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Com essas palavras Paul Craig Roberts saúda o resultado da eleição na Venezuela. O renomado colunista, ex-secretário assistente do Tesouro dos Estados Unidos, compara a ação humanista do governo venezuelano com as políticas que o governo seu próprio país adota, voltadas para dar mais privilégios aos ricos e promover guerras.  Não vê possibilidade de que nas próximas eleições para presidente o povo estadunidense possa conseguir resultado comparável ao que conseguiu o povo venezuelano.

Mas, embora ache que Obama é “menos ruim”, Craig conclui por uma recomendação para que os eleitores se abstenham de votar. É uma conclusão que talvez se explique pelo fato de ele ter participado de um governo do partido republicano, mas que não é compartilhada pela maioria os círculos liberais em seu país, que estão decepcionados com Obama mas torcem por ele, dado o discurso direitista fanático de Mitt Romney. [Na verdade, ele não está só nessa opinião; é interessante, a propósito, ver a entrevista de Mangabeira Unger (foi professor de Obama) à TV Cultura, que Vila Vudu divulga, com justiticada crítica por parcialidade aos condutores da entrevista, aqui.] Mas o artigo de Craig é vibrante e tem uma sintonia afinada com os acontecimentos na América Latina. Ver aqui e na tradução de Milton Nogueira a seguir.

 

Paul Craig Roberts Website, 13.10.12

Não vote pelo diabo

Paul Craig Roberts,

Há tempos, ainda durante o governo neoconservador de George W. Bush, o presidente Hugo Chávez da Venezuela disse ao mundo da tribuna da ONU (cito de memória): “Ontem, aqui nessa tribuna, esteve Satã em pessoa. Falou como se fosse dono do mundo. Ainda se sente fedor de enxofre no ar.”

Chávez é o Judas de malhação preferencial para a direita dos EUA, porque Chávez ajuda os mais pobres, em vez de sangrá-los a favor dos mais ricos, que é o que Washington faz.

Enquanto Washington só deixa falar e agir o 1%, Chávez já cortou pela metade a pobreza, duplicou o número de alunos nas universidades e assegurou saúde pública, aposentadoria e cuidados médicos a idosos para milhões de venezuelanos, que recebem atenção democrática pela primeira vez na vida.

É maravilhoso ver que Chávez foi reeleito para seu quarto mandato, apesar dos muitos milhões que Washington desperdiçou na campanha do candidato que concorria contra ele.

Enquanto Washington e a União Europeia pregam o neoliberalismo – a supremacia do capital e dos capitalistas sobre o trabalho e os trabalhadores –, políticos sul-americanos que rejeitam os ditames de Washington são eleitos e reeleitos em Venezuela, Equador, Brasil, Argentina, Uruguai e Bolívia.

Foi o governo do Equador – não o de Washington – que cumpriu o dever de integridade moral de assegurar asilo político a Julian Assange, de WikiLeaks. Washington está convertida em governo que só garante asilo político a perseguidos políticos no caso de o perseguido e o asilo poderem ser usados para gerar manchetes de jornal contra algum governo a que ela se opõe.

Bem diferente disso, não param de surgir lideranças na América Latina, cujos governos cada vez mais rejeitam (ou simplesmente descartam) a tradicional ‘hegemonia’ de Washington e da elite política dos EUA – e tanto faz que sejam Republicanos ou Democratas.

O candidato Republicano Mitt Romney prometeu cortar impostos que os ricos ainda pagam (que, de fato, já são mínimos), impedir qualquer regulação que atrapalhe a vida dos gângsteres na arena financeira e privatizar a Social Security e o Medicare.

Privatizar Social Security e Medicare significa desviar dinheiro dos pobres que pagam impostos para aumentar os lucros das corporações privadas. Em mãos Republicanas, privatização só significa uma coisa: cortar benefícios e usar dinheiro dos contribuintes para aumentar os lucros do setor privado. A política de Romney é apenas mais uma política que sacrifica o povo no altar no 1%.

Infelizmente, os Democratas, embora sejam mal menor, nem por isso são algum bem. Não há razão alguma para reeleger um presidente que converteu em lei a detonação da Constituição dos EUA; a detonação começou durante o regime Bush, mas, Bush, pelo menos, não assinou a lei que legalizou a detonação da Constituição. Quem deu esse passo a mais, e legalizou o poder do estado nos EUA para assassinar cidadãos estadunidenses, em ação clandestina de assassinato premeditado e execução sumária, e quem nada fez para conter a exploração dos estadunidenses pela gangue do 1% foi um governo Democrata, não algum governo Republicano.

Como diz Gerald Celente na edição de outono do Trends Journal, se obrigado a escolher entre dois males, não se pode votar pelo mal menor, porque quem fizer isso estará travestindo, como se fosse democrático, o que não deixa de ser mal. Melhor, nesse impasse, é boicotar a eleição e não votar. “Nenhum mal vira algum bem, por ser mal menor que outro mal.”

Se os estadunidenses não forem completamente sem noção, ninguém aparecerá para votar em novembro. Vença quem vencer, o povo dos EUA estará derrotado.

Seja Obama seja Romney, nenhum terá vitória significativa como a vitória de Chávez. Como disse à perfeição Lula da Silva, o mais popular ex-presidente do Brasil das últimas décadas: “A vitória de Chávez é vitória de todos os povos da América Latina e mais um golpe que acertamos contra o imperialismo.”

Washington, com todo o dinheiro que tem e com todo o poder do dólar, não conseguiu comprar a eleição venezuelana.

O que significará qualquer vitória nos EUA, seja de Romney seja de Obama, em resumo? Talvez indique o candidato preferido da direita israelense. Talvez indique o candidato preferido de Wall Street, ou do agronegócio. Talvez signifique que o eleito, seja quem for, é o doido que mais doidamente atacará o Irã. Talvez signifique qual dos dois meterá na cadeia número maior de estadunidenses comuns e normais, apresentados como perigosos terroristas porque protestam nas ruas contra detenções indefinidas, condenação sem provas, contra mais guerras e a favor da paz.

Os únicos que terão o que festejar nessa eleição, seja Romney seja Obama o eleito, são os sócios das oligarquias privadas que governam os EUA.