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Foto: New York Times. Paula Broadwell com gal. Petraeus.

A demissão do general Petraeus da direção da CIA ameaça transformar-se crise política nos EUA. Semelhante ao escândalo da estagiária Monica Lewinsky com o então presidente Clinton, o assunto envolve muito mais do que um affaire sexual. Agora, é toda a política de guerra do governo estadunidense que entra em questão.

Com o passar dos anos após a crise relacionada com o caso Clinton-Lewinsky, ficou aos poucos documentado que a estagiária foi “plantada” na Casa Branca, logo no inícios dos anos 1990, por serviços secretos ligados ao complexo industrial-militar-financeiro. Esse “governo encoberto” do país via seus interesses contrariados por Clinton em relação a nomeações para cargos importantes e a projetos dele de ampliação dos sistemas federais de saúde e educação. Depois de cair na cilada, para evitar o impeachment, o presidente precisou aceitar as imposições de nomeação a que resistia, desistir dos projetos de reforma e partir para a política de guerra – imediatamente, nos Balcãs – que o “esquemão” exigia.

No caso Petraeus- Broadwell, as indicações de grave choque de interesses estão longe ainda de se esclarecer, apenas começam a aparecer. Mas o New York Times já levantou que houve dedo de manipulação do FBI (aqui).  Acumulam-se evidências de que o assunto tem a ver com manobras tipo cover action relacionadas ao ataque ao consulado dos EUA em Benghasi, com intervenção anti-Obama do governo de Israel nas recentes eleições estadunidenses, com o comportamento obscuro do próprio Petraeus na condição da guerra que seu país expande na África-Ásia.

As acusações mais dramáticas estão no site do velho e meio extravagante ativista Lyndon LaRouche, que levanta questões escabrosas, mas até verossímeis, sobre o atentado que resultou na morte do embaixador Christopher Stevens em Benghasi. Ele envolve o próprio Obama num projeto de preparação de uma guerra termonuclear com Rússia e China (aqui).

É do indiano M.K. Bhadrakumar que chega a observação mais confiável e ao mesmo tempo aguda. Também ele relaciona o incidente com o ataque em Benghasi e prevê desdobramentos importantes na política interna e externa dos EUA. No original aqui e na tradução de Vila Vudu a seguir.

Saída de Petraeus impacta a guerra do Afeganistão

10/11/2012, MK Bhadrakumar, Indian Punchline

A saída do diretor da CIA[1] tem importantes implicações para a Casa Branca. Em termos imediatos, permanece aberta a ‘chaga de Benghazi’. A CIA, como já se sabe, aconselhou a Casa Branca a defender, desde o início, que o assassinato do embaixador dos EUA na Líbia não fora ataque terrorista – tema que levantou poeira na fase final da campanha eleitoral de Obama.

Essa semana haverá audiência, com depoimentos, na Comissão de Segurança Nacional da Câmara, em Washington. A melhor esperança do presidente Barack Obama era que Petraeus defendesse a posição do governo e, com sorte, conseguisse controlar o incêndio. Na direção oposta, os Republicanos[2] apostam na possibilidade de Petraeus cuspir tudo o que sabe.

A saída de Petraeus também debilita o governo Obama no que tenha a ver com o Afeganistão, onde os laços do general com o campo Republicano no Congresso ajudaram Obama a defender “a avançada” [orig. surge], que não gerou resultados duráveis, mas os Republicanos optaram por desviar os olhos. Mitt Romney absolutamente não tocou na questão afegã, completamente apagada da campanha.

Petraeus sempre foi proponente e ardente defensor dos ataques com drones[3] nas áreas tribais do Paquistão. Nunca foi particularmente admirado pelos altos escalões militares do Paquistão. Assim, o destino da ‘guerra de drones’ pode estar por um fio (e sempre foi ponto de discórdia nas relações EUA-Paquistão).

De fato, ouviu-se de longe o suspiro de alívio saído do quartel-general em Rawalpindi, ante a notícia de que Petraeus já não trabalha para o governo Obama. E tudo isso acontece em momento crucial, quando se espera que Obama ‘revisite’ o problema afegão e as relações dos EUA com o Paquistão.

O Paquistão puxará todos os freios de mão, à espera de que Obama manifeste algum espírito de acomodação e reconheça a centralidade do Paquistão no encaminhamento da questão afegã. Já se ouvem vozes influentes[4] que pregam uma redução da pressão dos norte-americanos sobre o Paquistão.


[1] 9/11/2012, Guardian, http://www.guardian.co.uk/world/2012/nov/09/cia-director-david-petraeus-resigns/print

[2] 9/11/2012, CNN, http://cnnpressroom.blogs.cnn.com/2012/11/09/rep-peter-king-on-benghazi-hearing-petraeus-absolutely-necessary-witness/

[3] 4/11/2012, http://www.middle-east-online.com/english/?id=54714

[4] 7/11/2012, http://afpak.foreignpolicy.com/posts/2012/11/07/for_obama_a_second_chance_in_south_asia