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Walter Moore e Oscar Corbella, argentinos de alta formação técnico-científica – o segundo residente no Brasil – enviaram a Mirante estudo que elaboraram sobre a evolução futura provável do quadro mundial. Seu pensamento se distancia dos conceitos de luta de classes nos planos nacional e internacional, mas traz observações interessantes, que vale a pena conhecer.

O FUTURO INCERTO DO CAPITALISMO
Por Walter Moore e Oscar Corbella*

Seis meses antes da União Soviética – a outra superpotência – implodir, ninguém tinha previsto esse evento extraordinário. Como era possível uma nação que possuía um poder nuclear suficiente para destruir toda a vida na Terra ficasse, em meses, totalmente à deriva?

A teoria do caos, ou a teoria dos sistemas fora do equilíbrio, explica esses processos pelo crescimento de entropia de uma nação. A entropia, que é um processo universal que ocorre tanto no microcosmo, quanto no macrocosmo e no mundo biológico, também explica os processos da vida das sociedades. Quando um sistema organizado perde organização, se diz que aumentou sua entropia.

A entropia não funciona como um nível diferente de organização. É simplesmente um aumento da desorganização, que quando atinge certos limites, causa a mutação mais ou menos rápida do sistema. Por exemplo, a morte de um ser biológico é um degrau, onde o sistema do fluxo de energia vital para e degrada, transformando-se em outra coisa. Isso também acontece nas sociedades humanas e explica em certa medida o colapso da URSS.

O crescimento da entropia do colosso comunista foi dado em vários campos, incluindo:

· Hipertrofia da indústria militar, que, em enfrentamento com os Estados Unidos, forçou a União Soviética a investir os fundos na indústria bélica, em prejuízo da inversão na economia social e no desenvolvimento da infraestrutura.

· Existiu um défice de provisão de bens de conforto, que fossem além do alimento, habitação, educação e saúde gratuitas, fornecida pelo Estado soviético.

· Eles perderam eficiência no trabalho ideológico e político com as massas populares.

· As constantes intrigas e disputas de poder interno dentro do aparelho de governo.

· A perda de ideais socialistas entre os dirigentes do país e, em consequência, a degradação da sua autoridade moral para conduzir a sociedade.

Cada uma dessas causas pode ser assimilada com os processos que ocorrem hoje nos Estados Unidos. Vejamos:

  • Há uma hipertrofia da indústria militar, à qual foram concedidos vastos recursos estatais, pois ela é uma fonte de trabalho indispensável, dado que grande parte da sua indústria manufatureira estabeleceu-se em outros países.
  • Um colapso do sistema de provisão de habitação popular, graças á explosão da “bolha imobiliária”, originada na especulação com hipotecas.
  • Um crescente mal-estar na cultura, que se expressa pela existência de 22 milhões de toxicodependentes e 8.000 jovens que se juntam todos os dias a estas adições, com o desastre que isso implica para além dos Estados Unidos, como os 47.000 assassinatos ferozes dos cartéis mexicanos.
  • O ensino superior, que já não se destina a formar profissionais independentes, mas funcionários de empresas multinacionais, que não sabem o que fazer se alguém não lhes der emprego.
  • A hegemonia econômica do sistema financeiro, que não produz riqueza, mas que se limita a absorver a riqueza gerada pelas organizações que produzem bens reais.
  • A intriga dentro do aparelho de Estado estadunidense, legitimada através da instituição do lobbying, onde grupos económicos disputam os fundos estatais e influenciam as atividades governamentais.
  • O abuso da manipulação ideológica da população (os estadunidenses são aqueles que passam o maior número de horas no mundo assistindo televisão), etc., etc.

É verdade que a queda da União Soviética teve o constante assédio dos serviços de inteligência ocidentais, coisa que acelerou o processo, mas isso não é necessário no caso dos Estados Unidos, nem da Europa, porque os que provocarão o colapso das nações são os maiores beneficiados desses processos, bem como George Soros disse: “A guerra entre ricos e pobres a estamos ganhando os ricos, mas esta é uma situação instável”.

 

O QUE VAI ACONTECER?

A queda dos Estados Unidos e da União Europeia vai representar o fim da hegemonia mundial da ideologia liberal. A primeira coisa que vai acontecer é o explosão da bolha financeira global, que se manifestará como o colapso, ou seja, a perda de valor, tanto do dólar quanto do euro.

Como resultado, as economias que contam com o setor externo, ou seja, os mercados internacionais, serão substituídas pela incorporação de recursos para os mercados que precisam criar valor interno. Em outras palavras, a quase exclusiva capacidade de investimento capaz de gerar benefícios será aquela destinada a resolver as necessidades reais. Este não é o caso na Europa, nem dos Estados Unidos e Canadá, que tem a maioria de sua infraestrutura resolvida e, portanto, eles não têm nenhuma maneira de dar empregos permanentes para as suas populações, que, ao não receber salários, não têm capacidade para consumir, e assim interrompem o processo de crescimento da economia. A famosa “Abertura da Economia” será um fato meramente histórico. Ninguém abrirá sua economia para os outros, nem permitirá que exportem sua riqueza em troca de papéis impressos, cobertos por um “fantasma legal”.

O futuro intercâmbio será, com segurança, de bens contra bens. A economia retornará a seu curso real, a economia abstrata do modelo “financeirista” da economia do capitalismo crepuscular se terá esgotado per se. Finalmente, iniciar-se-á um Jubileu Universal, pois o sistema de dominação pelo controle das dívidas está entrando em colapso, e historicamente, estas crises foram resolvidas com a instituição do Jubileu, ou seja, o perdão das dívidas e a libertação total dos devedores.

Nesse cenário, terão preeminência países que tenham recursos reais: grandes populações dispostas a trabalhar, recursos naturais mais ou menos abundantes, e muito a construir.

O capitalismo não vai morrer, porque há muito tempo que a maioria do dinheiro em jogo não está com os capitalistas; os que gerenciam a riqueza do mundo hoje não são capitalistas, não utilizam o dinheiro próprio para dirigir as grandes corporações financeiras ou extrativas, e sim usam as economias de toda a população, pondo a mão em caixas de aposentadorias, ou planos de saúde, ou usando o credenciamento da dívida como se fossem ativos, enfim, servindo-se de quantos engodos imaginarem para apoderar-se dos recursos dos outros.

Mas ainda há capitalistas, grupos ou pessoas que têm o seu próprio dinheiro, dinheiro real, que não querem continuar a arriscar na “montanha russa” da especulação. Para eles, existirá um lugar onde prosperar, desde que eles encontrem uma maneira de se associar com aqueles que geram a riqueza, que são, obviamente, as comunidades dos trabalhadores.

Assim, o legado mundial que vai deixar o Islã é a punição da usura e correlato da Banca Sharia, ou a Banca Islâmica, que empresta dinheiro sem cobrança de juros, porque é um parceiro nos projetos que criam riqueza real. Não pede garantias sobre os seus empréstimos, mas ele atua como um parceiro capitalista com outro empresário de uma atividade criadora de riqueza real, ou seja, de bens, serviços e conhecimentos.

O Islã não castiga a riqueza, porque suas leis permitem obtê-la criando-a, e não a roubando daqueles que a produzem com seu trabalho.

Capitalistas: agora é a hora de se preparar para os tempos que advêm.

Buenos Aires, 5 de novembro de 2012

*) Walter Moore é argentino, mora em Buenos Aires, é desenhista industrial e ensaísta político. Entre sua numerosa obra se destacam os seguintes livros: “EcoDemocracia, el modelo post capitalista”, “Continentalismo versus Globalización – Soberanía democrática o sumisión genocida”, “La cuarta guerra mundial – el Imperio Global contra el Tercer Mundo”, “Dinero para la Vida – Cómo salir de la trampa monetarista”, todos os quais podem ser consultados em www.ecodemocracia.net.

Oscar Corbella é argentino, mora no Rio de Janeiro, é físico nuclear, com  pós-doutorado em Arquitetura e Urbanismo Sustentáveis. Atualmente leciona no PROURB da UFRJ, onde se ocupa da relação entre urbanismo, política e ética. Tem numerosos trabalhos acadêmicos publicados em revistas científicas ou apresentados em congressos e dois livros publicados pela Editoria Revan: “Em busca de uma Arquitetura Sustentável para os Trópicos” e “Manual de Arquitetura Bioclimática Tropical”, ambos dedicados a ensinar a interação entre o clima, o ambiente construído e as energias alternativas.