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O procedimento de golpe de Estado que vemos em curso hoje no Brasil lembra o que levou Getúlio Vargas ao suicídio em 1954*. Os golpistas de então conseguiram pegar envolvido em crime Gregório Fortunato, o chefe da segurança pessoal do presidente.

Manipularam o inquérito de tal forma que Vargas ficou acuado no Palácio do Catete, sob ameaça de ser levado “debaixo de vara” ao Galeão para depor e em seguida, inevitavelmente, ser deposto da Presidência. Daí a frase que ficou célebre: “Daqui só saio morto”.

Da mesma forma como os donos de jornais reacionários e entreguistas de 60 anos atrás não toleravam o espírito anti-imperialista e a preocupação social de Getúlio, a que chamavam de “populista”, hoje os donos da mídia de negócios repudiam Lula, Dilma e o PT, não obstante todas as concessões que estes fizeram à direita para conseguir governar. Abominam um governo que tem origem no movimento sindical de trabalhadores, pretende exercer uma política externa não submissa a Washington, cuida de dar benefícios e não só castigos aos pobres e, pior de tudo, tal como acontecia com Getúlio, conquistou a estima do povo e parece imbatível em eleições.

O jeito é derrubar. Contra Vargas, a imprensa golpista tinha apoio nos comandos das Forças Armadas. Hoje, com os militares relativamente afastados do cenário político imediato, “as quatro famílias” donas da mídia procuraram e conseguiram apoio no sistema judiciário-policial. Ao preço de subverter a norma jurídica consagrada da necessidade de prova para condenação de réu, o STF se entregou ao trabalho de criminalizar e expor à execração pública dirigentes do PT. José Dirceu, que mais de perto representou em dado momento o governo Lula, foi condenado de modo exemplar, inclusive com requintes de barbárie, tendo de cumprir pena na condição de preso comum – o que é retrocesso até mesmo em relação às condições da ditadura militar.

Até então, o objetivo era atingir Lula através de dirigentes do PT que foram auxiliares dele no Planalto. Agora, há novidade: o alvo imediato é a presidente Dilma, forte candidata à reeleição. Um inquérito da Polícia Federal chegou a auxiliares atuais dela na representação da Presidência em São Paulo. Enquanto a mídia das quatro famílias açula, os instrumentos judiciários são acionados para envolver a presidente, o que agora seria mais fácil fazer, com a teoria do domínio do fato a tiracolo.

Uma pergunta maior que está no ar é se Dilma seguirá o exemplo de Vargas e se deixará ficar acuada no palácio. Outra, é se Lula continuará na atitude de fingir que nada é com ele, enquanto o fogo se alastra. Sim, porque esse fogo não vai abrandar. Há uma crise institucional em crescendo. Jânio de Freitas, em sua coluna na Folha de S.Paulo, acusou a ameaça que paira de ela se transformar até em conflito entre os poderes constitucionais (aqui).

Lula e Dilma creem por acaso que seu prestígio e sua habilidade pessoais serão suficientes para conter os golpistas? Ou terão, como teve Cristina em Buenos Aires e, antes dela, Chávez em Caracas, coragem para enfrentar a mídia monopolista, com apoio nos movimentos populares, e pôr em pratica o projeto já existente de democratização dos meios de comunicação? É um risco, sim, mas, conforme o dito antigo, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Os movimentos sociais e patrióticos também são questionados pela crise. De modo geral, predomina entre eles a atitude de esperar que o governo se defenda por si mesmo. Mas o golpe de Estado em curso, se vingar, não importa a forma que tome, será sempre uma contraofensiva brutal contra os direitos e conquistas do povo e da nação. É indispensável que haja uma articulação ampla dos movimentos populares para resistir a esse avanço da direita antidemocrática e antinacional e, ao mesmo tempo, pressionar o governo no sentido da expansão democrática e da maior afirmação dos interesses do país.

*) “C’est pire qu’un crime, c’est une faute” (É pior do que um crime, é um erro”), a frase célebre de Fouché, se aplica bem ao caso. Por “excesso de zelo”, Gregório cometeu grave erro em desfavor de seu chefe ao envolver-se num atentado, em 4 de agosto de 1954, de que resultou a morte de um oficial da Aeronáutica, major Rubens Vaz, que servia de guarda privada para Carlos Lacerda. O inquérito, conduzido no quartel da Aeronáutica no Galeão, com apoio alucinado da imprensa reacionária, teve por clara finalidade responsabilizar Getúlio pelo fato (uma preliminar do “domínio do fato” de hoje), embora fosse óbvio que o presidente ignorava a participação de sua guarda no episódio. Apenas 20 dias foram suficientes para levar ao desfecho trágico, com o suicídio de Vargas.