre foram amistosas e próximas, até o levante. “Éramos vizinhos” – disse-me uma das mães. – “Comíamos juntos, nos visitávamos, uns as casas dos outros. Houve incitamento sectário. De repente, havia gente nas ruas, gritando, praguejando.” Apesar da frustração com o regime que não os está protegendo – crítica que se ouve em muitas comunidades alawitas –, querem mostrar que sua devoção a Bashar não diminuiu. “Eles podem matar todos nós” – disse uma mulher. “Mas se um de nós restar vivo, continuará a apoiar o presidente.” Há aí uma contradição intrigante. Os alawitas veem-se eles mesmos como os cidadãos mais pobres do país, originários de vilas pobres, negligenciados por Damasco. Mesmo assim, se declaram dispostos a deixar-se matar pelo Estado que, segundo eles mesmos, não os está protegendo.

No início do levante, conheci o Dr. Yahya al-Ahmad, figura influente das áreas de alawitas de classe média de Homs. Naquele momento, sua principal preocupação era trabalhar junto aos seus amigos sunitas para reduzir as tensões sectárias. Eu estava sentado sobre a laje de sua casa durante uma daquelas reuniões, quando atiradores escondidos, de repente, abriram fogo contra nós. Ninguém foi ferido. O Dr. Al-Ahmad e seus amigos suspeitaram de que os atiradores não fossem membros da oposição, mas extremistas leais ao regime. Quando nos encontramos novamente, no início de 2012, as coisas haviam-se deteriorado – a casa havia sido atacada duas vezes com morteiros pela oposição; e o Dr. Al-Ahmad tivera de mudar-se e passava quase todo o tempo numa cidade próxima. Em torno da casa, praticamente todas as lojas estavam fechadas. O Dr. Al-Ahmad contou que alguns alawitas haviam sido sequestrados; e que outros alawitas haviam retaliado. Perguntei quantos alawitas haviam sido mortos. “Mortos? Você quer números? Paramos de contar. Os números deixaram de ter importância.” Meus amigos na oposição várias vezes disseram praticamente a mesma coisa sobre seus mortos.

“Homens armados controlam as coisas” – Yahya continuou. – “Estou armado. É uma resposta. Se o Estado não nos dá segurança, então é conosco. Como alawita, você não pode depender só do Estado. E se os homens que fazem a vigilância caem no sono?” A posição de Yahya mudou. “Há um ano, se você me perguntasse quem poderia substituir Bashar al-Assad eu teria pensado num ou noutro nome. Pergunte hoje, e lhe direi que só aceito Bashar al-Assad.” Mas há nele a mesma ambivalência que se vê em muitos alawitas. “Bashar enfraqueceu a segurança na vida diária. Aí está uma das causas do que se vê hoje.” Tentei que ele reconhecesse o número inadmissível de civis mortos nos ataques do governo contra o povo. “Gente inocente é morta todos os dias” – respondeu ele. “Ninguém pode distinguir, ante um homem armado contra você, se ele é culpado ou inocente. Que governo, no mundo inteiro, aceitaria não se defender?”

Um alto dirigente do Exército, responsável por Homs, dentre outras cidades, disse-me que 80 oficiais com comandos e sem estão presos por ‘erros’ – abusos, atrocidades, tortura –, e que pelo menos dez devem esperar sentenças de 15 anos. A asserção pareceu sem sentido, face à violência do regime contra civis. (Se o Exército Sírio fez qualquer tentativa para disciplinar seu pessoa, não foi divulgada.) Os alawitas não erram, ao sentir que, se se considera a fúria da repressão, o estado sírio está perdido, sem saber o que fazer para protegê-los. Esse sentimento, sobretudo, é o que levou ao crescimento de milícias leais ao Estado, cada dia mais fortes e cada dia mais independentes, que agem em plena impunidade e não raras vezes criam problemas para o governo de Assad. As milícias foram responsáveis por vários massacres em Homs e Hama, mas Bashar não está em posição que lhe permita controlar seus seguidores mais renitentes.

Um engenheiro em Homs, alawita que se aliou à oposição, disse-me que a primeira vez que viu milícias legalistas em ação foi em março de 2011. “Não tinham qualquer comando ou organização. Não eram organizados por ninguém, além deles mesmos” – disse ele. Mas em julho já estavam organizados. E hoje operam por conta própria… Nada mais perigoso numa guerra civil que a gente que vive dela e depende financeiramente dela. Vi acontecer no Líbano. Em Homs o que temos é aberta guerra civil.”

Nos tempos de Hafez al-Assad, a expressão shabiha, que significa “fantasmas”, designava os criminosos e contrabandistas organizados que cooperavam com as forças de segurança. Alguns eram do clã Assad – o irmão de Bashar é famoso por ter esmagado elementos da shabiha Assad que escaparam ao seu controle –, mas nunca, em momento algum, foram alawitas. Contudo, quando o levante começou, a palavra shabiha muito rapidamente passou a aplicar-se a milícias legalistas; com o tempo, já designava qualquer força leal ao governo de Assad. Em seguida já se ouviam, nas manifestações pró-regime, cantos dirigidos à oposição e que diziam: “Somos a shabiha! Deem adeus à liberdade! Shabiha para sempre!”

Um oficial de segurança disse-me que há milhares de shabiha – comitês populares – nas áreas periféricas alawitas de Homs. Não são milícias pagas, disse ele; mas continuam a receber os salários de funcionários públicos que recebiam antes, embora já não compareçam aos locais de trabalho. Reportam-se aos prefeitos locais. “Podem prender qualquer um, de Khaldiyeh ou Bayada [dois bairros sunitas, em Homs]” – disse ele. – E entregam o prisioneiro ao Exército. Trabalham coordenados com o Exército.”

O engenheiro de oposição em Homs foi mais claro: “Shabih é gente que ama Bashar mais do que Bashar se ama ele mesmo. Shabih é uma cultura, não uma pessoa. Eles se sentem acima da lei, sentem que são a lei… Por hora, o estado ainda pode controlá-los, mas não sei se conseguirão controlá-los no futuro. Atualmente, o estado está usando os shabih. O estado criou essa gente.” Os alawitas que se unem à oposição, acrescentou, são vistos como traidores da seita. Alguns alawitas ativos na oposição em Homs, como ele, já morreram nas mãos dessas milícias legalistas: em abril de 2011, numa das principais praças de Homs, uma manifestação pacífica da oposição, da qual participaram até alguns alawitas, terminou num massacre cometido por homens dos comitês populares de apoio a Bashar e do Exército.

O que será dos alawitas, se o regime cair, e o que será da base de apoio popular que está com Assad, são perguntas diferentes. Entre os que apoiam Bashar há outras minorias, além dos alawitas – para nem falar dos muitos sunitas que o apoiam. Desde o início o governo apresentou a oposição como motivada por sectarismo – acusação que estimula ainda mais o sectarismo que parece deplorar. Mas o governo cuidou atentamente de não manifestar qualquer tipo de preferência sectária – o que deixou os alawitas ainda mais desamparados, apesar de sua manifesta solidariedade. Os que defendem Bashar dizem que há diversidade em seu campo; e que a oposição é quase completamente sunita. Mas oficiais e soldados sunitas sempre estiveram lado a lado em unidades de elite do exército, como a 4ª Divisão e a Guarda Republicana. E muitos intelectuais da oposição já admitiram abertamente que, se a base de apoio ao governo de Bashar fosse composta só de alawitas, o regime já teria caído há muito tempo. Se se tratasse exclusivamente de conflito entre sunitas e alawitas, Bashar perderia o apoio que os sunitas sempre lhe garantiram na Síria; e estaria reduzido ao apoio de 10% da população, mais alguns grupos de outras minorias.

Quando perguntei a Abu Rateb, líder do conselho militar de Homs, o que aconteceria ao Exército e aos comitês populares da shabiha, e às centenas de milhares de alawitas armadas, se o governo de Bashar caísse, ele respondeu que eu estava exagerando nos números. Previu o que chamou de “chacina”, mas sentia que uma alternativa para Bashar acabaria por emergir de dentro do sistema e levaria a um acordo. “Bashar é a figura central para ales. Sem Bashar, ficam sem espinha dorsal e perdem a motivação.” Depois de uma transição difícil, pode nascer uma nova Síria, “uma Síria livre, justa e democrática.” Um dos líderes da guerrilha anti-Bashar em Duma, o principal bairro dos subúrbios de Damasco, disse-me que muito se preocupa com combates entre sunitas e alawitas em vilas como Aziziya e Tamana. “Não podemos dizer que nós temos direito de viver aqui, e eles não” – disse ele. Mas “depois da revolução os alawitas voltarão ao lugar natural deles. Quando já não tiverem qualquer autoridade.”

Evidentemente não se sabe qual seria o tal “lugar natural”. Terão de deixar as cidades e voltar para suas áreas rurais étnicas tradicionais? Uma nova geração de especialistas em Síria ativos pelos jornais ocidentais já está discutindo a possibilidade de criar-se um estado alawita à parte. Mas nada ouvi sobre isso dos próprios alawitas. Há muito tempo a Síria é o principal projeto desses alawitas; o modo pelo qual se envolveram foi deixar as vilas tradicionais e mudar-se para uma versão de modernidade.

É possível que terminem cercados em alguma espécie de enclave autônomo, como resultado de uma guerra civil que venha a ser vencida pela oposição. Mas esse não é desejo dos alawitas. Estão convencidos de que combatem hoje pelos velhos ideais do Partido Ba’ath, do nacionalismo sírio e árabe.

De qualquer modo, nenhum estado alawita seria jamais viável: o território tradicional dos alawitas jamais ofereceu o mínimo necessário para que os alawitas ali permanecessem; ali não há serviços nem empregos; e a comunidade seria integralmente dependente de diferentes tipos de apoios externos. É possível que a ‘revolução síria’ acabe nisso. Mas esse jamais foi o objetivo de ninguém.

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Introdução à cultura islâmica
Beatriz Bissio, valente batalhadora pela democracia e pela paz, editora da revista Terceiro Mundo, fará noite de autógrafos no lançamento de seu livro O mundo falava árabe. dia 01 de outubro, na livraria “Argumento”, do Leblon, Rio de Janeiro.