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A concessão do Prêmio Nobel de economia a dois estadunidenses, Lloyd Shapley e Alvin Roth, foi objeto de interessante comentário de Pietro Greco, jornalista científico e escritor italiano. Ao mesmo tempo que explica o sentido complexo das teses sobre matemática aplicada à economia que credenciaram os dois premiados a essa honraria polpuda, ele levanta dúvidas sobre a aplicabilidade dessas teses ao mundo real. O artigo, publicado na revista L´unità está aqui e a tradução do arquiteto Oscar Corbella – autor na Revan de duas obras notáveis sobre arquitetura adaptada aos trópicos (aqui e aqui) – a seguir.

O homem não é um algoritmo

Pietro Greco – L´unità – 16-10-2012

Tradução de Oscar Corbella

O Nobel em ciências econômicas 2012 foi para os americanos Lloyd Shapley, 89, Professor Emérito da Universidade da Califórnia, Los Angeles e Alvin Roth, 61 anos, Professor da Universidade de Harvard em Cambridge, Massachusetts. Os dois foram agraciados com o prêmio por sua “teoria de alocações estáveis e a prática de projetar o mercado”. Traduzido do jargão técnico significa que o primeiro, Lloyd Shapley, contribuiu, já desde os anos 50 do século passado, para elaborar teorias econômicas que explicam os mecanismos de intercâmbio fora do mercado. E o segundo, Alvin Roth, por ter aplicado, a partir dos anos 80, essas teorias para problemas práticos. Ambos usaram muita matemática.

Na verdade, há muitas décadas que os economistas buscam transformar sua disciplina em uma ciência fortemente matematizada. Dessa maneira, muitas vezes um Prêmio Nobel de economia poderia se transformar em uma Medalha Fields de matemática. E vice versa. Não é surpreendente que grandes matemáticos – de von Neumann a Nash – desenvolveram teorias econômicas e muitos economistas – um entre eles, Keynes – eram matemáticos.

UM SISTEMA DINÂMICO

Uma ideia central em teorias econômicas fortemente matematizadas é que o mercado é uma grande praça em contínua transformação, um sistema dinâmico, onde agem pessoas que sempre têm presente seu interesse (econômico) e tentam maximizá-lo. Com base nesse argumento, cujos pressupostos se originam a partir do pensamento de Adam Smith, foram desenvolvidas ao longo do tempo teorias econômicas fundadas em verdadeiros teoremas. No entanto, questionou-se Lloyd Shapley no final dos 50s: nem tudo no mundo é (ou deveria ser) mercado. Por exemplo, é possível explicar com um algoritmo a maneira melhor e mais eficaz para se casar dez mulheres com dez homens? Nesse caso se trata de alocações estáveis: feita a escolha, ela permanece (a menos de divórcios). O problema de alocações “estáveis” foi resolvido, em matemática, por Lloyd Shapley e David Gale com um algoritmo: o algoritmo Gale-Shapley. Claro (e felizmente) as fêmeas e os machos para casar-se não seguem – nem sempre, pelo menos – o interesse matemático (considerado ideal pelos economistas), mas os caminhos mais indescritíveis (e melhores) do amor e da paixão.

Assim, o algoritmo Gale-Shapley permaneceu inaplicado por muito tempo. Até que Alvin Roth decidiu aplicá-lo a problemas reais onde o interesse (não econômico) tem preeminência sobre a paixão. Por exemplo, a alocação de jovens médicos em hospitais. Como reunir, o mais favoravelmente possível para ambos, médicos e hospitais? Ou, mesmo, os rins para ser transplantados, com os pacientes que aguardam o transplante? Nenhum desses problemas pode ser resolvido com base nas leis do mercado.

Mas não por isto é aconselhável deixá-los ao acaso, ou à hegemonia de uma das partes contratantes, ou às recomendações “à italiana”. Alvin Roth defendeu e provou que soluções muito boas se podem encontrar com o algoritmo Gale-Shapley. E a coisa funcionou tão bem, pelo menos nos Estados Unidos, que mereceu um Nobel.

Permanece a questão de fundo. Serve a matemática para resolver problemas econômicos, ainda que na dinâmica do mercado em condições de estabilidade, como aqueles estudados por dois recém-laureados em Estocolmo? Sem dúvida, a matemática ajuda. Mas sem ilusão. Nossos problemas econômicos provêm da política. Uma política que, naturalmente, tem em conta o desenvolvimento da economia matematizada. Mas também o fato de que os homens não são só a “contrapartida racional” que preenche as teorias econômicas. Os homens são portadores de diversidade e de uma racionalidade muito mais profunda, que leva em conta outros interesses (desde os estéticos aos sociais, aos ideais) que vão muito além do mero interesse econômico. Nem sempre, felizmente, esses outros interesses são completamente redutíveis a algoritmos. Confináveis em modelos gerais.