A guerra internalizada na Síria termina 2012 sem resultado final à vista, mas com muita destruição e morte para o povo sírio.

O governo do país se defende a duras penas contra a agressão articulada pelos EUA e seus aliado, especialmente os feudos árabes de monarquias obscurantistas da região, apoiados em mercenários recrutados indiscriminadamente, em particular entre grupos sectários que adotam o terrorismo como prática política. Cada dia mais, a guerra degenera em conflito religioso, com consequências possivelmente terríveis para o povo, mas com apoio dos supostos expoentes da civilização leiga ocidental. Os equipamentos urbanos e instituições do país são destroçados, mas isto causa entusiasmo, não tristeza, nos meios capitalistas, pois a reconstrução tende a ser um bom negócio.

Duas matérias proporcionam um panorama da situação. A primeira é de Pepe Escobar, no original aqui tradução de Vila Vudu a seguir. A segunda, uma entrevista do ministro do Exterior russo Lavrov, no original aqui e na tradução de Vila Vudu no final.

Por quem dobram os sinos sírios
21/12/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online 

A maior tragédia geopolítica em 2012 está a um passo de ser também a maior tragédia geopolítica em 2013: o estupro da Síria.

Como algumas outras vezes volto à minha passagem de Hemingway, ultimamente tenho voltado a ver alguns vídeos que filmei há anos, no souk de Aleppo – o mais extraordinário de todos os mercados do Oriente Médio[1]. É como levar um tiro pelas costas; sempre gostei muito, muito, tanto da arquitetura do souk, quanto dos mercadores e da gente que anda por ali. Semana passada, quase todo o souk – a pulsação viva de Aleppo por séculos – foi incendiado e destruído pelos ‘rebeldes’ do chamado Exército Sírio Livre [orig. Free Syrian Army (FSA)].

Nessa tragédia síria, não há jovem herói de Hemingway, nada de Robert Jordan nas Brigadas Internacionais lutando ao lado e guerrilheiros republicanos contra os fascistas, na guerra civil espanhola. Na guerra civil síria, as brigadas internacionais são sobretudo mercenárias. Jihadistas-salafistas, do tipo que degola gente e explode carros. E os (poucos) jovens americanos que há por lá não passam de peões high-tech num jogo jogado pelo predatório clube CCGOTAN, dos fantoches árabes do Conselho de Cooperação do Golfe + a Organização do Tratado do Atlântico Norte.

A tragédia prossegue. O estado sírio e o aparato político e militar manterão as mini-blitzkriegs, sem se preocupar com “danos colaterais”. Na oposição, comandantes ‘rebeldes’ apostarão num novo Conselho Militar Supremo encorajado pelos sauditas-qataris.

Os salafistas e jihadis-salafistas da Frente al-Nusrah – fanáticos do século 7º, degoladores e agentes especializados em explosões, que fazem a maior parte dos combates – não foram convidados. Afinal de contas, Washington decretou que a Frente al-Nusrah é “organização terrorista”.

Verifiquem agora a reação de um dos chefões da Fraternidade Muçulmana, nascido em Hama, vice-general Mohammed Farouk Tayfour: disse que a decisão foi “muito apressada”. E verifiquem a reação do novo líder da oposição síria, Ahmed Moaz al-Khatib, numa reunião dos “Amigos da Síria” no Marrocos: disse que a decisão deve ser “reconsiderada”. De fato, todos os grupos ‘rebeldes’ declararam publicamente amor eterno e imorredouro aos linha-duríssima da Frente al-Nusrah.

Assim sendo, com os fanáticos da Frente al-Nusrah escondendo as barbas islamicamente corretas por baixo dos panos, deve-se esperar grandes avanços dos ‘rebeldes’ sobre Damasco – apesar de dois grandes revezes (em julho passado e, agora, nesse dezembro) impostos aos ‘rebeldes’ por cortesia da contraofensiva do governo sírio. Afinal de contas, algum resultado teria de dar tanto treinamento aprendido de Forças Especiais dos EUA, Grã-Bretanha e Jordânia, para nem falar dos carregamentos extras de armamento letal fornecidos por aqueles governantes das exemplares democracia do Golfo Persa. A Frente al-Nusrah controla partes da devastada cidade de Aleppo.

Regras do ódio sectário

E há também a orwelliana, recém inventada nova Coalizão Nacional de Forças Sírias Revolucionárias e de Oposição – co-produção Washington-Doha. Apresentamos o novo chefão, igualzinho ao velho chefão, que se chamava Conselho Nacional Sírio. Tudo, só retórica. A única coisa que interessa à nova “Coalizão Nacional” é arranjar mais e mais armas letais. E, ao contrário de Washington, adoram a Frente al-Nusrah.

Qatar despejou toneladas de armas “como doces” (nas palavras de um norte-americano comerciante de armas), na Líbia “libertada”. Só depois de atacados em Benghazi, o Pentágono e o Departamento de Estado acordaram para o fato de que armar os rebeldes sírios poderia ser, digamos, o mapa do caminho para novos contragolpes mortais. Tradução: o Qatar se encarregará de despejar toneladas de armas na Síria. Os EUA continuarão a “liderar da retaguarda”.

Esperem novos e mais horríveis massacres sectários como o que houve em Aqrab. O Channel4 (http://blogs.channel4.com/alex-thomsons-view/happened-syrian-town-aqrab/3426) oferece a versão mais confiável do que pode ter realmente acontecido. Prova-se assim, mais uma vez, que os ‘rebeldes’ do CCGOTAN estariam realmente vencendo a guerra de YouTube. Então, esperem mais e mais ondas de incansável propaganda e versões ‘de especialistas’ – com a mídia-empresa ocidental atuando como torcida organizada dos ‘combatentes da liberdade’ sírios, em tom que faria corar de vergonha os jihadistas dos anos 1980s no Afeganistão.

Esperem mais e mais distorções de contexto, como quando o vice-ministro russo de Relações Exteriores Mikhail Bogdanov disse que “a luta será cada vez mais intensa, e [a Síria] perderá dezenas, talvez centenas de milhares de civis… Se esse preço para derrubar o presidente parece aceitável para vocês… o que poderemos fazer? Para nós, é preço absolutamente inaceitável.”

Então, a Rússia tenta fazer todo o possível para impedir que aconteça. E se os ‘rebeldes’ do CCGOTAN continuarem com as ameaças de atacar as embaixadas russa e ucraniana em Damasco, melhor que raspem a barba e tratem de esconder-se das Spetnatz – Forças Especiais Russas, que não são de conversa mole.

Esperem mais e mais ódio sectário, como o do xeique sunita e estrela da rede al-Jazeera Yusuf al-Qaradawi, o qual, como quem não quer nada, lançou uma fatwa que torna legítima a matança de milhões de sírios, militares ou civis, desde que sejam alawitas ou xiitas (http://www.youtube.com/watch?v=ZgVF0t2mfsE&feature=player_embedded).

O ódio sectário reinará, com o Qatar no comando, seguido pelos sauditas com bolsos cheios e legiões de islamistas linha duríssima. Agenda: guerra contra os xiitas, contra os alawitas, contra os secularistas e até contra os moderados, não só na Síria, mas em todo o Oriente Médio.

Cara a cara: Patriot vs Iskander

A nova estratégia do Exército Sírio resume-se a sair do interior do país e das bases remotas, concentrando tropas nas vilas e cidades.

Esperem que a estratégia geral do CCGOTAN permaneça mais ou menos sem alteração: atacar o Exército Sírio no maior número possível de pontos; desmoralizá-lo; e continuar lubrificando o terreno para uma possível intervenção pela OTAN (todos os boatos inventados sobre armas químicas e a repetição incansável do mote da “catástrofe humanitária” são itens do vasto pacote de recursos dos especialistas em guerra psicológica).

É possível que o Exército Sírio tenha armamento mais pesado; mas, confrontado com um tsunami de mercenários e jihadistas-salafistas bem treinados e armados pelo clube CCGOTAN, a guerra pode durar anos, ao estilo da guerra civil no Líbano. Assim chegamos a “melhor” opção que resta: de fato, é opção derivada – matar o estado sírio, com mil, digamos logo, com um milhão, de cortes.

O que é certo é que a “coalizão de vontades” contra a Síria deixará de existir no instante em que vencer o jogo. Washington aposta em governo chefiado pela Fraternidade Muçulmana, para a Síria pós-Assad. Não surpreende que o Reizinho de Playstation na Jordânia esteja em pânico; ele sabe que a FM também tomará a Jordânia, o expulsará e o condenará a consumir os dias comprando na Harrods.

Aqueles monumentos exemplares de democracia – as petromonarquias medievais do Golfo Persa – também estão em pânico; temem o apelo popular dos Irmãos, como temem a peste. O Curdistão sírio – agora já definitivamente a caminho da total autonomia e eventualmente da independência – já deixa Ankara sem ar, de medo. Para nem falar da possibilidade de aquele tsunami de salafistas-jihadistas desempregados saltarem sobre a fronteira sírio-turca, para criar o inferno dos dois lados.

E há o relacionamento complexo entre Turquia e Irã. Teerã já preveniu Ankara em termos claros sobre o sistema de mísseis de defesa da OTAN (aqui).

Trata-se da obra-prima de novilíngua do final de 2012. O porta-voz do Pentágono George Little enunciou, firme e claramente, que “os EUA estão apoiando a Turquia em seus esforços de autoproteção [contra a Síria].”

Quer dizer que o deslocamento de 400 soldados norte-americanos para a Turquia para operar duas baterias de mísseis Patriot, aconteceu para a Turquia se “autoproteger” contra “ameaças potenciais que emanam da Síria.”

Tradução: nada disso tem algo a ver com Turquia; trata-se, exclusivamente, dos militares russos na Síria. Moscou deu a Damasco não só os muito efetivos mísseis supersônicos terra-terra Iskander (virtualmente imunes a sistemas de mísseis de defesa), mas também o sistema terra-ar, de defesa contra alvos múltiplos Pechora 2M, um pesadelo para o Pentágono, no caso de, algum dia, vir a ser imposta uma zona aérea de exclusão sobre a Síria.

Bem-vindos ao encontro, cara a cara, Patriot vs Iskander. E bem na linha de fogo, lá está ele, o primeiro-ministro da Turquia Recep Tayyip Erdogan – ególatra tamanho-gigante, que padece de profundo complexo de inferioridade em relação ao europeus – deixado na chuva, no plano máster da OTAN.

O calcanhar de Aquiles da Turquia (além dos curdos) é o papel que os próprios curdos promovem, de estarem localizados numa encruzilhada de energia entre leste e oeste. O problema é que a Turquia depende de suprimento de energia que recebe de ambos, Irã e Rússia. Pouco espertamente, a Turquia antagoniza esses dois lados ao mesmo tempo, com sua confusa política para a Síria.

“Só ouço destruição e trevas”*

Como resolver essa tragédia? Ninguém parece estar ouvindo o vice-presidente da Síria Farouk Al-Sharaa. Em entrevista ao jornal libanês Al-Akhbar (aqui), Al-Sharaa chama a atenção para a “o risco de a guerra atual destruir a Síria, história, civilização e povo. A cada dia que passa, a solução fica mais distante e mais difícil, militarmente e politicamente. Temos de nos posicionar para defender a existência da Síria.”

Al- Sharaa não tem “resposta clara sobre qual possa ser a solução”. Mas tem um mapa do caminho:
Acordo algum, comece com conversações ou acordos entre capitais árabes regionais ou estrangeiras, jamais existirá sem uma base síria sólida. A base tem de ser síria, para um acordo histórico, que terá de incluir os principais países da região e os países-membros do Conselho de Segurança da ONU. Esse acordo deve incluir o fim de todos os tipos de violência, e a criação de um governo de unidade nacional com amplos poderes. E terá de vir acompanhado da resolução de dossiês sensíveis relacionados à vida das pessoas e suas legítimas demandas.
Não é o que os membros do clube CCGOTAN querem – com EUA, Grã-Bretanha, França, Turquia, Qatar e Arábia Saudita engajados, cada um, em sua própria agenda, mesmo se divergente das demais. Mas a guerra do CCGOTAN já alcançou um dos seus objetivos – muito semelhante, sim, ao que se viu no Iraque em 2003: já reduziram a farrapos o frágil tecido social sírio.

É capitalismo de desastre em plena ação, fase I; o terreno já está preparado para uma lucrativa “reconstrução” da Síria, depois de instalado lá um governo servil, maleável, pró-turbo-capitalismo ocidental.

Mas… a volta do cipó de aroeira no lombo de quem chicoteia é fenômeno que opera por vias misteriosas: milhões de sírios que, de início, apoiaram a ideia de um movimento pró-democrático – dos empresários em Damasco aos mercadores em Aleppo – já mudaram de lado e hoje incham a base de apoio ao governo sírio, como uma espécie de contragolpe contra a horrenda limpeza étnico-religiosa que está sendo promovida pelos ‘rebeldes’ do tipo al-Nusrah.

Mas, com o CCGOTAN de um lado, e Irã-Rússia de outro, os sírios comuns, apanhados no centro do fogo cruzado, não têm para onde ir. Nada deterá o CCGOTAN até ter esculpido – em sangue – qualquer tipo de entidade, seja um emirado pró-EUA, seja uma ‘democracia’ pró-EUA comandada pelos Irmãos da Fraternidade Muçulmana. Não é difícil ver por quem os sinos dobram na Síria: não dobram por ti, como em John Donne; dobram pela catástrofe, pelas trevas, por mais mortos e mais destruição.


[1] Veem-se imagens (turísticas) do souk de Allepo, em http://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotos-g295416-d324950-Aleppo_Souk-Aleppo_Aleppo_Governorate.html

* Orig. All I hear is doom and gloom. Dos Rolling Stones. Pode ser ouvida em http://www.vagalume.com.br/the-rolling-stones/doom-and-gloom-traducao.html (com tradução ruim) [NTs].

——————

“A Rússia não está no business de ‘mudança de regime’”
24/12/2012, Sergey Lavrov, Ministro das Relações Exteriores da Rússia
Entrevista a Russia Today Moscou [vídeo e entrevista traduzida]
Russia Today [RT]: O senhor está terminando o ano com uma visita à Índia. A Rússia muito claramente apoia a Índia, que aspira a tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Como o muito criticado CS da ONU poderá ser beneficiado com a participação da Índia?

Serguey Lavrov [SL]: Em primeiro lugar, nem todas as críticas que se fazem ao CS são fundamentadas. A mais recente onda de crítica tem a ver com o fato de que se diz que o CS não poderia agir na Síria. Porque muito queriam ver alguma ação do CS, os críticos tentaram fazer aprovar uma Resolução, baseada no Capítulo 7º, pela qual se aplicariam sanções e, eventualmente, se usaria a força na Síria. E Rússia e China estão 100% convencidas de que isso seria desastre total e que seria o primeiro movimento ladeira abaixo, na direção de uma repetição do que se viu na Líbia, o que não se pode admitir, nem a região suportaria. Assim sendo, os que dizem que o CS nada faz devem lembrar que a Carta das Nações Unidas assegura o direito de veto, não para ser simpática aos membros permanentes, mas porque os que criaram as Nações Unidas, depois da indigesta experiência da Liga das Nações, decidiram que, a menos que cinco grandes potências mundiais tenham idêntica opinião sobre algum tema, nenhuma decisão seria aprovada para gerar efeitos. Por isso, o direito de veto foi incluído na Carta da ONU, aliás, por muito empenhada insistência dos EUA.

Claro que muito tempo passou desde 1945, o Conselho de Segurança ampliou-se, para a categoria de membros não permanentes, e agora, depois de várias décadas de o Conselho funcionar sempre com a mesma composição, há movimento forte na direção de ampliar o número de membros, para que reflita melhor o pluralismo da comunidade mundial. A Rússia é empenhadamente favorável a essa ampliação, estamos convencidos de que países em desenvolvimento, novas economias e novas potências econômicas no Terceiro Mundo, como Brasil e Índia, por exemplo, devem ser representados no Conselho de Segurança. Somos favoráveis a que sejam recebidos como novos membros permanentes, desde, é claro, que se criem novos postos de membros permanentes. E é justamente nesse ponto que a ONU está dividida. Um grupo entende que deve haver novos membros permanentes; outro grupo, que também são países muito respeitáveis, entende, categoricamente, que não se devem criar novos postos para membros permanentes; e que só se poderiam acolher novos membros não permanentes.

A Rússia entende que esse tipo de divisão não pode ser decidida por voto ‘aritmético’. Que se deve buscar o consenso, sobretudo porque já se decidiu, há algum tempo, que a reforma do Conselho de Segurança deve ser objeto de acordo amplo entre os estados-membros. Assim, qualquer tipo de reforma, que resulte de acordo geral entre os estados-membros terá o apoio da Rússia. Não seria bom votar a reforma do Conselho de Segurança, antes de haver acordo amplo, porque a questão dividiria  os estados-membros. E, aos olhos dos que votassem contra uma reforma imposta pela maioria ‘aritmética’, o CS ‘expandido’ perderia legitimidade, em vez de obter mais legitimidade. E o que nós queremos é que o CS tenha cada vez mais legitimidade, ao mesmo tempo em que deve ser mais amplamente representativo. Mas, seja como for, estamos trabalhando muito para alcançar esse acordo geral amplo a favor de uma reforma, porque acreditamos que a Índia, sem dúvida, merece ter assento ao Conselho de Segurança como membro permanente.

Síria: “terroristas do mal” vs. “terroristas aceitáveis”?

RT: Como o senhor disse, a Rússia continua a bloquear os esforços de alguns estados-membros do CS, interessados em aprovar uma Resolução que permitiria uma intervenção de forças estrangeiras na Síria. O senhor acha que mesmo assim poderá haver ação militar, ‘pelas costas’ da ONU, como aconteceu no caso do Iraque?

SL: Ora… Já aconteceu, e não só no caso do Iraque, também no caso da ex-Iugoslávia. Sim, é possível. Você citou um exemplo; há outros. Mas sinto que os que gostariam de interferir na crise da Síria não querem agir absolutamente sem nenhum tipo de cobertura, sem nenhuma legitimidade; ou, no mínimo, sem alguma ação na ONU que permita apresentar a intervenção como se fosse legítima. Temos de defender o texto da Carta, que absolutamente não tem ‘saídas de emergência’ e que diz que o CS é autoridade em questões de paz e segurança internacional, e que sua função não é apoiar um lado ou outro, em conflitos internos. Isso, exatamente, é o que está em andamento na Síria.

Muita gente tem grande interesse em internacionalizar o que se passa na Síria, para poder ampliar a guerra e a violência para além das fronteiras sírias; continuam a tentar e tentar, sobretudo nos casos em que haja refugiados obrigados a fugir da Síria, expulsos por ações de violência desproporcional das forças governamentais.

Mas, do outro lado, inúmeras gangues armadas da oposição, que não se ligam entre elas por nenhum tipo de comando ou de objetivo, também se têm servido de métodos inaceitáveis, absolutamente contrárias à lei humanitária internacional: fazem reféns, organizam ações terroristas.

É desalentador que nossos colegas ocidentais no Conselho de Segurança já comecem a falar favoravelmente desses ataques terroristas na Síria, dizendo que, sim, o terrorismo não é bom, mas é preciso levar em conta o contexto geral na Síria e os ‘motivos’ pelos quais os terroristas estão recorrendo ao terrorismo. Esse raciocínio é absolutamente inaceitável.

Se seguirmos essa lógica, seremos empurrados para situação muito perigosa, não só no Oriente Médio, mas em outras partes do mundo, se nossos parceiros ocidentais começarem a classificar terroristas em “terroristas do mal” e “terroristas aceitáveis”.

De Damasco a Moscou: não se usarão armas químicas “em absolutamente nenhum caso”

RT: Outra questão que surge de tempos em tempos, como motivo para justificar a intervenção estrangeira é a Síria possuir armas químicas. O senhor acha que esse perigo é real, ou não passa de novo pretexto para uma invasão?

SL: Não acredito que a Síria use armas químicas. Seria suicídio político para o governo, se usasse. Sempre que se ouvem esses rumores, ou surgem fragmentos de notícias de que os sírios teriam feito algo com as armas químicas, nossa inteligência examina e reexamina, e novamente reexamina os indícios; e vamos diretamente ao governo e sempre nos dizem, formalmente, que não há nenhum tipo de plano para usar armas químicas, sejam quais forem as circunstâncias. A informação que temos – e que é a mesma informação que os EUA também têm, pelo que sei – é que o governo fez alguns movimentos com os estoques de armas químicas, mas para concentrá-las, porque haviam sido espalhadas em diferentes locais, em dois pontos; o objetivo é garantir que as armas químicas estejam protegidas.

De fato, todos concordam, inclusive os diplomatas ocidentais (os europeus e os norte-americanos) que, hoje, o maior risco é a probabilidade de os rebeldes chegarem às armas químicas. Problema é que, embora reconhecendo isso, nossos amigos ocidentais dizem que “seja como for, a responsabilidade pelo uso das armas químicas é integralmente do governo sírio… mesmo que os rebeldes cheguem às armas”… É lógica, de fato, estranhíssima: ao mesmo tempo em que eles mesmos ajudam e encorajam os rebeldes a não negociar com o governo sírio… eles, os mesmos, continuam a estimular a guerra, fornecendo armas, dinheiro e apoio moral e político aos rebeldes. É posição estranha, muito discutível.

A lógica dos que dizem “nada de negociar com Assad” é controversa. Mas, sobretudo, é extremamente perigosa. Nós absolutamente não justificamos o que o governo sírio faz. Cometeram muitos erros, têm usado força desproporcional; as forças de segurança claramente não estavam, nem estão, preparadas para enfrentar protestos populares, nem, tampouco, para enfrentar oposição armada nas cidades e vilas. O Exército Sírio, evidentemente, foi treinado para enfrentar agressão estrangeira. Absolutamente não foram treinados para manter a ordem e fazer cumprir a lei, no plano nacional.

Mas a oposição, hoje, vive de provocar o governo sírio. Já recorrem até a ataques terroristas, a sequestros, fazem reféns, e estão introduzindo, também, no conflito, uma dimensão sectária, extremamente perigosa. O que se passa na Síria já começa a reverberar em todo o mundo muçulmano – sunitas, xiitas, árabes, curdos… A composição étnica e confessional da Síria é tão complexa, que, se se estabelecer o caos na Síria, praticamente toda a região será afetada.

Mas, voltando à situação presente – se os que dizem “não negociaremos com Assad” supõem que a partida de Assad seria, seja como for, a questão mais urgente, prioritária, enganam-se. Eles têm de entender que, para alcançar o objetivo geopolítico deles, terão de pagar o preço – e o preço é cobrado em vidas de civis sírios.

A Rússia entende que não nos interessa, como prioridade absoluta, a cabeça de alguém. Nossa prioridade absoluta é fazer cessar a violência e a matança. Se os que se recusam a negociar estivessem realmente interessados em salvar a Síria e os sírios, estariam conosco e contra as gangues que matam livremente dentro da Síria; e também desejariam chegar, o quanto antes, à mesa de negociações e sem precondições. Fato é que o destino de Assad tem de ser decidido pelo povo sírio, não por forças de fora, ativas ao lado da oposição síria.

RT: Mas há diferentes grupos de sírios em guerra entre eles mesmos; começou como um levante e, hoje, já é guerra civil. As chances de aquelas várias gangues sentarem para negociar numa mesma mesa de negociações são zero.

SL: Bem… A história ensina que todas as guerras levam a alguma paz; e que não há paz sem negociação. É inescapável. Não me parece concebível que os sunitas, que são a espinha dorsal do Exército Livre Sírio, assim como muitos outros grupos da oposição que lutam alinhados com o ELS, suponham hoje, em termos realistas, que alguém conseguirá controlar a Síria inteira, varrendo do mapa todos os demais grupos religiosos; falo de alawitas, outros grupos xiitas, cristãos, curdos… Ainda que alguém acalente esse sonho delirante, essa ‘dominação’ por um dos grupos jamais acontecerá na Síria. E se por acaso chegar a configurar-se, será momentânea e não durará. Não é sustentável.

“A Rússia não está no business de ‘mudança de regime’”

RT:O senhor sabe o quanto, desde o início desse conflito, a Rússia foi criticada no ocidente por bloquear os esforços dos EUA e aliados para resolver as coisas na Síria. O senhor acha que, se a Rússia tivesse conduzido as coisas de outro modo, desde o início, se, digamos, há um ano a Rússia tivesse convencido Assad a renunciar, as coisas seriam diferentes na Síria?

SL: A Rússia não está no business da ‘mudança de regime’. Alguns atores regionais nos sugeriram “Por que vocês não dizem ao presidente Assad que saia de lá? Conseguiremos abrigo seguro para ele.” Minha resposta é muito simples: se os que nos sugeriram isso estivessem de fato interessados nessa solução, deveriam levar a ideia diretamente ao presidente Assad. Por que tanto interesse em nos usar como intermediários? Se o presidente Assad se interessa, é assunto que teriam de discutir diretamente com ele.

O presidente falou várias vezes em público, inclusive por esse canal de televisão que também transmite em árabe, e disse que não deixaria a Síria; que nasceu lá e morreria lá com seu povo, que seu principal interesse é seu país. Nessas circunstâncias, estaríamos interferindo na decisão que o presidente tornara pública, se lhe sugeríssemos o que fazer, porque, como já disse, é assunto que cabe ao povo sírio decidir.

Em segundo lugar – nossa política para a Síria não depende do quê ou de quem fale sobre ela, com críticas ou elogios. Ouvimos críticas, mas também ouvimos muitas vozes de encorajamento, de países que entendem a importância da questão, não só para a região, mas para a política mundial, pelo modo como se faz e segue-se a política mundial.

Quando a crise começou, em agosto de 2011 – poucos meses depois do início da crise – foi a Rússia quem sugeriu que o Conselho de Segurança reagisse. E aprovou-se uma declaração, consensual, na qual se diziam as coisas certas: que todos os combates tinham de cessar e que era indispensável que se iniciasse o diálogo.

Depois, em setembro de 2011, Rússia e China propuseram uma minuta de Resolução que daria firmeza aos elementos, aos componentes do acordo, todos bem claros naquela Resolução. Os países ocidentais disseram que não estava ao gosto deles, porque a Resolução exigia que a oposição suspendesse os ataques, assim como o governo. A proposta não funcionou.

Em seguida, apoiamos o plano da Liga Árabe. Persuadimos o governo sírio, e absolutamente não foi fácil, a aceitar o plano da Liga Árabe. Endossamos a ideia de enviar observadores da Liga Árabe à Síria, e trabalhamos muito também com Damasco, para que os recebessem. Infelizmente, a missão foi abortada, sem que se saiba exatamente por quê. Foi abortada exatamente quando, em dezembro de 2011, aqueles observadores entregaram seu primeiro relatório ao Conselho de Segurança, relatório absolutamente objetivo, e que não culpava exclusivamente o governo, mas também descrevia as atrocidades e violências que estavam sendo cometidas pelas gangues de oposição. Então, a Liga Árabe abortou toda a missão.

Foi a vez, então, do plano Kofi Annan; outra vez consumimos muito tempo para explicar ao governo sírio que seria interessante que aceitassem aquele  plano; o governo sírio aceitou o plano Kofi Annan. Foram enviados observadores da ONU. Os observadores trabalharam e conseguiram que começasse a haver alguma relativa calma, não sustentável, mas, ainda assim, os observadores da ONU obtiveram alguns sinais de estabilização. Foi quando começou uma onda de ataques-provocação nas áreas onde os observadores estavam trabalhando; o objetivo daquelas provocações pareceu-nos absolutamente óbvio: criar uma situação insuportável, que tornasse impossível a manutenção do trabalho da ONU na Síria. Esse objetivo foi rapidamente alcançado. E os observadores também saíram da Síria.

Mas o que quero destacar é que, quando o plano Kofi Annan foi aprovado, quando os observadores da ONU foram mandados à Síria, o Conselho de Segurança aprovou, por consenso, duas Resoluções, n. 2.042 e n. 2.043, que manifestavam a posição de todo o CS. De fato, praticamente sem novidade, se se considera o que já lhe disse: fim da violência e início do diálogo. Significa dizer que o CS não estava paralisado. O CS tinha posição clara, formulada nessas duas Resoluções.

Comunicado de Genebra: ainda o plano para a Síria

Então, claro, em junho, em Genebra, criou-se o “Grupo de Ação” iniciado por Kofi Annan com empenhado apoio da Rússia, porque já dizíamos há algum tempo que os principais atores externos deviam reunir-se e trabalhar para encontrar uma abordagem comum, criando as condições pelas quais as partes sírias pudessem negociar o próprio futuro, sem interferência externa. Mas os atores externos podem desempenhar papel importante, se criarem as condições necessárias para um acordo na Síria.

Em primeiro lugar, do ponto de vista de enviares sinais sincronizados de encorajamento, todos na mesma direção: para o governo e para todos os grupos de oposição, que digam, por exemplo “Dia X, às Y horas, todos  os combates devem cessar, e devem ser nomeados delegados”. Então se deve começar a negociar a composição do que chamamos “órgão transicional de governo”, que terá plena autoridade durante o período de transição, para garantir que as instituições do governo não desapareçam – como desapareceram no Iraque (e as consequências de as instituições terem sumido, no Iraque, são sentidas até hoje). Em seguida, preparam-se eleições, uma nova constituição… e daí por diante.

Em Genebra, de fato, conseguimos fazer isso: todo o P5 (todos os membros permanentes do Conselho de Segurança), mais a União Europeia, a Liga Árabe, Turquia, ONU – todos esses concordaram sobre a sequência dos passos iniciais.

A sequência que conseguimos aprovar por consenso foi: fim dos combates, indicação de delegados interlocutores, que negociem a composição do órgão transicional e governo. Esse órgão manterá as instituições do estado e deve organizar eleições e redigir uma nova Constituição.

Então, concluímos “Ótimo. Afinal, há algum consenso. Vamos nos firmar nesse consenso. Assim enviamos um sinal forte, sincronizado entre nós e dirigido a todos os grupos em luta.”

Mas então nossos amigos ocidentais, que acabavam de firmar aquele documento, recomeçaram: “Só isso não basta. Temos de ter uma Resolução do CS, nos termos do Capítulo 7º, e é preciso acrescentar uma linha, no esquema inicial, que determine que Assad tem de sair.” Ora… Já não se tratava mais do que acabávamos de decidir!

Na nossa tradição russa, quando se negocia alguma coisa e se chega a um acordo, nós respeitamos o que tenha sido acordado. Infelizmente, parece, vários dos parceiros com os quais negociam em Genebra têm outros hábitos. Os efeitos negativos disso ainda se fazem sentir hoje.

O esquema de Genebra mantém-se absolutamente atual

L.Brahimi, indicado para substituir Kofi Annan, já disse várias vezes que aquele acordo é a base de sua atividade. Tentou convidar russos e norte-americanos para discutir novos meios para implementar o Acordo de Genebra. Estamos contentes de ouvir um representante dos EUA dizer que eles desejam ‘solução pacífica’

Coalizão Nacional Síria: objetivos “inalcançáveis” e princípios “ruinosos para o país”

Mas ainda não obtivemos resposta alguma para uma questão muito importante. O ocidente e vários países da região – Turquia, estados do Golfo Persa – apoiaram e reconheceram a Coalizão Nacional Síria, criada num encontro em Doha, elogiada como passo importante para unificar a oposição. Somos a favor de unificar a oposição, e desde a reunião em Genebra insistimos que os que tenham influência sobre os grupos de oposição devem trabalhar para aproximá-los, exatamente nos termos do que ficou acordado em Genebra, formalizado no Comunicado de Genebra. Essa é a mensagem que temos enviado, não só ao governo, mas também aos grupos de oposição. Nos reunimos com todos eles: semana passada, um daqueles grupos esteve em Moscou; antes do final do ano outros grupos da oposição também virão.

Quero dizer que estamos enviando a mesma mensagem aos dois lados, ao governo e aos grupos da oposição: “Senhores, a base é essa. Façam o que o Comunicado de Genebra sugere, que é o melhor a fazer, para todos vocês. Sentem-se e negociem.”

Mas o encontro de Doha, que endossou a Coalizão Nacional Síria e que foi apoiado pelo ocidente e por importantes atores regionais, divulgou também uma declaração segundo a qual o principal objetivo da oposição é desmontar, de fato, derrubar o regime e desmantelar as instituições do regime. É posição que se opõe frontalmente ao que ficou decidido no Comunicado de Genebra. E, naquela declaração, também está dito que “nada de negociar com o regime” – o que também agride frontalmente os princípios de Genebra.

Quando perguntamos aos nossos colegas norte-americanos (falei com Hillary Clinton, com quem estive durante uma reunião da OSCE em Dublin), sobre como explicar que os EUA apoiem posição que é absolutamente oposta aos princípios de Genebra, ela respondeu que “Bem, no estágio atual o importante é unir os vários grupos. E depois podemos corrigir a substância dos objetivos que eles definam.” OK. Passou-se um mês.

Quase todas as semanas examinamos os esforços que estariam sendo feitos para modificar a tal “substância”: absoluta rejeição a qualquer negociação e ênfase total no uso da força. Não vimos nenhuma mudança. A única conclusão possível é que ninguém está conversando com a oposição sobre a importância de pensar com mais realismo, nem sobre a necessidade de evitarem-se posições que, de fato, estão arruinando a Síria.

Mísseis Patriot na Turquia: dizem “Síria”, mas pensam “Irã”?

RT: O deslocamento dos mísseis Patriot da OTAN, para a fronteira turco-síria, seria em parte uma solução? Qual o verdadeiro alvo daqueles mísseis?

SL: Em primeiro lugar, é claro que compreendemos a preocupação da Turquia e de outros países que continuam a receber refugiados sírios; é uma carga extraordinária, sob quaisquer circunstâncias. Claro que a situação é bastante tensa. A oposição na região, nas regiões sírias da fronteira com a Turquia, está bastante ativa, tentando, provavelmente, provocar ações transfronteiras, tentando gerar revolta na comunidade internacional contra a violação de fronteiras. Incidentes acontecer, e já houve fogo de um lado para o outro várias vezes. Imediatamente levantamos a questão com os sírios. O que nos disseram pareceu-nos perfeitamente racional e crível. Disseram que não iniciaram qualquer ação; que revidaram ataques de grupos de oposição que invadiam a Síria, atacavam e fugiam de volta para território turco.

Imediatamente sugerimos aos turcos e aos sírios que a Rússia poderia colaborar e criar uma linha de comunicação direta, em tempo real, que permitiria que se checasse cada incidente. Os sírios aceitaram, os turcos disseram que já tinham seus próprios canais de comunicação. E foi quando surgiu a questão dos mísseis Patriot.

Reconhecemos o direito da Turquia de pensar ela mesma sobre a própria segurança e o direito de usar, nessa finalidade, os acordos internacionais dos quais a Turquia participe – nesse caso, os direitos que tem como membro da OTAN. E aceitamos a implantação dos mísseis como fato. Por outro lado, quanto mais equipamento de guerra for acumulado num mesmo local, maior o risco de que as armas sejam usadas, mais dia menos dia.

Quanto ao objetivo do deslocamento das baterias de mísseis, sim, ouvi e li o que especialistas dizem, que, se o objetivo dos mísseis, ali, fosse impedir qualquer ataque vindo da Síria, nesse caso os mísseis deveriam estar em outra posição, diferente da atual. Há quem diga também que, do modo como estão posicionados, os mísseis ajudam, mais, a proteger o radar dos EUA que é parte do sistema norte-americano de mísseis de defesa que está sendo montado; em outras palavras (cito) “contra a ameaça iraniana”. Nesse caso, eu diria, a situação é ainda mais perigosa, porque esse deslocamento e a implantação de mísseis para ‘vários usos’ podem criar tentações adicionais.

RT: Quer dizer que se trata mais do Irã, que da Síria, é isso?

SL: É o que muitos dizem. E a configuração, como está sendo divulgada pela mídia, sim, faz pensar que os Patriot possam ser usados contra o Irã.

A “Lei Magnitsky”[1] é um “Ardil 22”[2] para o governo Obama

RT: A Síria não é a única questão entre EUA e Rússia. O primeiro ato de Obama depois de reeleito foi assinar a chamada “Lei Magnitsky”, que impõe sanções a cidadãos russos e alguns funcionários do governo russo. Em que pé lhe parece que estejam as relações EUA-Rússia, com Putin e Obama no comando?

SL: Acho que esse não foi o primeiro ato de Obama depois de reeleito. Mas a coisa toda sempre foi inevitável. Quando os senadores – sen. Cardin e alguns outros – apresentaram o projeto da chamada Lei Magnitisky,  tudo foi feito de modo a criar um “Ardil 22” para o governo Obama.

Porque o governo estava trabalhando pelo fim da Emenda Jackson-Vanick,[3] com o apoio de muita gente no Capitólio. E era absolutamente óbvio que os norte-americanos queriam o fim da velha lei, porque, depois que a Rússia chegou à Organização Mundial do Comércio (OMT), a manutenção da emenda Jackson-Vanick implicava impedir que empresas norte-americanas auferissem os benefícios de a Federação Russa estar integrada à OMC. Foram, pode-se dizer, obrigados a pôr fim à velha lei.

Mas então, me parece, os Republicanos decidiram armar esse ardil e associar o fim da Emenda Jackson-Vanick à nova Lei Magnitsky. É bem claro que, naquele momento, tudo foi feito para criar problemas para o presidente Obama. Quanto aos cidadãos russos incluídos nas proibições da nova lei (a relação dos nomes ainda não foi publicada)… Se os EUA queriam impedir que cidadãos russos entrassem nos EUA, mais fácil seria listar os nomes proibidos, como sempre foi feito, sem precisarem de lei para fazer isso. Claro que também poderiam fazer isso, como tantas vezes se vê, sem todo o show que montaram.

Se queriam congelar bens de russos, bastaria ir à qualquer corte e apresentar provas de crimes – mais uma vez, sem show, sem propaganda. Mas os Republicanos usaram o fato de que o governo Obama muito se vangloriou, durante seu primeiro mandato, do “reset” das relações com a Federação Russa. Então, decidiram atacar Obama exatamente nesse ponto: no “reset” com os russos.

Meras questões eleitorais determinam a agenda internacional dos EUA

É uma lástima, porque assim se vê o quanto questões miúdas, da política doméstica, determinam a agenda internacional. De fato, na opinião de muitos, dominam também tudo que está acontecendo entre Rússia e EUA. E as questões são muito, muito mais amplas e complexas do que ditos direitos humanos interpretados por senadores norte-americanos.

RT: Todos recordamos a conversa entre Obama e Medvedev, quando Obama prometeu ser mais flexível depois que passassem as eleições. Mas, pelo que o senhor disse, o quanto o presidente Obama conseguiria ser realmente mais flexível, se enfrenta esse tipo de oposição no Congresso?

SL: Bem… Acho que são as peculiaridades do sistema norte-americano. Qualquer deputado ou senador pode impedir que se analisem questões extremamente importantes… só porque um determinado estado dos EUA, uma determinada empresa, não está conseguindo vender para um ou outro país, por motivos fitossanitários. As questões globalmente importantes podem ser simplesmente congeladas pelos interesses de um estado, de uma empresa, mesmo que esse específico interesse nada tenha a ver com a substância de algum grande tema mundial.

A própria Emenda Jackson-Vanik foi várias vezes renovada, mesmo depois de todos os problemas de emigração estarem resolvidos na ex-União Soviética e, claro, também na Federação Russa. Mas a Emenda Jackson-Vanik foi várias vezes renovada, sob os mais diferentes pretextos, inclusive a falta de entusiasmo, entre os russos, por importar as tais coxas de frango, e todo o tipo de coisas.

Natan Sharansky, conhecido dissidente da ex-União Soviética, que participou do governo de Israel, disse, ao ouvir falar dessas disputas comerciais-eleitorais, que “não passei sete anos num campo de prisioneiros dos comunistas, para assegurar direitos a coxas de frango.” Tudo isso mostra, de fato, como o Congresso dos EUA várias vezes perde completamente a sincronia e a lógica e torna-se absolutamente incapaz de fazer qualquer interpretação lógica e realista do que sejam os verdadeiros interesses nacionais dos EUA.

Por isso, às vezes, questões muito importantes – como o conflito Israel-Palestina e a urgente necessidade de resolver aquele conflito – viram reféns de políticos norte-americanos autistas. É uma peculiaridade dos ciclos eleitorais nos EUA. Considerações domésticas, a absoluta prioridade que os governantes dão à própria reeleição, passam a bloquear a administração pública e a impedir que os EUA tomem medidas que o resto do mundo entende que tenham de ser tomadas. Há eleições a cada dois anos. E esses ciclos, sem dúvida alguma, influenciam toda a agenda internacional. É uma fatalidade, um infelicidade.

Muito melhor seria que se pudesse abordar as grandes questões internacionais considerando-se mais o mérito de cada questão, a importância gigantesca de o mundo poder empreender ações conjuntas, para o bem de todos, sem sermos empurrados para um ou outro curso de ação, ao sabor dos interesses pequenos, politiqueiros, de um ou outro candidato, nos EUA.

*************************************************


[1] Orig. “Magnitsky Bill”, também referida como “Magnitsky Act”, ou pela designação formal oficial “Russia and Moldova Repeal and Sergei Magnitsky Rule of Law Accountability Act of 2012” [Lei de Transparência, 2012, contra Rússia e Moldávia, rejeitada a Proposta Jackson-Vanik, no caso Sergei Magnitisky]: lei proposta pelos dois partidos, aprovada no Congresso dos EUA e sancionada pelo pres. Obama dia 14/12/2012.

Sobre o caso [versão norte-americana]: em 2009, o advogado e auditor Sergei Magnitsky foi assassinado numa prisão em Moscou, depois de haver divulgado vasta fraude que envolvia funcionários do setor estatal russo de arrecadação de impostos. Em junho de 2012, a Comissão de Assuntos Externos da Câmara de Deputados dos EUA aprovou o lei que passou a ser chamada de “Lei Magnitsky”.  O objetivo principal da lei é punir os funcionários russos considerados responsáveis pela morte de Sergei Magnitsky, proibindo-lhes a entrada nos EUA e qualquer acesso ao sistema bancário norte-americano. A lista dos funcionários russos proibidos de entrar nos EUA e de negociar com bancos norte-americanos está para ser publicada [mais sobre a lei, em http://www.govtrack.us/congress/bills/112/s1039 [NTs].

[2] Orig. Catch 22. É título de um romance (Ardil 22 no Brasil; Artigo 22 em Portugal); romance satírico-histórico do autor norte-americano Joseph Heller, publicado originalmente em 1961. O enredo gira em torno de Yossarian, piloto de avião-bombardeiro B-25 da Força Aérea Americana, enquanto ele e os demais membros do “256.° Esquadrão” encontram-se baseados na ilha de Pianosa, na Itália.

Devido a seu uso específico no livro, a expressão Catch-22 passou a ter significado idiomático, para uma situação sem saída, uma armadilha. No livro, o Ardil-22 é uma lei militar, cuja lógica de autocontradição deveria impedir impede que os soldados fugissem das missões de combate. Mas, como se lê no romance:
“A lei, o Ardil 22, que dizia que a preocupação com a própria segurança, em face de perigos reais e imediatos, é processo natural em qualquer mente racional. Orr estava doido e podia receber baixa. Tudo o que ele tinha a fazer era pedir. Mas, tão logo requeresse a baixa, provaria que não estava doido e podia, portanto receber novas missões de combate. Se voasse, provaria que, sim, estava doido e não poderia voar missões de combate. Mas se declarasse que não poderia voar missões de combate provaria que estava perfeitamente são e era obrigado a voar missões de combate” (mais sobre o romance, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Catch-22) [NTs].
[3] A Emenda Jackson-Vanik é lei federal nos EUA desde 1974, criada para reger relações comerciais entre os EUA e países que não patrocinem economias de mercado (na origem, visava diretamente o bloco comunista), impondo limites á imigração e limitando outros direitos humanos. A emenda passou a ser conhecida pelos nomes do senador Henry M. “Scoop” Jackson e do deputado Charles Vanik, ambos Democratas, e foi incorporada ao Título IV da Lei Comercial [Trade Act] de 1974; foi aprovada por unanimidade nas duas Casas e foi sancionada pelo pres. Gerald Ford, dia 3/1/1975. Permanece vigente até hoje, embora tenha deixado de ser aplicada a cidadãos da Federação Russa. Em 2011, o vice-presidente Joe Biden dos EUA propôs que a lei fosse derrogada e, dia 18/11/2012, a Câmara aprovou lei que cancela, para todos os efeitos a tal Emenda Jackson-Vanik. A nova lei está ainda sendo apreciada no Senado, apoiada pelo pres. Obama, que espera vê-la aprovada antes do final do ano –, mas enfrenta forte oposição da maioria Republicana (mais sobre isso, dentre outra páginas, na revista Forbes, 15/3/2012, aqui) [NTs].