Etiquetas

, , ,

Israel derrubou em seu território um avião sem piloto – do tipo drone – pertencente ao Hezbollah. Nessa mesma notícia, que as agências internacionais divulgaram dias atrás, dava-se conta de que o sobrevoo de Israel por esse tipo de equipamento de observação do Hezbollah se tornou rotineiro. Torna-se público assim que esse movimento libanês de resistência a Israel já dispõe da tecnologia mais avançada que os EUA utilizam para espionagem e também para ataque com bombas e mísseis. Por esse e outros indícios o Hezbollah, que apoia o governo sírio, se revela um fator chave no desenrolar dos acontecimentos atuais naquela região. É então oportuna a divulgação feita agora pelo blog Pública da entrevista que Nasrallah, o líder do Hezbollah, concedeu a Julian Assange, de Wikileaks. (No original em vídeo aqui e no texto transcrito da entrevista no final desta matéria.)

Houve um momento, meses atrás, em que pareciam vitoriosos os EUA e os reis feudais sauditas que são seus aliados na tentativa de derrubar o governo sírio, sob pretexto de defender a democracia. Vociferavam ultimatos furibundos ao presidente al-Assad, tentavam a todo custo forçar uma resolução do Conselho de Segurança que autorizasse a invasão declarada do país, ameaçavam invadi-lo mesmo sem autorização da ONU.

Os vetos na ONU de Rússia e China e a postura resistente do governo de Damasco e seus aliados, principalmente Irã e Hezbollah, fizeram esmorecer aos poucos essa fúria beligerante contra a Síria. Para isso concorreu também a evidência cada dia maior de que o chamado Free Syrian Army é constituído na verdade, em maioria, por mercenários não sírios, muitos deles obedientes ao comando da al-Qaeda – organização que, aparentemente, para os EUA, ganhou status de combatente da liberdade, depois de ser durante duas décadas organização terrorista hedionda. Governos aliados dos EUA na região que acreditaram na iminência na queda do regime Sírio e quiseram se postar do lado vencedor também resfriaram seu entusiasmo. É o caso especialmente do governo turco, que chegou a ameaçar a Síria de invasão militar, mas passou a posição de cautelosa hostilidade. Na própria Síria, o quadro de avanço fulminante dos rebeldes “revolucionários”, que a mídia ocidental se esforçou por creditar, cede gradativamente lugar a uma situação em que o governo de Damasco se empenha com relativo êxito em recuperar posições que perdera. Há portanto certa estabilidade, mas o perigo de guerra externa não passou, até porque as operações internas se dão principalmente em regiões de fronteira com Turquia e Líbano, o que ocasiona incidentes e favorece provocações que podem gerar guerra.

Esse é basicamente o panorama que mostra uma análise divulgada pela AP no dia 7 de outubro (no original aqui).

Ainda sobre Julian Assange, é oportuna a divulgação feita pelo sítio Outras Palavras da entrevista dada por Nahom Chomsky sobre a situação dele, na qual o título diz tudo: Inglaterra e Estados Unidos querem vencer Assange pelo cansaço. Aqui.

_____________

Entrevista de Julian Assange com Sayyid Nasrallah

[OFF] Eu sou Julian Assange. Editor do Wikileaks. Nós expusemos os segredos do mundo e fomos atacados pelos poderosos. Há 500 dias estou detido sem acusação, mas isso não nos deteve. Hoje estamos em busca de ideias revolucionárias que possam mudar o mundo amanhã.

Essa semana eu recebo um convidado que está em uma localização secreta no Líbano. É uma das figuras mais extraordinárias do Oriente Médio. Já lutou em muitas batalhas contra Israel e agora está em uma briga internacional com a Síria. Eu quero saber: por que ele é chamado de defensor da liberdade por milhões de pessoas e ao mesmo tempo de terrorista por outros milhões.

Essa é sua primeira entrevista ao Ocidente desde a guerra de 2006 entre Israel e o Líbano. Seu partido, o Hezbollah, é membro do governo libanês. Ele é o líder do partido, Sayyid Hasan Nasrallah.

JA: Você está pronto? Qual a sua visão do futuro na relação entre Israel e Palestina? O que o Hezbollah acha que seria vitorioso? E se vocês tivessem essa vitória, vocês se desarmariam?

SHN: O estado de Israel é um estado ilegal, é um estado que foi estabelecido com o objetivo de ocupar as terras de outros, ou usurpar as terras de outros, de controlar pela força as terras de outros, de cometer massacres contra os palestinos que foram expulsos, e isso inclui muçulmanos e cristãos também. Então, por essa razão, a justiça permanece no lado onde mesmo que dez anos se passem, o passar do tempo não transforma a justiça em… não nega a justiça. Se é a minha casa… se é a sua casa… e eu vou e a ocupo usando a força, ela não se torna minha em 50 ou 100 anos só porque eu sou mais forte que você e porque eu fui capaz de ocupar a sua casa, isso não legaliza a posse da sua casa. Pelo menos, essa é nossa visão ideológica e nossa visão legal e nós acreditamos que a Palestina pertence ao povo palestino. Mas se nós quiséssemos combinar a ideologia com a lei e realidades políticas, e relacionar isso com o solo, nós poderíamos dizer que a única solução é que não queremos matar ninguém, não queremos tratar ninguém injustamente, nós queremos que a justiça seja restaurada. E a única solução é o estabelecimento de um estado – um estado na terra da Palestina em que os muçulmanos e os judeus e os cristãos possam viver em paz em um estado democrático. Qualquer outra solução simplesmente não será viável, e não será sustentada.

JA: Israel afirma que o Hezbollah tem disparado foguetes em áreas civis de Israel – isso é verdade?

SHN: No decorrer dos últimos anos, desde 1948 quando o estado de Israel foi criado na terra da Palestina, as forças israelitas têm bombardeado civis, civis libaneses e cidades e vilas libanesas. Nos anos de oposição, isso entre 1982 até 1992. Depois de dez anos de resistência nós começamos a reagir – mas pura e estritamente para parar o bombardeio de Israel aos nossos civis. Então, em 1993 houve um entendimento indireto entre a resistência e Israel e esse entendimento foi reafirmado em 1996, e esse entendimento torna claro que ambos os lados evitam o bombardeio de civis e nós sempre dizíamos “se vocês não bombardearem nossas vilas e cidades, então não temos nada a ver com suas vilas e cidades”. Então, o método do Hezbollah recorreu a isso depois de longos anos de agressões contra civis libaneses e o objetivo é puramente criar um equilíbrio de dissuasão para prevenir que Israel mate civis libaneses.

JA: De acordo com os documentos diplomáticos do WikiLeaks provenientes da Embaixada do Estados Unidos no Líbano, você disse que estava chocado em ver o quão corruptos os membros do Hezbollah estavam se tornando. Eles dizem que você afirmou “o que nós nos tornamos?”, porque alguns membros do Hezbollah estavam dirigindo SUVs, carros grandes, vestindo robes de seda, comprando comida para levar. Isso é uma consequência natural do fato do Hezbollah começar a fazer parte das políticas eleitorais no Líbano?

SHN: Primeiro, o que eles afirmam sobre esse fenômeno não é correto. Isso é parte dos rumores que eles queriam usar para desacreditar o Hezbollah e distorcer sua imagem. Isso é, de qualquer forma, parte da guerra da mídia contra nós. Você sabe o que eles falam sobre nós, eles falam que nós comandamos, você sabe, organizações mafiosas e organizações de tráfico de drogas ao redor do mundo, e em nossa religião e em nossa moral essa é uma das maiores proibições – é algo contra o que lutamos. Eles falam várias coisas que não têm base e eu gostaria de confirmar para você, primeiro, que isso não está certo. Em segundo lugar, o que eles falaram recentemente, eu digo que é apenas… é um fenômeno limitado e a razão para isso é que existem algumas, você sabe, famílias ricas que no passado não estavam apoiando o Hezbollah ou apoiando sua linha, sua ideologia ou seu programa. Você sabe, depois de 2000, quando a resistência no Líbano e o Hezbollah – e o componente principal da resistência do Hezbollah – conseguiu liberar o sul do Líbano, isso foi visto como uma espécie de milagre, criou um grande choque na sociedade libanesa porque como poderia um pequeno grupo como esse encarar por 33 dias o maior e mais poderoso exército na região sem ser derrotado? Então existem grupos na sociedade que começaram a se considerar pró-Hezbollah ou apoiadores do Hezbollah e eles vêm, você sabe, de um passado rico que vive uma vida consistente com suas capacidades financeiras; então, você sabe, esse fenômeno migrou para o Hezbollah, mas não é verdade – eu digo isso com muita confiança e com a informação que eu tenho disponível para mim – que esse seja um fenômeno que está lá e que precisa ser remediado.

JA: Por que você apoiou a Primavera Árabe na Tunísia, no Yemen… No Egito e outros países, mas não na Síria?

SHN: Por razões claras. Primeiro, como princípio nós não queremos interferir nas questões internas dos Estados Árabes – essa tem sido sempre nossa política. Tem havido desenvolvimentos no mundo árabe… Têm sido muito sérios e muito importantes

em um nível que ninguém, nenhum movimento, nenhum partido pode deixar de ter uma posição. Na Síria, todos sabem que o regime de Bashar al-Assad tem apoiado a resistência no Líbano, apoiado a resistência na Palestina, que não recuou frente à pressão israelita e americana, então é um regime que serve muito bem à causa palestina. O que pedimos na Síria é diálogo, é uma reforma, para que reformas possam ser levadas adiante, porque a alternativa a isso, por causa das diversidades dentro da Síria, por causa da sensibilidade da situação na Síria, a alternativa é colocar a Síria em uma guerra civil, e isso é exatamente o que a América e Israel querem para a Síria.

JA: Sayyid, no decorrer do fim de semana, 100 pessoas foram mortas em Homs, incluindo uma jornalista com quem eu jantei há um ano, Mary Colvin. Eu posso entender sua lógica em dizer que nós não deveríamos destruir um país sem motivo algum e que é muito melhor fazer uma reforma se possível. Mas o Hezbollah tem um limite? Se há 100 mil pessoas mortas, um milhão de pessoas mortas, quando o Hezbollah acha que já é suficiente?

SHN: Desde o começo dos eventos na Síria nós temos mantido contato – contato constante – com a liderança da Síria, e temos conversado como amigos, dando conselhos sobre a importância de praticar reformas desde o começo. Eu pessoalmente achei que o presidente Assad estava disposto a levar adiante reformas radicais e importantes e isso nos tranquilizava, levando em consideração as posições que tomamos. Em mais de uma ocasião, publicamente, fiz discursos e falei isso exatamente, e nas minhas reuniões com vários líderes libaneses e árabes e outros líderes políticos, eu dizia a mesma coisa. Estou confiante que o presidente Assad quer fazer essa reforma e irá em frente com as reformas – realísticas, reformas genuínas – mas a oposição deve concordar com um diálogo. Eu direi mais que isso – essa é a primeira vez que eu digo isso – nós entramos em contato até com alguns elementos da oposição para encorajá-los e facilitar o processo de diálogo com o regime. Mas esses partidos, eles rejeitaram o diálogo e desde o começo temos um regime que está disposto a se sujeitar a reformas e está preparado para o diálogo. Por outro lado, você tem uma oposição que não está preparada para o diálogo e não está preparada para aceitar qualquer reforma, tudo o que querem é colocar o regime abaixo, então isso é um problema. Outra coisa, o que está acontecendo na Síria tem que ser… Nós temos que olhar com dois olhos, não só com um. Os grupos armados na Síria mataram muitos civis.

JA: Para onde você vê que a situação síria está indo? O que deveríamos fazer para parar as mortes na Síria? Você falou sobre diálogo, e é muito fácil falar sobre diálogo, mas existem medidas práticas para frear o derramamento de sangue?

SHN: Na pergunta anterior tem algo que eu não mencionei, mas eu acrescentarei isso nessa resposta. Existem, certamente, Estados que oferecem dinheiro, que fornecem dinheiro, que fornecem armas, que encorajam a luta dentro da Síria, e alguns desses são árabes… Países árabes, e também existem países não árabes. Isso é de um lado. Existe uma questão muito séria, que é confirmada, e nós todos ouvimos o Dr. Ayman al-Zawahiri, o líder da al-Qaeda, quando ele chamou para a luta na Síria… por… para armas na Síria, então existem combatentes da al-Qaeda que chegaram na Síria, e outros que os estão seguindo, de vários países, e eles estão tentando transformar a Síria em um campo de batalha. Então, países que fornecem armas e dinheiro poderiam alcançar os grupos da oposição que eles estão apoiando para que eles se sentassem à mesa e resolvessem as coisas politicamente. Eu disse isso alguns dias atrás: que alguns países árabes estão preparados para ter dez anos… para entrar em um diálogo político com Israel por dez anos sem parar – apesar de tudo que Israel fez na região – mas eles não vão dar um ou dois anos para – ou sequer alguns meses – para uma solução política com a Síria, e isso simplesmente não faz nenhum sentido e é injusto.

JA: Você estaria disposto a mediar esses grupos da oposição e o regime de Assad? As pessoas acreditam que você não é um agente dos Estados Unidos, ou saudita ou de Israel, mas será que eles vão acreditar que você não é um agente do regime de Assad? Se eles puderem ser convencidos, você aceitaria ser um agente da paz?

SHN: A experiência de 30 anos de vida no Hezbollah prova que ele é um amigo da Síria, não um agente da Síria. Você sabe, houve períodos na vida política do Líbano durante o qual nosso relacionamento com a Síria não era bom. Tivemos problemas entre nós, houve problemas entre nós, e agora aqueles que se beneficiavam da política e da influência da Síria e do Líbano são os que se opõem a nós, enquanto nós costumávamos estar sob pressão da Síria. Olha, nós somos amigos, não somos agentes. Os segmentos da oposição síria sabem disso e todas as forças políticas na região também sabem disso. Nós somos amigos. Esse é o primeiro ponto. Em segundo lugar, quando eu digo que nós apoiamos uma solução política, certamente estamos dispostos a exercer qualquer esforço ou qualquer contribuição para alcançar esse tipo de solução. Eu falei para você que nós entramos em contato com alguns partidos, mas eles se recusaram a dialogar com o regime. Então qualquer grupo que queira dialogar com o regime e que queira que nós sejamos intermediários, nós ficaríamos mais que felizes em mediar, mas estamos pedindo que outros façam esforços para criar uma solução política.

JA: Eu acredito que esses grupos de oposição iriam achar o papel do Hezbollah mais confiável se você dissesse ao regime de Assad que há um limite. Até onde o Hezbollah sabe, o regime sírio está livre para fazer o que quiser? Ou existem coisas que o Hezbollah não irá aceitar?

SHN: Sim, com certeza, eu penso que o presidente Bashar al-Assad tem limites, e nossos irmãos na Síria têm limites, e nós reafirmamos esses limites que todos nós temos que sustentar… Mas o problema é que tem uma luta acontecendo e de acordo com isso, quando um lado se retira, o outro avança. Enquanto as portas para uma solução política estiverem fechadas então haverá… Então isso irá continuar porque mesmo que um partido recue, o outro irá avançar.

JA: A Tunísia declarou que não irá mais reconhecer o regime sírio. Por que a Tunísia tomou essa forte posição para se desligar da Síria?

SHN: Eu acredito que essa posição que foi tomada em Tunis ou onde quer que seja foi baseada em uma prova incompleta – não vou dizer incorreta, eu diria incompleta. Claro, existe até mesmo o erro, informação incorreta que foi apresentada aos governos árabes e do Oriente Médio quando lhes foi dito que o regime iria cair dentro de algumas semanas, então vários deles queriam ser parceiros dessa vitória antecipada. Eu não escondo minha crença de que talvez a razão pela qual algumas dessas posições foram tomadas… Porque os novos governos encararam duros testes e eles acreditam que agora não é o momento para começar a discutir com os Estados Unidos e o Ocidente e coisas assim e é melhor apaziguá-los e ir de acordo com eles em muitas dessas questões.

JA: Você fez uma rede de TV internacional, a Al-Manar. Os Estados Unidos estão bloqueando a transmissão lá da Al-Manar. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos declaram que são o bastião da liberdade de expressão. Por que você acha que o governo dos Estados Unidos está com tanto medo da Al-Manar?

SHN: Eles querem poder falar às pessoas que o Hezbollah é terrorista, uma organização terrorista, que mata e comete assassinatos, mas eles não deixam que as pessoas nos ouçam. Por exemplo, se houvesse um julgamento justo então pelo menos o réu teria uma oportunidade de se defender, mas a administração americana… Nós somos acusados, mas não temos nem aquele direito básico, que é o de nos defendermos, e dar nosso argumento aos povos do mundo. Então, eles estão prevenindo que essa voz seja alcançada.

JA: Sayyid, como um líder de guerra, como você conseguiu manter seu povo unido sob a mira de fogo inimigo?

SHN: O fato principal, até onde sabemos, é que nós tivemos um objetivo, nós especificamos nosso objetivo. Esse objetivo é humano e moral e baseado na fé e patriótico. Não há discussão sobre isso. Esse objetivo é fazer que nossa terra seja livre da ocupação. Essa é a razão original, a verdadeira razão pela qual o Hezbollah foi criado e não há discussão sobre isso entre os libaneses. Nós não queremos ser… Nós não queríamos entrar no governo, no governo libanês, nós não competíamos pelo poder político. A primeira vez que entramos no governo, no governo libanês, foi em 2005, e o objetivo naquela época não era de ter uma parte do poder, mas sim de proteger a base da resistência para que esse governo, o governo que foi montado em 2000, não cometesse erros contra a resistência. Nós tínhamos medos desse tipo. Então, quando se tem um objetivo, um objetivo certo, ele é posto em prioridade e se evita quaisquer outras rivalidades para o bem desse objetivo, então pode-se manter todos juntos e continuar com a cooperação para alcançar esse objetivo, e até hoje nós somos… Evitamos nos envolver em disputas internas o máximo que podemos. Você pode ver que existem muitas, muitas questões no Líbano sobre as quais existem grandes discussões e diferenças. Nós evitamos, às vezes, até expressar nossa visão ou tomar posição para não nos envolvermos em querelas com o povo. Nossa prioridade é ainda a libertação da

nossa terra, e a proteção do Líbano da ameaça de Israel porque acreditamos que o Líbano ainda encara uma ameaça.

JA: Vamos voltar ao tempo quando você ainda era um menino. Você era filho de um feirante. Qual foi sua primeira lembrança como garoto nessa casa no Líbano? Essas lembranças iniciais afetaram seu pensamento político?

SHN: Naturalmente, quando era uma criança pequena, eu nasci e vivi por 15 anos em um bairro na Beirute Ocidental. Aquele bairro tinha certas características e naturalmente o ambiente deixa uma marca na personalidade da pessoa. Uma das características desse bairro era que era uma área pobre. Tinha muçulmanos, xiitas e sunitas, tinha cristãos, armênios, tinha curdos, e também libaneses e palestinos, então eu nasci e vivi nesse ambiente bastante misturado e variado. Naturalmente isso fez com que eu me tornasse alerta e preocupado com a Palestina e com a injustiça a que o povo palestino foi sujeitado, então eu tinha uma preocupação desde cedo com isso porque os palestinos que estavam em nosso bairro tinham sido todos expulsos de suas cidades, de Haifa, de Acre, de Jerusalem, de Ramallah. Esse era o ambiente em que eu nasci e cresci.

JA: Eu li uma piada sua muito boa sobre a criptografia e a descriptografia de Israel. Isso é interessante para mim porque eu sou um especialista em criptografia e o WikiLeaks está sob constante vigilância. Você se lembra dessa piada?

SHN: Sim. Eu estava falando sobre como a simplicidade pode derrotar a complexidade. Por exemplo, as forças israelitas no Líbano usavam uma tecnologia muito sofisticada, tanto nas armas quanto nas comunicações. A resistência, por outro lado, é uma resistência popular e a maioria dos rapazes que fazem parte dela são simplesmente garotos comuns dos vilarejos, de fazendas e cidades pequenas e de comunidades rurais. E eles falam em simples walkie-talkies – não existe complicação nisso, esses são aparelhos muito simples – mas quando usam códigos eles simplesmente usam o tipo de linguagem que… O tipo de gíria que é falada em suas vilas e entre suas famílias, então qualquer um que os ouça por meio do uso de aparelhos de vigilância e que tenha computadores tentando decodificar esse tipo de linguagem, não irá nunca conseguir… Não irão descobrir facilmente o que significa a não ser que eles tenham morado por anos nesses vilarejos – você sabe, a panela de cozinhar, o burro, até os dialetos, algo como “o pai da galinha” ou algo assim, você sabe, nenhum agente da inteligência israelita ou analista de computador irá entender quem é o pai da galinha e porque eles o chamam de pai da galinha… Mas isso não trará nenhum benefício para você no WikiLeaks! Usar esse dialeto!

JA: Eu vou fazer uma pergunta muito provocativa para você… Mas não é política. Você lutou contra a hegemonia dos Estados Unidos. Alá ou a noção de Deus não é o máximo superpoder? E você, tido como um defensor da liberdade, não deveria também buscar livrar as pessoas de um conceito totalitário… De um Deus monoteísta?

SHN: Nós acreditamos que Deus Todo Poderoso é o criador dessa existência e dos seres humanos e todas as criaturas. Quando ele nos criou ele nos deu capacidades, ele nos deu esses corpos, ele nos deu capacidades psicológicas e espirituais – nós chamamos isso de instinto. Pessoas isoladas de leis religiosas apenas têm um instinto – mas elas têm o instinto de dizer a verdade, elas têm um instinto… Seu instinto diz a elas que a verdade é boa, que mentir é ruim, que a justiça é boa, que a injustiça é ruim, que ajudar pessoas pobres e que são tratadas injustamente e defendê-las é uma coisa boa, mas atacar os outros e derramar seu sangue é horrível. A questão de resistir à hegemonia americana, ou resistir à ocupação, ou resistir a qualquer ataque contra nós ou nosso povo, essa é uma questão moral, instintiva e humana. Agora, Deus também gostaria que fosse assim, então, nesse sentido, a moral e os princípios humanos são consistentes com a lei dos céus porque as religiões de Abraão não vieram com algo que contradiz a mente ou que contradiz o instinto humano, porque o criador da religião é o mesmo criador dos humanos e as duas coisas são totalmente consistentes. Em qualquer sociedade, até mesmo em uma casa ou um país, se existem dois líderes, isso é uma receita para a ruína. Como o universo poderia durar bilhões de anos nessa linda harmonia e ter mais de um Deus? Se houvesse mais de um Deus, ele seria rasgado em pedaços, para que nós tenhamos a prova. Nós não lutamos para impor uma crença religiosa em ninguém. Abraão, o profeta Abraão, sempre foi a favor do diálogo e de mostrar provas, e todos nós somos seguidores desse profeta.

JA: Obrigado Sayyid.

TRADUÇÃO: Jessica Mota, da Agência Pública