Com prazo para sair do Afeganistão, os EUA não conseguem impor ao governo deste país ocupado por eles um plano de retirada que lhes agrade.

Maior potência militar da História, os EUA não conseguem vitória em guerra desde a II Guerra Mundial, que venceram em grande parte graças à União Soviética. Desde a guerra na Coréia, lançaram-se em inúmeras aventuras bélicas e só obtiveram vitória não mencionável na minúscula Granada.

Numerosas vezes mostraram-se capazes de destruir um país, mas nunca ficaram em posição de cantar vitória, e quando o fizeram, com Bush de um porta-aviões no Iraque, foi fiasco fragoroso.

Agora, no Afeganistão, enfrentam novo final infeliz. É o que se evidencia nas excelentes matérias de MK Bhadrakumar aqui e em português a seguir, assim como do Xinhuanet, de Pequim, aqui e em português a seguir, ambas com tradução cedida por Vila Vudu.

Não será fácil, para os EUA, livrar-se de Karzai
17/4/2013, MK Bhadrakumar, Indian Punchline

“Documento lançado pela Fundação Carnegie recomenda que Obama dê por encerradas as negociações do acordo SOFA, pelo menos por hora; e concentre-se no agente de todos os padecimentos dos EUA, a saber, o presidente Karzai; que deve arranjar as coisas de modo a livrar-se dele, varrê-lo da cena política; isso feito, bastaria a Obama instalar lá, como presidente do Afeganistão algum fantoche confiável, a ser eleito nas próximas eleições presidenciais, o qual rapidamente entregaria o acordo SOFA aos EUA, de bandeja [4].

O depoimento do comandante dos EUA no Afeganistão general Joseph Dunford, ante a Comissão das Forças Armadas do Senado, em Washington, na 3ª-feira, registra “crescente incerteza”[1] no Afeganistão, no cenário da segurança, para o pós-2014. O general Dunford usou essa incerteza como pano de fundo, para defender empenhadamente que os EUA não retirem um único soldado do Afeganistão, no futuro próximo.

Mas só tinha, para argumentar, a perspectiva segundo a qual, no final do verão, todos conhecerão a real capacidade das forças afegãs para assumir a tarefa de lutar contra os insurgentes;[2] então, será mais fácil estimar a presença militar dos EUA que será necessária, para o longo prazo. Mas Dunford disse – para espanto universal –, que os soldados norte-americanos devem ser dispostos em Cabul e “nos quatro cantos” do país.

Sobretudo agora, imediatamente depois dos eventos da Maratona de Boston, a opinião pública nos EUA não resistirá muito contra a ideia de estabelecerem-se mais bases militares no Afeganistão – desde que tenham o objetivo declarado de lutar contra a al-Qaeda.

Mas a verdadeira razão pela qual o Pentágono não pode aceitar nenhuma retirada no momento é completamente outra. A questão crucial é que o Acordo do Estado das Forças [State of Forces Agreement, SOFA] ainda não foi assinado; os EUA não sabem ainda, sequer, quais e quantas bases militares e que número de soldados serão autorizados a permanecer no Afeganistão. Os EUA ainda não sabem, tampouco, que imunidade ‘diplomática’ Cabul garantirá aos soldados norte-americanos que fiquem.

Do ponto de vista de Washington, a causa pela qual as negociações para o acordo SOFA continuam emperradas é o presidente afegão, Hamid Karzai, que insiste numa barganha duríssima. Como a rede Xinhua chinesa comentou semana passada,[3] Washington tem motivos para temer que Karzai absolutamente não conceda o que lhe tem sido insistentemente pedido.

Funcionários do governo dos EUA já disseram que, sem o acordo SOFA assinado nos termos que os EUA tentam impor, acaba-se completamente qualquer acerto ou negociação vigente – o que significa que Washington não mais se sentirá politicamente obrigada a cumprir os compromissos de apoiar financeiramente e militarmente a estabilização no Afeganistão.

O conhecido deputado Republicano da Califórnia, Duncan Hunter, que é membro da Comissão das Forças Armadas da Câmara de Deputados, disse em entrevista ao Washington Post, essa semana, que “Se os EUA não obtiverem um acordo SOFA satisfatório e não ganharmos as tropas (sic), o Afeganistão não ganha o dinheiro.”

É simples: sem SOFA, nem dinheiro nem guerra contra a Al-Qaeda no Afeganistão!

A parte financeira é extremamente sensível, porque a economia afegã é frágil e, sem apoio internacional, teremos um replay da queda do governo de Najibullah, em 1992, quando acabou a ajuda que os soviéticos haviam garantido até ali.

Mas a chantagem de Washington não está, ao que parece, funcionando; a principal preocupação de Karzai hoje é a difícil transição política em Cabul, depois das eleições presidenciais de abril de 2014.

Nesse contexto político altamente carregado, com Washington e Karzai andando em círculos, que opções restam aos negociadores dos EUA, para apressar a assinatura do acordo SOFA? De fato, nenhuma.

Documento lançado pela Fundação Carnegie sugere que Obama deve simplesmente dar por encerradas as negociações do acordo SOFA, pelo menos por hora, e, em vez de pensar nelas, concentrar-se no agente de todos os padecimentos dos EUA, a saber, o presidente Karzai; que deve arranjar as coisas de modo a livrar-se dele, varrê-lo da cena política; isso feito, bastaria a Obama instalar lá, como presidente do Afeganistão algum fantoche confiável, a ser eleito nas próximas eleições presidenciais, o qual rapidamente entregaria o acordo SOFA aos EUA, de bandeja.[4]

Dito de outro modo: se suspender as negociações do acordo SOFA, os EUA abrirão para si o espaço necessário para isolar Karzai e assegurar que não consiga atuar como o fazedor-de-reis no Afeganistão.

É quase como se estivéssemos de volta a 2009, quando o enviado especial dos EUA Richard Holbrooke tentou impedir um segundo mandato de Karzai na presidência. Karzai como se sabe riu por último, mas… que opções lhe restam hoje?

Hoje, as circunstâncias são diferentes. Principalmente porque as potências regionais já começaram a também jogar suas cartas no tabuleiro afegão – Rússia, China, Paquistão, Índia, Irã, etc. E prosseguem as conversações entre russos e uzbeques, em Moscou, na 2ª-feira (e as conversas do vice-presidente indiano M H Ansari em Dushanbe):[5] os estados da Ásia Central não assistirão passivamente aos eventos no Afeganistão.

O presidente russo Vladimir Putin e o presidente uzbeque Islam Karimov já decidiram “continuar a monitorar bem de perto a questão [da retirada das tropas dos EUA] e coordenar passos conjuntos futuros, sobretudo no que tenham a ver com a possibilidade de prover a ajuda de que o governo do Afeganistão precise para estabilizar sua situação política e militar.”[6]

Interessante, nesse contexto: Karimov chamou a atenção para os ventos geopolíticos que estão soprando na região, vindos do norte da África, pelo Oriente Médio e Golfo Persa, todos extremamente preocupantes, porque podem alcançar a Ásia Central, atravessando um Afeganistão dominado pelos Talibã.

Não há dúvidas de que, embora Karzai já seja um espinho a espetar a carne dos interlocutores norte-americanos, não será fácil livrar-se dele.[7] Karzai tem apoio regional, e sua coalizão permanece intacta (por mais que os paquistaneses se esforcem para desbaratá-la).

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[1] http://www.defense.gov/news/newsarticle.aspx?id=119785

[2] http://www.stripes.com/news/dunford-calls-for-strong-post-2014-presence-in-afghanistan-1.216859

[3] 18/4/2013, “Cada dia mais difícil a posição dos EUA no Afeganistão, enquanto EUA-OTAN continuarem a matar civis”, Xinhuanet (em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/04/cada-dia-mais-dificil-posicao-dos-eua.html).

[4] http://carnegieendowment.org/2013/04/15/take-bilateral-security-agreement-out-of-afghan-politics/fznr

[5] http://www.deccanherald.com/content/326386/reviving-old-ties.html

[6] http://eng.news.kremlin.ru/transcripts/5273

[7] http://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2013/04/15/karzais-woes-and-dalrymples-fiction-dont-match/

Cada dia mais difícil a posição dos EUA no Afeganistão , enquanto EUA-OTAN continuam a matar civis
13/4/2013, Abdul Haleem, Xinhuanet, Pequim

KABUL – A matança de civis inocentes, entre os quais mulheres e crianças, em ataques recentes pela Força Internacional de Assistência à Segurança [orig. International Security Assistance Force (ISAF)] comandada pelos EUA-OTAN, contra insurgentes Talibãs, só faz aumentar os sentimentos antiamericanos entre os afegãos e põe sob risco qualquer possibilidade de assinar-se qualquer acordo bilateral de segurança entre Cabul e Washington.

Nos recentes ataques do dia 6/4, na província de Kunar, forças dos EUA-OTAN assassinaram 11 crianças afegãs e feriram seis mulheres.

O presidente Hamid Karzai denunciou a matança de civis pela coalizão EUA-OTAN e alertou que os repetidos ataques contra civis afegãos pode ter impacto negativo nas relações entre EUA e  Afeganistão.

Declaração emitida pelo gabinete da presidência do Afeganistão diz que Karzai fez saber ao presidente dos EUA Barak Obama de suas graves preocupações com a continuada matança de civis afegãos, e citou especificamente a recente operação militar das forças de EUA-OTAN na província de Kunar.

Karzai disse a Obama na 3ª-feira que a repetição desse tipo de ação cria impedimentos adicionais à assinatura de qualquer acordo bilateral de segurança, pelo qual os EUA esperam conseguir manter presença militar, embora limitada, no Afeganistão, mesmo depois da retirada de todas as tropas estrangeiras, em 2014.

“Não há dúvidas de que a matança de civis por tropas da coalizão EUA-OTAN tem impacto adverso na percepção, entre os afegãos, de qual é o objetivo das forças estrangeiras no país. E já está comprometendo a credibilidade de nosso governo, ao qual cabe proteger os cidadãos nessa sempre prolongada guerra ao terror” – disse Pariani Nazari, editor-chefe do jornal afegão Daily Mandegar.

Residentes em Shalton, no distrito de Shigal na província de Kunar, onde as 11 crianças foram mortas, levaram os cadáveres para o centro administrativo do distrito, semana passada. Exigiam que o governo levasse a julgamento os responsáveis pela carnificina.

Mortes de civis pelas forças de EUA-OTAN são fonte de tensão crescente entre Cabul e Washington.

Karzai tem dito em várias ocasiões que a guerra contra terroristas nas vilas afegãs não é abordagem acertada, dado que, segundo o presidente afegão, os verdadeiros esconderijos e santuários dos Talibãs e outros grupos insurgentes armados não estão em território afegão, mas nas áreas de fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. O Paquistão porém negou que haja bases dos Talibã em solo paquistanês.

Em março, o principal porta-voz de Karzai, Aimal Faizy, criticou a guerra ao terror liderada pelos militares de EUA-OTAN no Afeganistão, como “pouco inteligente e sem objetivo claro”; disse também que a maioria dos afegãos querem o fim dos ataques que se fazem como parte daquela “guerra ao terror”.

Ao longo de todo o ano passado, funcionários do Afeganistão e dos EUA tentaram alinhavar um Acordo do Estado das Forças [ing. State of the Forces Agreement, SOFA], até agora sem terem chegado a coisa alguma.

Washington insiste em que o acordo assegure plena imunidade aos militares norte-americanos que permanecerão em território afegão depois de 2014, cláusula que existe, como uma espécie de cláusula padrão, em todos os acordos SOFA que os EUA mantêm com outros países.

Karzai tem dito que a imunidade – que porá os militares dos EUA fora do alcance da lei afegã – é cláusula a ser decidida pela Loya Jirga – a grande assembleia constituída de chefes tribais, personalidades afegãs e servidores públicos.

No início de fevereiro, depois de reclamações de funcionários na província de Wardak, Karzai ordenou a retirada das Forças Especiais dos EUA da província central, decisão recebida com festas pela população local.

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