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A “revolução colorida” que tentou promover agora na Síria sem êxito, pelo menos sob forma não violenta de transição, Washington conseguiu levar a cabo com pleno sucesso em 2003, na Geórgia, colocando sob sua influência essa ex-república soviética. Mas as eleições para o parlamento realizadas no país há poucos dias deram marcha à ré nesse processo. Um partido de oposição ao governo pró-ocidental foi vitorioso e ganhou mais de dois terços das cadeiras. Sendo a Geórgia um pequeno país, mas dotado de excepcional relevância estratégica, o fato tem importância na arrumação mundial de forças. É o que mostra o observador indiano M.K Bhadrakumar em seu blog. No original aqui e na tradução cedida por Vila Vudu a seguir.

Geórgia
No espaço pós-soviético: caiu a cidadela do Ocidente
2/10/2012, MK Bhadrakumar, Indian Punchline

A cidadela do Ocidente no espaço pós-soviético está caindo – a Geórgia. Bem triste epílogo, esse que agora se escreve, à história épica dessa “revolução colorida”.

Os resultados da eleição para o Parlamento da Geórgia[1] na 2ª-feira exibem surpreendente resultado, segundo o qual o presidente Mikhail Saakashvilli (MS) sofreu exatamente o que se conhece como derrota acachapante. MS foi levado ao poder num golpe cuidadosamente arquitetado de “mudança de regime” em 2003, que, no léxico ocidental, atende pelo nome de “Revolução Cor-de-rosa”[2].

OK. Agora a maré virou. A coalizão de oposição, “Sonhadores” [orig. Dreamers], conquistou nada menos de 110 das 150 cadeiras do Parlamento. O sistema georgiano foi tão claramente construído para dar integral poder ao primeiro-ministro, com ainda mais autoridade depois da reforma de 2013, que, agora, lá estará primeiro-ministro muito poderoso e da oposição política ao governo ‘colorido’ anterior. Pelos próximos meses, até 2014, MS terá de arrastar-se como pato manco.

Muito mais significativo, contudo, é que os “Sonhadores” são liderados pelo magnata bilionário Bidzina Ivanishvilli. A riqueza não é o mais importante. O que realmente importa é como Bidzina Ivanishvilli fez sua imensa fortuna. Em termos simplificados, pode-se dizer que toda aquela riqueza foi ‘feita’ nos dias de glória do início dos anos 1990s, quando Boris Yeltsin vendia na bacia das almas as vastas riquezas russas, e apresentava os russos às infinitas possibilidades do capitalismo de rapina dito ‘neoliberal’. Isso posto, os oligarcas deitaram e rolaram enquanto brilhava o sol e também depois que o sol se punha – e, entre eles, Bidzina Ivanishvilli.

Sabe-se que o presidente Putin entende-se às mil maravilhas com Bidzina Ivanishvilli.

Moscou tem dado sinais de máximo entusiasmo com as imagens que chegam por televisão, de Tbilisi[3].

Washington não apreciará e ficará muito incomodada se acontecer de Moscou voltar a controlar os cordões em Tbilisi, outra vez, como antes. A Geórgia é peça vital no jogo geopolítico miúdo que está sendo disputado no espaço pós-soviético entre  Washington e Moscou. E não se deve esquecer que tudo isso acontece quando a temperatura cai cada dia mais nas relações EUA-Rússia[4] – como se vê pela decisão de Moscou de expulsar do país os grupos da USAID.

A rivalidade EUA-Rússia está em visível erupção por todo o coração da Eurásia, já contagiando as periferias. Putin está promovendo seu projeto de uma União Eurasiana e os EUA trabalham para que o processo seja o menos bem sucedido possível.

Os EUA estão empurrando a influência russa nas capitais da Ásia Central para o norte do Afeganistão; a Rússia está-se inserindo, ela, dentro do bastião da influência norte-americana ao sul do Afeganistão – no Paquistão. Não importa que Putin tenha adiado a visita ao Paquistão. O comandante do exército paquistanês, Asfaq Kayani tem visita marcada a Moscou, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov fez agradável surpresa aos líderes civis do Paquistão[5], ao desembarcar lá, sem cerimônias, para explicar cordial e diretamente ao presidente Asif Zardari os motivos pelos quais Putin não pudera ir.

O espetáculo que se desenrola, pois, ante os olhos do mundo, agora, na Geórgia, é suspense de primeiríssima qualidade. Mas será tudo assim tão simples? Bastará à Rússia simplesmente declarar que ‘controla a Georgia’? Os “Sonhadores” são ambiciosos e parecem interessados em expandir os interesses georgianos[6] negociando com firmeza e barganhando sem tréguas, simultaneamente, com o ocidente e com a Rússia. (Por falar nisso: Bidzina Ivanishvilli tem dupla cidadania, russa e francesa.)

É exatamente o que outro presidente ‘pró-Rússia’, o ucraniano Mikhail Yanokovich, também está fazendo, depois de já ter deslocado os revolucionários ‘coloridos’ que controlavam o governo de Kiev.

Por menor que seja, nenhum país passa incólume pela experiência radical de viver como estado soberano. Ninguém jamais imaginaria que país minúsculo, como o Tadjiquistão, com população de cerca de 5 milhões, se ergueria contra os desejos da grande Rússia na questão de uma base militar russa[7].

Além disso, a localização estratégica da Geórgia é e sempre será fator crucialmente importante. Os oleodutos e a segurança energética; a expansão da OTAN; o sistema dos mísseis de defesa dos EUA; a projetada rota de passagem para o Afeganistão (contornando Rússia, Irã e Paquistão); a militância islâmica no norte do Cáucaso; a questão iraniana; as bases militares no Mar Negro – e esses são só alguns dos temas cuja discussão inclui necessariamente a Geórgia, de um ou de outro modo, como “parceiro indispensável” dos EUA para o século 21.

Em resumo, Washington não facilitará. Não deixará que Bidzina Ivanishvilli tombe desprotegido no abraço do urso. Nem o urso afrouxará o (re)abraço, ou dormirá no ponto a ponto de deixar que a águia capture a Geórgia pela segunda vez. O mais provável é que Bidzina Ivanishvilli busque a solidariedade do Movimento dos Não Alinhados, MNA.


[1] 2/10/2012, http://www.itar-tass.com/en/c154/534420.html

[2] A “Revolução das Rosas”, conhecida, no ‘grupo’ das ‘revoluções coloridas’, como “Revolução Cor-de-rosa foi mudança de regime na Georgia, em novembro de 2003, que sobreveio depois que surgiram denúncias de fraudes em eleições parlamentares nacionais. Fonte significativa de fundos para a “Revolução Cor-de-rosa” foram as várias ONGs e fundações do grupo do bilionário húngaro norte-americano George Soros. A “Fundação para a Defesa das Democracias” divulgou depoimento de parlamentar georgiano, em que conta que, nos três meses que antecederam a “Revolução Cor-de-rosa”, “Soros gastou $42 milhões diretamente para derrubar Shevardnadze” (http://www.defenddemocracy.org/in_the_media/in_the_media_show.htm?doc_id=225687). Falando em T’blisi em junho de 2005, Soros disse que “estou muito satisfeito e orgulhoso com o trabalho da Fundação, que preparou a sociedade georgiana para o que, em seguida, converteu-se em ‘Revolução Cor-de-rosa’, mas a mídia exagerou muito a participação do meu pessoal” (http://archive.newsmax.com/archives/articles/2005/5/31/164945.shtml ). Resultado dessa “mudança de regime”/golpe, o presidente Eduard Shevardnadze foi forçado a renunciar dia 23/11/2003 (mais sobre isso em http://en.wikipedia.org/wiki/Rose_Revolution#Funding_from_Soros-related_organizations) [NTs]

[3] 2/10/2012, http://en.rian.ru/world/20121002/176345347.html

[4] 21/9/2012, em http://en.rian.ru/columnists/20120921/176143513.html

[5] 2/10/2012, http://dawn.com/2012/10/02/three-mous-signed-in-islamabad-russian-fm-due-tomorrow-on-2-day-visit/print/

[6] Em http://www.itar-tass.com/en/c154/534410.html

[7] Em http://www.novinite.com/view_news.php?id=143663