Jornais, TVs e sítios na Internet do mundo inteiro publicaram matérias em comemoração dos 70 anos da Batalha de Stalingrado.
Mirante registra a passagem desse acontecimento crucial na história da humanidade divulgando a entrevista-documentário com um combatente russo que participou da batalha aqui , dois textos históricos soviéticos da época aqui e a matéria que o publicista indiano Bhadrakumar dedicou ao tema, no original aqui e na tradução cedida por Sergio Caldieri a seguir.

O que há no tal nome da tal cidade, “Stalingrado”?
4/2/2013, MK Bhadrakumar, Indian Punchline

A famosa cena do filme hollywoodiano Círculo de Fogo[1] capturava bem o espírito do tempo quando, falando a uma sala cheia de militares soviéticos bem no centro do front de Stalingrado na 2ª Guerra Mundial, o recém nomeado Comissário do Exército Vermelho Nikita Khrushchev, enviado especialmente por Joseph Stalin para conter a retirada, sob o assalto dos alemães, berrou:
“Meu nome é Nikita Sergeyevich Khrushchev. Vim para tomar as rédeas da situação por aqui. Essa cidade não se chama Kursk, não se chama Kiev, não se chama Minsk. Essa cidade é Stalingrad! Essa cidade leva o nome do Comandante. É mais que uma cidade: é um símbolo. Se os alemães capturarem essa cidade, todo o país cairá em colapso. Agora, que todos levantem a cabeça.”
Fato é que a vitória na Batalha de Stalingrado, na 2ª Guerra Mundial foi um dos momentos decisivos da história soviética. E o nome de Stálin está ligado para sempre àquela batalha heroica. Isso, nem se discute. 

Sábado passado comemoraram-se os 70 anos daqueles dias,[2] com Vladimir Putin presente às cerimônias. Interessante anotar que a cidade de Volvogrado reivindicou para si o nome de “Stalingrado” (que Nikita Khrushchev fez trocar, em 1961), especialmente para aquela comemoração histórica. Foi exigência da população da cidade, a mesma em cuja defesa morreram meio milhão de russos, mártires de uma saga heroica que durou 200 dias. Pois decidiram ser lembrados, 70 anos depois, associados ao nome de Stálin. 

A decisão do Kremlin, de falar não de Volvogrado, mas de “Stalingrado”, nas comemorações do final da semana, é carregada de simbolismo político. É a Rússia que renasce – e com ela sua autoconfiança –, afinal se reconciliando com sua história profunda. 

O ocidente dirá – e já começou a dizer – em tom de crítica, que Putin está ‘ressuscitando’ Stálin. A ironia dessa história é que, sem a mão de ferro de Stálin, a batalha de Stalingrado teria tido história diferente; e toda a história do ocidente teria sido outra, se Stálin, ali, não tivesse feito mudar a maré da guerra. 

A Batalha de Stalingrado foi o ponto de virada da 2ª Guerra Mundial.[3] Hitler concentrara o principal grupamento estratégico de seus exércitos entre os rios Don e Volga – 14 divisões nazistas concentravam-se contra Stalingrado – distribuídas numa fronteira de 850 quilômetros. 

Os alemães perderam 1,5 milhão de homens na Batalha de Stalingrado. O Exército Vermelho destruiu 3.500 tanques nazistas. Stálin quebrou literalmente a espinha dorsal da Alemanha nazista; Hitler nunca mais se recuperou. 

Os sacrifícios russos não teriam alcançado a proporção gigantesca que alcançaram, se as potências ocidentais – a Grã-Bretanha, em especial – tivessem aberto uma frente ocidental. Mas, na ocasião, Winston Churchill contava com que a União Soviética sangraria até morrer, sem apoio ocidental, e não reapareceria para contar a história. 

Por que uma nação se envergonharia da própria história? Nada é só belo e bom; tudo vem com a parte que presta e a parte que não presta. A gigantesca contribuição de Stálin na construção da União Soviética também é parte inarredável, imensa, da história da Rússia. Ninguém se dedica a narrar a história dos EUA impondo, no coração da história, a escravidão e o racismo. Nem o banho de sangue da Partition é o único evento que se considera, na história da civilização indiana. É sempre importante relembrar as lições da história. 

A Rússia está renascendo hoje, sob imensíssima pressão. Os EUA recusam-se a aceitar a ressurgimento da grande Rússia, e não abrem mão de uma sua sempre pressuposta “superioridade nuclear” – que é a única inspiração, a essencial inspiração do ‘novo’ programa dos mísseis de defesa dos EUA. 

Os EUA dizem que estão ‘ignorando’ a Rússia,[4] mas o verdadeiro jogo norte-americano é fugir de qualquer tipo de discussão séria e consequente sobre o equilíbrio estratégico global.

O pretexto aparente é que Putin seria ‘autoritário’. Mas a agenda real é quebrar o sistema político russo. Os EUA avaliam que haja rachaduras internas entre as elites russas e as classes médias; e que o edifício que Putin constrói tenazmente, sem descanso, não tem pernas firmes – como qualquer casa dividida. Não há dúvidas de que a Rússia tem, sim, de extrair força e densidade histórica de memórias que são dela: “Que os inimigos da Rússia nunca esqueçam a Batalha de Stalingrado”.[5]

********************************************

[1] Orig. Enemy at the Gates, 2001, em http://www.imdb.com/title/tt0215750/ [NTs]
[2] http://www.themoscowtimes.com/print/article/stalingrad-victory-commemorated/474959.html
[3] Ver http://www.historylearningsite.co.uk/battle_of_stalingrad.htm (em inglês)
[4] Em http://www.nytimes.com/2013/02/02/world/europe/another-reset-of-relations-with-russia-in-obamas-second-term.html?_r=0
[5] http://www.theprovince.com/news/years+later+enemies+remember+great+victory+Stalingrad/7911385/story.html

______________