Não conheço pessoalmente o candidato do PT a prefeito de São Paulo e jamais fui petista, mas quero pôr aqui uma palavra a favor de Fernando Haddad. Dono de editora, tenho por obrigação de ofício acompanhar o desempenho de quem é titular do Ministério da Educação, que é disparado o maior comprador de livros no país. Num cargo em que antecessores seus com frequência mostraram desvios de conduta, posso dar depoimento pessoal de que ele foi durante quase sete anos um ministro austero e eficiente. No meio raivosamente antipetista que é o da mídia mercantil, jamais que eu saiba surgiu nesta qualquer restrição à honestidade da conduta dele. Desenvolveu programas inovadores de criação em grande escala de escolas e universidades e de melhoria do ensino público no país.

Muito importante para mim: é militante de esquerda desde muito jovem. Professor, servidor público com atuação bem qualificada em vários cargos e serviços, intelectual brilhante, com participação ativa na vida universitária, é autor de vários livros em defesa do socialismo, conforme se pode constatar aqui ou na transcrição ao final desta matéria.

A entrevista com ele publicada por O Estado de S.Paulo a respeito de José Serra e “mensalão” é modelo ao mesmo tempo de contenção, inteligência e altivez do entrevistado. Aqui ou na transcrição a seguir.

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 ‘Serra tem ética seletiva’, afirma Haddad ao rebater mensalão

Candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Haddad afirma que tucano não menciona mensalão mineiro nem escândalos de Kassab durante o debate eleitoral

OESP, 09 de Outubro de 2012

Foto: José Patricio/AE – Para Haddad, crítica à tarifa proporcional de Russomanno foi ‘debate em torno de ideias’

Um dia depois de José Serra (PSDB) ter admitido que usará o julgamento do mensalão na campanha, o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, elevou o tom do duelo. “A ética do Serra é seletiva. Só vale para os seus adversários”, reagiu.

Haddad mostrou que o segundo turno será mais agressivo e citou escândalos que pairam sobre o PSDB, como o mensalão tucano e a compra de votos para a reeleição do então presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1998. Depois de gravar ontem, ao lado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cena de agradecimento aos eleitores para o reinício da propaganda política na TV, Haddad comemorou o apoio do PMDB e disse esperar a adesão de Celso Russomanno (PRB).

O candidato derrotado do PRB Celso Russomanno vai apoiar sua campanha?
Tivemos um contato já. Vamos aguardar. Eu entendo que há duas circunstâncias favoráveis para o entendimento entre nós. A primeira é que nossas três candidaturas – a minha, a de Russomanno e a de Gabriel Chalita – sinalizaram pela mudança e adotaram um tom crítico a atual administração. E a segunda é o fato de pertencermos à mesma base de sustentação do governo federal.

Até agora, o sr. só tem fechado o apoio do PMDB?
Temos uma ritualística que precisamos respeitar. O vice-presidente Michel Temer sinalizou o apoio, o que muito me honra.

O sr. disse que Russomanno não tinha plano de governo, que a tarifa de ônibus proporcional aumentaria o preço da passagem e que a eleição dele seria um salto no escuro. O sr. retira o que disse para tê-lo no palanque?
Fiz uma crítica à ideia e mantenho essa crítica. Não acredito nessa tese da tarifa proporcional. Essa proposta traria prejuízo à população mais pobre da cidade e não retiro o que disse. Eu mantive sempre um debate em torno de ideias. Nunca desdenhei da pessoa dele.

O sr. vai buscar o voto dos evangélicos da Igreja Universal?
A aliança no plano federal com o PRB passa longe dessa questão religiosa. Jamais trataria do assunto nesses termos. Sou filho de imigrante libanês, que sofreu na pele esse tipo de confusão entre religião e política.

O candidato do PSDB, José Serra, avisou que usará o mensalão contra sua campanha. Ele disse que fará discussão de valores com o PT porque quem tem mal entendido com o passado é o seu partido. Como o sr. responde?
A ética do Serra é seletiva. Só vale para seus adversários. Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei. Ela não vale para dentro, só vale para fora. Porque, caso contrário, ele faria menção ao mensalão tucano, que é anterior, é a matriz, e está para ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal na sequência desse processo. Ele mencionaria a suspeita de corrupção em torno da gestão do prefeito Gilberto Kassab.

A que denúncia o sr. se refere?
O secretário de Saúde (Januário Montone) é réu num processo de desvios de recursos da merenda escolar. O vice de Serra, ex-secretário da Educação (Alexandre Schneider), é réu em processo de improbidade administrativa por contratação sem licitação. O Hussain Aref, que Serra nomeou, adquiriu mais de cem imóveis com um salário de servidor público. O secretário do Meio Ambiente (Eduardo Jorge) é réu, junto com o prefeito, num processo que o Ministério Público encaminhou sobre o contrato com a Controlar. No que me diz respeito, vou defender sempre a investigação até as últimas consequências. Não farei seleção por partido. Não abafamos as investigações.

Do que o sr. está falando?
Na década de 90, nada era investigado pelo PSDB. A compra de votos para a reeleição (do ex-presidente Fernando Henrique), as privatizações que até hoje não foram esclarecidas… Nenhuma CPI foi instalada em função da pressão do governo da época.

O seu contra-ataque no horário eleitoral vai ser nessa linha?
Não se trata de um contra-ataque. É uma discussão. Serra é incapaz de comentar se ele é a favor ou contra a condenação do Eduardo Azeredo (no mensalão tucano), se é a favor ou contra o Aref, que ele nomeou.

O sr. é a favor ou contra a condenação de José Dirceu?
Eu não acompanhei o processo até pela coincidência de agenda. O Supremo Tribunal Federal marcou o julgamento na mesma época da campanha eleitoral. A decisão do Supremo é soberana e temos de respeitar.

O sr. acha que o Supremo agiu de forma casuística ao marcar o julgamento nessa data?
Eu não diria isso. Diria que a eleição acabou concorrendo com essa agenda. E talvez isso tenha prejudicado o calendário político, porque nós não pudemos fazer o debate que gostaríamos sobre a cidade.

O deputado Paulo Maluf (PP)disse que o sr. estaria melhor se tivesse usado mais a imagem dele na campanha. O sr. vai seguir os conselhos de Maluf ou pretende mantê-lo escondido?
Eu não quero causar constrangimento ao governador Geraldo Alckmin (PSDB). Eles têm uma aliança no governo do Estado e o PP ocupa cargos importantes. Não sei por que isso nunca é dito.

Mas a foto mostrando o sr. e o ex-presidente Lula, no jardim da casa de Maluf, ficará na história.
Minha eleição também ficará na história e vou perseverar para conquistá-la. Acho importante São Paulo mudar de rumo.

O sr. vai chamar a deputada Luiza Erundina (PSB), que renunciou à vice em sua chapa por causa de Maluf, para reforçar sua campanha no segundo turno ou ainda está magoado com ela?
De forma nenhuma. Isso é página virada. Erundina me ligou hoje (ontem), feliz da vida com a minha ida para o segundo turno. E eu fiquei muito feliz com o telefonema. Ela tem feito muitas plenárias com militantes. O apoio dela me honra muito.

A eleição para a Prefeitura de São Paulo, com o tradicional embate entre o PT e o PSDB, pode ser considerada uma prévia da disputa presidencial, em 2014?
O que está em jogo hoje é menos isso e mais a questão local, a forma como a cidade vem sendo administrada. A questão nacional aparece pela perda de oportunidades da atual administração em relação a parcerias com o governo federal. Perderam-se muitas oportunidades na área de saúde, educação, moradia e transporte público, por causa de uma visão mesquinha e provinciana da política.

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Ministério da Educação – Fernando Haddad

Ministro da Educação desde julho de 2005, o advogado, mestre em economia política e doutor em filosofia, Fernando Haddad, ocupava antes a secretaria executiva do Ministério.

Professor de ciência política na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade em São Paulo (USP), ele foi consultor da Fundação de Pesquisas Econômicas (Fipe), e analista de Investimento do Unibanco.

Durante a gestão da então prefeita Marta Suplicy, Haddad chefiou o gabinete da Secretaria de Finanças e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura do Município de São Paulo e foi assessor especial do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão.
Nascido em São Paulo, Haddad também é bacharel em Direito pela USP, com especialização em Direito Civil.

Em 1992, publicou o estudo sobre O Sistema Soviético, pela Scritta Editorial. Em 1998, publicou dois volumes pela Editora Vozes: Em Defesa do Socialismo e Desorganizando o Consenso. Seus outros dois livros são: Sindicatos, Cooperativas e Socialismo, pela Fundação Perseu Abramo, em 2003, e Trabalho e Linguagem, pela Azogue Editorial, em 2004.